Contos e Caprichos

"Não é que você seja diferente, mas é que ninguém consegue ser igual a você..."
(William Shakespeare)

sábado, 24 de setembro de 2011

ROSALINA, A BRUXA DE VERONA

“Essas alegrias violentas têm fins violentos, e morrem em seu triunfo. Assim como o fogo e a pólvora, que se consomem ao se beijarem.”
(Romeu e Julieta, William Shakespeare)

O sol se punha em tons de cor-de-rosa no horizonte, convertendo os serenos montes da cidade de Verona em uma escala de tons dourados. A cidade era quase deserta naquele crepúsculo glorioso, já que as duas mais nobres famílias de Verona estavam recolhidas em profundo luto.
Sucedeu que, na noite passada, em tristes condições, morreram Julieta Capuleto e Romeu Montechio, filhos de famílias inimigas, perdidos no amor mais sincero e puro entre eles.
 Também morreu o Conde Paris, que iria desposar Julieta naquele mesmo dia infeliz. Foi morto por Romeu, que se matou por Julieta, que se matou por Romeu. Amor e morte caminharam juntos.
No tranqüilo bosque de Verona, onde os jasmins desabrochavam e o rouxinol trinava, todos lindamente indiferentes ao luto que predominava na cidade, caminhava Rosalina, perdida entre pensamentos e devaneios.
“Rosalina, duro coração de pedra!”, não era assim que Benvólio e Mercúcio a chamavam, na época em que Romeu de amores se perdia por ela, enquanto era ignorado?
“Romeu não era para mim.”, refletiu ela. “Definitivamente, ele fora feito para Julieta. Mas o destino foi cruel e tanto amor não os salvou da desgraça... Oh, não! Não valeria menos uma longa vida sem amor do que uma breve e apaixonada vida, como a de Julieta e seu Romeu?”
E ficava Rosalina a pensar, enquanto colhia ervas no bosque, para fazer os seus feitiços. Sim, Rosalina, a loura, bela, e jovem Rosalina, aquela por quem Romeu morria de amores, era uma bruxa.
Boa bruxa.
Tão boa, que as bruxas más que habitavam as montanhas haviam lançado uma maldição sobre ela:

