segunda-feira, 7 de junho de 2010

A HÓSPEDE

Manchester, 1820.
Sinto-me muito, muito contente esta noite. Quero compartilhar essa infinita felicidade com meu muito querido e adorado pai. Farei o possível para regozijar o homem mais terno e afetuoso de toda a Inglaterra, pois graças a sua bondade poderei viajar para Leeds amanhã ao despertar.
Tenho o enorme prazer em dizer que meu nobre pai é Lorde Jonathan Geliwood, o maior produtor têxtil de Manchester.
Hoje fez uma tarde fabulosa, eu e minha amada amiga Charlote Bernety fomos caminhar pelo parque com nossas amas.
Apreciávamos o canto dos pardais quando um criado avisou-me que papai me chamava para o chá. Apressei-me para casa.
Coloquei minhas luvas e meu vestido mais bonito e desci para a biblioteca. Nem sempre meu ocupado pai podia acompanhar-me nas refeições.
- Anne, meu maior e mais precioso tesouro! – Proferiu ele, quando me avistou. – Fizestes quinze anos e estás cada vez mais bela! Lembra-me tanto sua mãe na juventude... Roupas alinhadas, bons modos... Lamento passar tanto tempo fora e deixa-la tão só...
- Oh, meu querido pai! Não se aflija! Tenho minha ama e tenho a companhia constante dos Bernetys. - Retruquei eu.
- Mas Anne querida, desde que Catherine se foi, não tens mais a companhia de familiares enquanto eu trabalho. – Ele pegou minha mão e fitou-me nos olhos.
- Mamãe me faz muita falta. – Suspirei eu. – Mas estou deleitada com as aulas de etiqueta que recebo da Sra. Dashol, que é quase tão carinhosa quanto mamãe.
- Com certeza seus modos são perfeitos e impecáveis, Anne. Manchester toda sabe disso. Mas me refiro ao tempo que passas sem companhia familiar. Por isso poderás viajar para o castelo de Leeds amanhã ao alvorecer para passares um mês com seus primos e tios, se o quiser...
- Ah, pai meu! Sim, o desejo ardentemente! Conhecer meus nobres primos, filhos de Lady Jane Cympbell e Sir Wiliam! E Leeds... A cidade de que se ouvem toadas deslumbradas!
- Ordenarei que preparem a nossa melhor carruagem para que possas partir amanhã. Ira se divertir muito, pois os Cympbells possuem 80 mil libras anuais, então bailes, conforto, música, livros, gente jovem e alegre, criados e amas não faltarão.
- Obrigada meu amado pai!- Respondi, regalada.
- Não agradeça, minha doce Anne. Uma jovem dotada de tantas virtudes merece toda a felicidade e diversão. - Finalizou ele.
  Parti de Manchester antes de o sol aparecer, e apesar da exaustão das quase 37 milhas percorridas, meu espírito nunca esteve tão leve e regozijado. Leeds me parece um lugar fascinante, porém sombrio e quieto, perto da movimentada Manchester.
O castelo de Leeds não era o que eu esperava; Paredes corroídas pelo tempo e cobertas de lodo cercadas por um pátio lamacento. Mas aquela construção já tinha 700 anos e merecia respeito, lembrei-me.
Decepcionei-me ao constatar que ninguém me aguardava no pátio, nem mesmo um criado. Mas não me injuriei, pois não deveria ser costume da honorável família Cympbell esperar os hóspedes no portão.
Depois que o cocheiro de meu pai deixou minhas malas em frente ao portão, se despediu retirando o chapéu e partiu.
Estava frio. Ventava e chuviscava e eu tiritava sob as roupas finas. Bati na porta. Nada. Voltei a bater, dessa vez mais forte. Nada. Por uma hora chorei, chamei e bati, mal suportando o frio.
Depois dessa hora angustiante, uma jovem muito bela atendeu. Claro que não era uma criada. Usava roupas pretas deslumbrantes, acompanhadas por jóias. Os cabelos e os olhos eram negros e os lábios vermelhos. A pele de uma alvura sem fim.
- No que posso servir à senhorita?- Indagou ela, calmamente.
- Sou hóspede da família Cympbell. Filha de Lorde Geliwood. - Respondi, ainda tiritando.
- Anne Geliwood? Entre! Sou sua prima, Elinor Cympbell.
 Cumprimentei Elinor cordialmente e entrei, espantada pelo fato de nenhum criado aparecer para carregar minhas malas.
O interior do castelo era frio e lúgubre. Os móveis eram velhos e sem cor. Não posso negar que detestei aquele castelo. Meus primos precisavam de alguém que os ajudasse a reorganizar tudo com bom gosto. Eu pensei que  poderia ser esse alguém.
