quarta-feira, 23 de junho de 2010

A ALIADA DA MORTE - PARTE 01


Desde que eu nasci, conheço o rosto da Morte.
Era ela quem se inclinava sobre o meu berço e me ninava com canções fúnebres, quando eu não passava de apenas um bebê. Então, para mim, o rosto de caveira da Morte era até mesmo mais comum do que o rosto dos meus próprios pais. Na verdade, MORTE foi a primeira palavra que falei.
Juro, é verdade. Naquele dia mamãe começou a rezar, e papai ficou fumando um charuto em sua poltrona, pálido como um fantasma. Pelo menos foi isso que a Morte me contou. No dia seguinte fui batizada, com orações fervorosas ao meu redor. Naquela época eu não sabia – não tinha como entender – que todas aquelas pessoas viam minha amiga Morte como algo ruim, um mau presságio. E eu era a criança que havia proferido a palavra de mau agouro.
Lembro-me da Morte me olhando do fundo da igreja. Ela ficou encostada ao lado de uma cruz, com os braços de cadáver cruzados sobre o peito e com sua inseparável foice ao seu lado. O que ninguém mais ali entendia era que minha amiga não era uma coisa má. Ela era gentil, amistosa, compreensiva e às vezes, nos melhores dias, bonita.
- Esses vivos! – Ela dizia, passando a mão de ossos no meu cabelo escuro. – São uns grandes covardes! Se agarram à Vida, a cruel e injusta vida, e fogem de mim, a pacífica Morte. E somente depois que os carrego comigo para o além é que percebem que a Morte é piedosa e suculenta, e enxergam o quão injusto foram comigo!
Depois, me olhava quase docemente.
- Mas você é diferente, Katrina. Você foi escolhida. A única criança que não chora ao ver minha face, nem mesmo tem medo de algo. Nada, absolutamente nada te assusta. Você é a minha Aliada.
Eu concordei. E Cresci.
Eu estava em meu quarto lendo um livro de terror quando minha mãe entrou carregando um embrulho. Ela é uma mulher loira, enérgica e radiante. Minha irmãzinha caçula, Angélica, é muito parecida com ela. Mas eu sou o oposto, em minha palidez desbotada e meus cachos e olhos escuros como breu.
- Tenho uma surpresinha para você! – Exclama ela, estendendo o tecido brilhante e rosado no meu nariz. Faço uma careta.
- Não quero vestir isso. – Faço uma pausa, fechando o livro e me sentando na cama de pernas cruzadas. – Escute, mãe... Não é porque deixei você fazer a bendita festa de quinze anos que vou deixar você decidir o que eu vou usar, certo?
Ela colocou as mãos na cintura, com a testa franzida.
- Katrina, essa coisa de “gótica” já me cansou. Eu sei o que é ser adolescente e querer ter uma identidade própria, mas não vou deixar minha filha ficar andando por aí de preto da cabeça aos pés para o resto da vida, como uma viúva perturbada.
- Já terminou? – Pergunto. Como ela não responde, eu começo. – Em primeiro lugar não sou gótica. – Digo, embora tenha as minhas dúvidas. – Não pinto o cabelo nem frequento cemitérios. Eu nem escuto rock! Em segundo, a senhora sabe que não tenho amigos e não quero festa nenhuma, mas insistiu tanto para organizar esse aniversário que eu acabei cedendo. Mas ter que vestir uma coisa que eu não gosto é o cúmulo!
Minha mãe senta na cama com um suspiro.
- Tudo bem! Você venceu! Mas você bem que poderia se enturmar com outros jovens e ser mais sociável. Não custa nada.
- Mãe... Eu sou diferente. Não vou mudar. – Se ela soubesse quem era a minha amiga, iria querer me benzer. E depois me internar. Talvez me exorcizar.
Ela passa a mão bronzeada e macia no meu cabelo escuro.
- Tem razão. Não tem que mudar o que você é. Mas, de uma vez por todas, para que todo esse “luto eterno”?
Dessa vez, abro um pequeno sorriso.
- O preto é a única cor que faz a vida ter algum sentido.