Se um dia um homem te amar,
E você corresponder,
Vamos lhe torturar
E ele ira morrer
Pobre Rosalina! Linda donzela que com o amor já sonhou, fizera voto de castidade, para tentar afastar os rapazes de seu coração. Romeu a amara de maneira avassaladora, mas ela foi forte e soube lhe ignorar. Mesmo assim ele morrera, vítima de sua devoção a bela Julieta, que se mostrara ser sua verdadeira alma gêmea.
Rosalina deitou-se na relva macia do bosque, sentindo o sol fraco bater em suas pálpebras fechadas. Sabia que não fora feita para amar, e que se um dia se apaixonasse por alguém, acabaria em desastre.
Mas seu coração de moça palpitava frenético, num ritmo alucinante, sonhando com cavalheiros montados em cavalos brancos, belos e destemidos, que viriam em seu socorro, amando-a mesmo sabendo que ela era uma bruxa. E ela acabava chorando, pois quando abria os olhos não havia nada a não ser uma vontade de amar tão grande que chegava a doer, pesando no peito.
Foi para casa.
Morava em uma bonita cabana na floresta com uma tia, perto da cidade, onde ás vezes ia a festas na casa dos Capuleto e ao templo de Diana. Rosalina não acreditava na deusa, sua fé falsamente declarada simplesmente era uma maneira de se afastar dos homens.
Sua tia, Hilda, também era uma bruxa, mas já estava um bocado velha. Rosalina a amava mais do que tudo, pois era tudo o que tinha. Hilda sorriu ao vê-la entrar.
 - Até que enfim, menina! – disse, tirando a capa de caminhada das costas da sobrinha. – Como é distraída essa criança! Por onde andou?
- Estive na clareira de sempre, minha tia. – respondeu Rosalina, com simplicidade. – E trouxe algumas ervas que faltavam para o meu estoque.
- Sim, bem vejo pelo estado do seu vestido! Não foi ao velório de Julieta e Romeu?
- Ai de mim! – exclama Rosalina. – Não quero pensar em morte, muito menos em amor. No meu caso, ambos são sinônimos!
Hilda segurou o ombro de sua querida sobrinha, com compaixão.
- Não fique assim, meu bem! Você tem a mim, e não precisa do amor de um homem para se fazer feliz. A maioria das moças que se casam são umas tolinhas! Você é uma bruxa, minha querida. Precisa de aventura para ser feliz! Precisa ser livre e sem compromisso.
Rosalina assentiu tristemente, e foi se lavar para a ceia. Gostava de se perfumar e usar os belos vestidos que ela mesma conseguia coser. Colocou o seu favorito: o perolado com rosinhas brancas, colocando também flores no cabelo louro.
Saiu para o jardim dos fundos, enquanto sua tia preparava o jantar. Sentou-se em um banco e ficou a pensar, melancólica.
Tão distraída estava que não ouviu o barulho de cascos de cavalo no chão ali perto. Tratava-se de Eleandro, um elfo, montado em sua galante égua branca.
 Elfos e fadas eram criaturas fantásticas que habitavam as florestas. Não deixavam que os humanos os vissem, mas eram criaturas divinamente belas e graciosas, parecidos de certa forma com humanos, mas suas peles tinham tons dourados brilhantes e suas orelhas eram mais pontudas.
Bruxas sabiam sobre os elfos. As boas comercializavam ervas e poções com eles, e as más eram suas inimigas. Eleandro estava indo a caminho da casa de Hilda para conseguir uma poção de alecrim para o seu pai, que estava doente. Sabia que a velha bruxa era uma grande fabricante de poções.
Se aproximou da cabana montado na égua, a postura de um rei, com arco e flecha em punhos para o caso de haver algum inimigo. Mas o único ser que avistou foi uma linda jovem, sentada em um banco de madeira, tão distraída em seus pensamentos, que só o notou quando ele estava bem próximo.
- Boa noite, bela dama. – começou ele. – Sou Eleandro, um pobre elfo a procura da feiticeira Hilda. Onde posso encontrá-la?
O coração de Rosalina disparou. Nunca havia visto um elfo antes, e este era magnífico! Levantou-se e fez uma mensura.
- Boa noite, gentil elfo. Sou Rosalina, uma feiticeira, e posso chamar minha tia Hilda, ela está dentro da cabana. Aguarde um minuto.
Eleandro viu a bruxa correr para a cabana, sentindo que ela levava parte de seu coração consigo. Sentou-se no banco de madeira, e ficou a esperar. Logo Rosalina voltou, trazendo sua tia consigo.
O elfo e a velha bruxa conversaram, e Hilda concordou em preparar a poção. A feiticeira não era boba, e percebendo os olhares tímidos entre o belo elfo e sua sobrinha, convidou-o para o jantar.
Eleandro aceitou, para a alegria de Rosalina, que se viu a sós com ele quando sua tia se retirou. Sentou-se ao lado dele, com o rosto em brasa. Queria conversar com ele, dizer algo inteligente, mas não sabia como começar.
- A noite está linda. – disse, por fim, olhando para o céu escuro, mas com vontade de desviar o olhar para o elfo ao seu lado. – Não acha?
- Sim, é verdade. – começou Eleandro. – Mas seria só mais uma noite para mim, se eu não houvesse encontrado a sublime luz dos olhos da senhorita.
- Meu senhor! – exclama Rosalina, levantando-se. Como boa donzela, se fez de ofendida, mas logo abriu um sorriso para demonstrar sua felicidade. – Se a luz dos meus olhos te encantam, quero que a guarde em seu coração.
- A guardarei eternamente. – jurou ele. – Junto com a lembrança da senhorita, o sol dos meus dias.
- Mas as nuvens podem cobrir o sol!
- Não o meu sol. Pois sua beleza e seu calor são tantos que nenhuma nuvem se atreveria a tentar ofuscar o seu brilho. – Eleandro se ajoelhou, segurando as mãos da bruxa. – Talvez a senhorita não me acredite, mas tenho certeza de que a amo o mais profundamente possível. Rosalina, quando coloquei meus olhos em seu rosto, conheci o significado do amor, sentimento do qual tanto ouço falar.
Rosalina quase desfaleceu, mas ele a segurou, impedindo que ela caísse.
- Não podemos! – sussurrou ela. – Uma maldição terrível paira sobre mim Se um homem me amar e for correspondido, morrerá!
- Meu amor, não sou um homem mortal, sou um elfo. – disse ele, suavemente. – E você é minha amada, minha linda dama-bruxa. Entenda que nada pode impedir o amor verdadeiro!
Rosalina fechou os olhos, deixando que Eleandro a beijasse.
Enfim havia conhecido o significado do amor, aquilo que ela tanto queria, mas nunca pode alcançar. Sabia que seriam felizes, e teriam um fim melhor que Romeu e Julieta.
E assim foi.
Se casaram alguns meses depois, e tiveram uma vida longa e feliz,  recheada de sentimento e emoção como nunca houve.
Anos depois, quando um homem chamado William Shakespeare escrevesse a mais bela tragédia, a história de Romeu e Julieta, não teria como saber sobre o que aconteceu com Rosalina, a moça cruel que rejeitou Romeu.
Como ele poderia saber que ela era uma bruxa cheia de sonhos e segredos? Como os leitores descobririam que ela tem uma história, que não é uma “personagem fantasma” de Shakespeare?
Bem... Agora você sabe.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. muito lindo o seu conto! adorei seu blog ja estou seguindo
    se puder dar uma olhadinha no meu...

    http://maisumadosedevodka.blogspot.com.br/

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