- Podemos reformar esse salão juntas... – Disse eu para Elinor. - Clarear tudo, comprar móveis novos em Manchester e decorá-lo com flores do campo.
- Que insanidade, Srta. Geliwood! - Interrompeu-me ela, fitando o salão. – Este lugar é maravilhoso, tão calmo e escuro... Suave como a morte. Colocar arranjos espalhafatosos por aqui estragaria tudo! Não sente o aroma do bolor? O frio e a brutalidade das paredes rochosas? É encantador! – Depois ela se virou para mim. - Vou chamar minha irmã Emily, ela vai gostar de ter uma cobaia... Quero dizer, uma hóspede!
Cobaia? O que Elinor quis dizer com aquilo?
Não tive tempo de pensar. Logo ela e a jovem mais primorosa que me fora dada contemplar apareceram ali.
- Olá, prima Anne!- Disse Emily, com seus cabelos dourados como raios de sol e olhos verdes e grandes.
- Olá, prima Emily. É um prazer conhecê-la. - Hesitei, por fim falei. – As senhoritas poderiam dispor-me de um criado para carregar minhas malas e para guiar-me até meus aposentos?
Elinor ia responder, mas o estrondo da porta de carvalho atrás de nós sendo aberta com brutalidade a interrompeu. Eu gritei e levei minhas mãos ao rosto, assustada, mas Emily e Elinor permaneceram indiferentes.
- Tentando quebrar a porta, Edgar? – Indagou Elinor, tranquilamente.
- Cale-se, Elinor. - Respondeu um rapaz muito parecido com Emily, porem estava enlameado, com as roupas desalinhadas e cabelos desgrenhados. Os olhos eram estranhamente lupinos. - Quem é ela?- Perguntou, me indicando.
- Anne Geliwood. - Respondeu Elinor.
Edgar rosnou exatamente como um cão.
- Calma Edgar. – Disse Emily, serenamente. - Não vai querer ter um ataque de fúria estilo lobisomem diante da moça, não é?
-Lobisomem?!- Indaguei, em um pânico indescritível. Isso explicava os olhos e os rosnados lupinos. Mas eles me ignoraram. Edgar estava em posição de ataque, fitando Elinor.
- Eu não poderei provar da carne dela, não é? – Indagou ele com rancor.
- Não podemos causar danos a ela! – Replicou Emily.
- Mas você vai experimentar seus feitiços nela, bruxa psicótica, e a vampira sádica vai experimentar o sangue dela! – Ele rosnou outra vez.
No momento que Edgar disse vampira, Elinor (que também se colocou em posição de ataque) grunhiu e mostrou os caninos pontiagudos. Senti vertigens, que aumentaram ao pensar em Emily praguejando e lançando maldições.
Edgar avançou para mim, com os olhos lupinos brilhando como raios de sol, com o intuito de me atacar. Gritei. Emily pegou uma varinha e lançou um raio verde contra Edgar, mas Elinor, incrivelmente veloz e forte, o segurou antes que ele chegasse a mim.
Nessa hora, perdi os sentidos.
Despertei na manhã seguinte, em um quarto desconhecido, poeirento e repugnante. Minhas coisas estavam jogadas em um canto e a cama era muito dura. Senti meu pescoço dolorido. Passei um lenço no espelho empoeirado do quarto. Haviam duas pequenas incisões no meu pescoço. Lembrei-me dos dentes de Elinor... Vampira.
Calafrios percorreram meu corpo e eu quase gritei quando Emily abriu a porta.
- Bom dia, Srta. Geliwood. – Disse ela, tranquilamente. - Espero que tenha dormido bem. Temos muitos testes para fazer hoje.
Atirei-me aos pés de Emily, chorando e suplicando.
- Deixe-me ir! Deixe-me ir! - Implorei - Oh, Emily! Piedade dessa pobre alma! Não me mate! Meu pai poderá mandar quantas libras quiser se poupares minha vida! Seja compassiva para sua prima!
- Deixe de disparates! - Disse ela, com um desprezo suave. – Você não ira morrer, e nada poderá te fazer mal enquanto estiver aqui. Edgar manda desculpas por seu comportamento atroz da noite passada e não mais irá te incomodar. Elinor só irá sugar o seu sangue algumas noites e você nem irá sentir. Eu só preciso de você para fazer alguns testes, e você não vai sentir dor alguma!
Levantei-me, incerta e temerosa.
- Tem certeza de que não vão me ferir? – Eu estava apavorada. Ela me olhou nos olhos com sinceridade.
- Tenho. Dou minha palavra que ninguém irá lhe fazer mal.