 A Morte, é claro, foi a convidada de honra na minha festa de quinze anos. Mas quando eu entrei no salão cheio de gente, ela não estava lá.
Acho que eu era uma visão meio chocante: vestido preto e longo, sem nenhum detalhe, cabelos escuros e ondulados, maquiagem pesada nos olhos, a sobrancelha direita erguida com superioridade e lábios repuxados de reprovação  (pintados de vermelho sangue).
Eu deveria lembrar uma aparição – uma bonita aparição. Um rapaz se aproximou de mim e me serviu uma taça de champanhe de cereja.
- Gostou da decoração? – Pergunta.
Olho para o mundo rosado e cheio de babados ao meu redor.
- É nojento. – Respondo, hostil e seca. Não sei por que estou agindo assim. Sou uma isolada e acho que quero que os outros me vejam como uma gótica maluca e sombria. Talvez assim me deixassem em paz. – Me dá vontade de VO-MI-TAR.
Ele ri.
- Você é muito engraçada. – Diz, enquanto se afasta.
Dou de ombros e levo o champanhe até a boca, mas logo me arrependo: o gosto de ferrugem me dá vertigens. Sangue. Jogo a taça de cristal no chão, cheia de repulsa. Vejo o cara que me deu a taça no outro lado do salão, rindo com outros adolescentes.
Rindo de mim e da brincadeirinha idiota que fizeram com a “vampira esquisitona”.
Borbulho de raiva.
Sinto dentro de mim a revolta, o vexame: tenho vontade de matá-los! Onde está a Morte quando se precisa dela?
Meu pai me puxa de repente para um abraço. Ele já tem o cabelo meio grisalho e algumas rugas de expressão, mas me parece jovem com seu terno novo. Ele sorri.
- O que houve aí com esse champanhe? Está tão ruim assim? – Pergunta ele, olhando para a sujeira de sangue e cacos no chão aos meus pés.
Eu não respondo, pois nesse momento vejo a Morte caminhando pelo salão cor de rosa. Me afasto do meu pai e vou até ela. Mas antes que eu diga qualquer coisa, ela pousa sua mão de caveira em meu ombro.
- Venha comigo. – Pede ela. E eu vou.
Quando dou por mim, estamos em um cemitério. O vento frio chicoteia em minha pele e eu estremeço.
- Há muito tempo tenho esperado por hoje. – Diz ela, caminhando de braços dados comigo, por entre os túmulos. – Hoje vai se cumprir uma antiga profecia sobre a Morte e sua Aliada.
- É mesmo? – Pergunto, sem interesse.
Ela ergue meu rosto com sua mão esquelética, fazendo-me encarar suas órbitas vazias e profundas.
- Olhe para mim, Katrina. Você sabe que eu adoro meu trabalho de carregar as almas para o além, não é? – Concordo com a cabeça. – E isso é bom para elas também, pois depois da vida há coisas muito melhores. – Paramos de andar e a voz dela fica mais áspera. – Katrina, é hora de mudarmos o mundo. Hoje você passará por um teste, e se for bem, abriremos o Portal.
Sinto sangue seco em meus lábios.
- Que tipo de portal? – Pergunto.
- O Portal que separa mortos e vivos. – Responde ela. – Com sua abertura, as almas e os mortais compartilharão do mesmo mundo. Não seria ótimo?
Hesito por um momento. Não sei se essa história seria muito legal.
- E qual é o teste? – Indago.
A Morte sorri com suas fileiras de dentes brancos e exageradamente retos.
- É muito simples. Basta escolher uma pessoa... E entregá-la a mim.
Um arrepio percorre a minha espinha.
- Tenho que matar alguém?
- Exatamente. Mas é mais fácil do que se imagina. Katrina, você não é uma assassina. Só precisa escolher uma vítima, a forma como ela vai morrer e pronto! Acontecerá!
- E o que eu ganho passando nesse teste?
- Essa é a melhor parte: você demonstrará que está ao lado da Morte definitivamente, e assim ganhara força, velocidade e capacidades além do que você pode imaginar! Então iremos abrir o Portal do Além juntas!
Nunca vi a Morte tão satisfeita antes. Lentamente, abro um sorriso. Damos as mãos e começamos a pular alegremente.