E assim foi. Durante um mês ninguém me feriu. Mas foi o pior, mais terrível, mais longo, mais exaustivo, mais repulsivo, mais cruel e mais infeliz mês da minha vida.
Descobri que Lady Jane e Sir Wiliam estavam mortos, e não poderiam me ajudar. Também não havia criados, nem cavalos e nem carruagens, tornando impossível mandar cartas ou fugir para longe. Papai deveria estar pensando que eu estava me divertindo tanto que não tinha tempo de escrever.
O tempo era inaprazível e eu ficava confinada naquele castelo frio e sem vida. O cheiro de mofo me dava vertigens violentas.
As bruxarias de Emily me deixavam muito amedrontada e exausta, mas eu dormia mal na cama estreita e dura, acordando na maioria das vezes com o pescoço latejando e dolorido.
Meus primos sentiam desprezo por comida humana. Eu era obrigada a escolher entre as ervas mortas e emboloradas de Emily, a taça de sangue de Elinor e os asquerosos pedaços de carne crua de Edgar.
Edgar nunca falava comigo. Melhor assim. As coisas que Elinor diziam eram sempre desagradáveis e Emily falava com eloqüência assustadora sobre seus feitiços.
Os Cympbells sentiam grande desprezo por jantares, roupas de cores claras, comida fresca, luz, livros românticos, flores, alegria, calor, demonstrações de afeto, música, conversas sobre coisas agradáveis, elogios e todas as coisas que eu amava e pensava que qualquer um adoraria.
Emagreci, perdi o brilho dos olhos e dos cabelos. Já nem me arrumava e nem me perfumava. Meus olhos ficaram inchados de tanto prantear de saudades de Manchester, de papai, de Charlote e da minha vida feliz e tranquila.
Finalmente chegou o dia de voltar para o lar querido, tão amado! Despertei naquela manhã e cantei pela casa, com o humor renovado. Coloquei meu vestido preferido, mas eu ainda parecia um cadáver de tão magra e sem cor. Levei eu mesma minhas coisas para o salão.
- Feliz por partir?- Indagou Elinor, entrando no salão seguida por Emily e Edgar.
- Muitíssimo. Ah, a carruagem! Adeus!
- Espere! - Disse Elinor - Vamos com você para Manchester.
Aquilo foi um choque para mim.
- Emily viu em sua bola de cristal que os moradores de Leeds descobriram o que somos. - Explicou Edgar. - Vão por fogo no castelo esta noite. Iremos fugir para Manchester.
Para a surpresa deles, não me importei.
Emily lançou um feitiço em mim que me transformou na mesma Anne bonita e de expressão alegre que eu era antes. Parecia que eu havia passado uma temporada regozijada.
Mas eu não esqueci o mês infernal que passei.
A estada deles em Manchester não iria ser melhor.
Partimos e percorremos as quase 37 milhas em silêncio.
Regozijei com as expressões de pavor de meus primos ao avistarem a nossa mansão quente, clara, confortável e cheia de flores em volta.
- Bem-vindos a mansão Geliwood! - Disse eu, radiante. – Será um mês com muitos bailes e jantares, todos com muita música e conversas amenas! O guarda roupa de vocês terá muitas roupas leves e de cores harmoniosas. Os aposentos terão muita luz e calor, os leitos macios e perfumados. Livros de Jane Austen, minha autora preferida, serão recitados todas as tardes. Os jantares prometem muita comida fresca e bem cozida. Terão sempre um criado ou ama para acompanhá-los aonde forem. Haverá flores por todo lado e carruagens que os levarão para passear diariamente, com guardas para que não corram perigo e nem fujam. E se por acaso se revelarem como seres não humanos, serão caçados nessa cidade grande e cheia de pessoas. Vai ser regozijante!
Eu sorri, Edgar colocou as mãos no rosto, Emily gemeu e Elinor gritou.
Era a hora de eles serem os hóspedes desgostosos.
Era a hora da minha diversão.

***
Conto Vencedor do VI Prêmio Barueri de Literatura, 2009
Categoria Conto – Autores Residentes Menores de 14 anos
3º Lugar

3 comentários:

  1. muito bom, sou leitora nova do seu blog estou gostando muito

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  2. ótimo conto,seu blog é maravilhoso.
    Parabéns!

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