Sinto-me enlouquecer: a Morte e eu bailando de forma demente em um cemitério, na noite escura e fria do meu aniversário...
- Então, querida, quem é o escolhido? – Pergunta ela quando paramos de dançar.
Penso um pouco, raciocinando friamente.
- Escolho o rapaz que me serviu uma taça de sangue na festa! – Digo, com um sorriso demoníaco e batendo palmas alegremente. – O quero bem aqui, sepultado neste túmulo!
- E como você quer que ele morra?
- Enterrado vivo! Prenda-o no caixão e deixe-o gritar e implorar até morrer com falta de ar!
A Morte sorri com aprovação. E quando me dou conta, posso ouvir os primeiros socos e berros dentro da tumba. Meu rosto perde a pouca cor que tem, mas disfarço isso com um sorriso.
- Pronto! – Exclama minha amiga. – Agora é só aguardar que ele perca o ar e eu erguerei sua alma, enquanto lhe dou seus novos poderes!
- Para que esperar? – Digo, apressadamente. – Dê-me o poder agora! Logo o infeliz morrerá, mesmo!
Posso ver um breve instante de hesitação no rosto da Morte, mas ela logo se volta para mim.
- Tem razão! Katrina, Aliada da Morte, eu lhe dou esses poderes como minha fiel súdita!
A Morte encosta sua unha preta na minha testa. Um calor estranho começa a penetrar em minha carne.
Então sinto a explosão de calor e força, que começa por minha cabeça e inunda o resto do meu corpo, jogando-me para trás. Poder. Muito poder. Ele arde em minhas veias como chamas.
Fico caída alguns segundos na relva do cemitério, e quando abro os olhos tudo parece embaralhado, confuso e colorido. A Morte se inclina sobre mim, estendendo a mão.
- Como se sente, Katrina? Venha. Vou lhe ajudar a controlar seus novos poderes.
Mas eu a ignoro. Ergo-me desajeitada, e quando tento cambalear para o túmulo de onde só se escutam gemidos, acabo correndo tanto que quase passo reto por ele.
Com uma força que eu nunca tive, quebro a tampa de concreto da tumba e violo o caixão de madeira. O rosto do garoto está muito vermelho e assombrado, e seus pulmões aliviados sugam desesperadamente o oxigênio que o ar da noite oferece. Sua pele é brilhante a luz do luar. Fico ali contemplando o rosto daquele que eu condenei e agora salvei.
 E quando me viro, levo um susto: ali estava a Morte, carregando a ira do inferno e feia como o diabo.
- Você me traiu! – A voz dela era um gemido rouco e arrastado. – Você me enganou, Katrina. Você não matou sua vítima como combinamos!
Comecei a rir. A rir. Dei uma sonora e deliciosa gargalhada.
- Eu te enganei, Morte! Te passei a perna! – Digo cantarolando e saltitando.
A Morte ficou mais colérica. E mais feiosa.
- Eu confiei em você, Katrina. Mas você traiu meu maior segredo! Eu retornarei e me vingarei! Conte com isso! – E desapareceu em uma nuvem negra.
Eu sabia que aquelas palavras não eram palavras vãs.
A Morte nunca gostou de brincadeiras, e jamais prometeu uma vingança que não cumprisse.
O rapaz conseguiu se esgueirar para fora do túmulo, ainda assombrado.
- Que tipo de criatura você é?
Olho em volta, pensativa. Era quase dia.
- Sou Katrina. – Respondo. – Ex-Aliada da Morte, e agora sua inimiga.
Então vou embora, caminhando em passos lentos para casa, sem pressa. O ar fresco provocava doces arrepios na minha pele.
No horizonte, surgem os primeiros raios de sol. Amanheceu.

CONTINUA
Parte 02 >>             Parte 03 >>

5 comentários:

  1. Gente, eu escrevi esse conto para a biblioteca da miha escola, e espero que quem acessar meu blog goste... ♥

    Bjos...

    ResponderExcluir
  2. Noss muito Loco esse conto, até eu qe não gosto de ler gostei, e me interessei !!! Parabéns Giovanna !!!!!

    ResponderExcluir
  3. Parbens é uma historia muito envolvente !!
    agora quero ler a continuaçao 2,3,4,5,6,7,8,9,10

    ResponderExcluir
  4. Que bom que gostaram!
    Já postei uma continuação!!!

    ResponderExcluir