quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A ALIADA DA MORTE - PARTE 02


Faz seis meses que eu não vejo a Morte. E, por mais estranho que pareça, não sinto a sua falta. Não mais. Acho que, inconscientemente, escolhi a vida quando tirei aquele garoto do túmulo, na noite inesquecível do meu aniversário.
E, para falar a verdade, acho que fiz a escolha certa. Quando não se esta ocupada conversando sobre coisas sombrias com a sua “amiga” Morte, se tem muito mais o que viver. Quero um pouco de luz e vida agora. Nem que seja uma pequena centelha de calor.
Quando cheguei em casa depois da noite do meu aniversario, já estava amanhecendo, e eu me sentia demasiadamente confusa e perdida. Logo eu percebi, enquanto ignorava as broncas dos meus pais por ter desaparecido e deixado todos preocupados, que eu tinha agora novos poderes. Mas a coisa assustadora é que eu não sei exatamente no que me transformei.
Tem a parte que eu aprendi a controlar rápido, como a velocidade e o tato delicado. O mais difícil foi me adaptar a minha nova super visão, a audição extra sensível e a minha força sobre-humana, que aumentam quando necessárias.
O resto eu fui levando.
Sabe, sei que isso vai surpreender você, mas eu tenho amigos agora. Parece impossível, mas eu, Katrina, a antiga Aliada da Morte, fiz amizade com humanos quase normais.
Tenho três amigos na escola agora. Tenho a Elisa, um tipo de garota engraçada e “fofa”, mas que não parece ter muito raciocínio lógico. Também tem a Diana, a gótica fixada por histórias de vampiros e rock pesado. E também tem o Vic, outro solitário esquisitão, mas um amigo leal. Somos as ovelhas negras do colegial. Do tipo pra quem o resto da escola torce o nariz e ignora, sabe? Mas a gente nem liga.
Começou de novo em um dia aparentemente normal no colégio. Eu e meus amigos estávamos sentados na mesa de sempre, a mais isolada e longe dos “populares”, ou seja, as garotas ricas e burras e os garotos atletas e idiotas.
Eu estava entretida com minhas adoradas balas de goma, Diana se satisfazia com sua Coca-Cola diet e os outros dois, Vic e Elisa, comiam batatinhas. Diana começou a cantar um rock qualquer, bem baixinho, enquanto tamborilava os dedos na mesa, e eu a acompanhei. Vic começou a jogar batatinhas para o alto, e Elisa revelou uma habilidade incrível para pegá-las com a boca. Estava tudo muito bem.
Então, um grito.
Vinha do andar térreo, provavelmente de uma das salas de aula vazias. Éramos os mais próximos de lá, então fomos os primeiros a correr na direção das salas, seguidos por uma multidão de curiosos. Nas duas primeiras salas não havia nada, mas a terceira nos aguardava com uma surpresa bem desagradável: o cadáver de uma das serventes. O cheiro de ferrugem entrou pelas minhas narinas, e só eu podia senti-lo.
A sala de aula parecia ter se tornado uma cena de filme de terror, e eu praticamente esperava que algum monstro ou assassino aparecesse ao meu lado a qualquer minuto.
O sangue dela ainda estava bem líquido, escorrendo pelo piso em uma poça vermelha. Ela havia sido esfaqueada na garganta, e depois arremessada contra a parede. Diana cambaleou e saiu correndo, com as mãos na boca. Elisa começou a gritar, desesperada, e Vic a puxou para fora da sala. Pude escutar a multidão entrando em pânico lá fora.
Não me importei, e continuei parada onde estava, com os olhos fixos na parede no fundo da sala. Letras de sangue haviam sido rabiscadas lá, e eu não conseguia parar de olhar para a mensagem, decorando cada palavra:

Prepare-se, Katrina, pois a próxima será você. Morte.

Viaturas da polícia chegaram, os vídeos de segurança foram revisados, mas ninguém havia entrado ou saído da sala além da faxineira. A direção da escola teve que dispensar todos os alunos, e não teríamos aula naquela semana, para não prejudicar o trabalho da perícia. Fui até escoltada para casa, todos temendo pela minha segurança.
Mas tudo aquilo era perda de tempo. A Morte carregou aquela mulher, só para me mostrar o quanto estava perto. Mas não era isso o que mais me assustava. A Morte não pode assassinar uma pessoa. Seu trabalho era carregar almas, não destruir vidas. A maldita tinha um novo aliado. Alguém que estava fazendo esse serviço negro com o apoio dela. Alguém que ela simplesmente transportou para aquela sala, sem precisar atravessar a entrada ou o corredor da escola. Mas quem?
Quando cheguei em casa, meus pais se mostraram preocupados, mas eu os ignorei, um hábito. Até mesmo minha irmãzinha de cinco anos, Angélica, demonstrou preocupação. E eu até cheguei a abraçá-la para tranquiliza-la, aquela menina que parecia mesmo um anjo de luz.
- Espero que você fique bem. – me disse ela, com um doce sorriso.
- Vou ficar. – digo, querendo acreditar nas minhas próprias palavras.
Antes de subir para o quarto, olho para a minha família. Mamãe e Angélica são louras e radiantes como rainhas, papai é grisalho e charmoso, e eu sou pálida e sem vida. Uma intrusa naquela família perfeita e normal.
Me tranquei no quarto e me deitei. Como a Morte era teatral! Ela não podia deixar um bilhete em cima da minha cama, avisando que quer a minha alma? Precisava tirar a vida de um inocente por isso?
Enterrei minha cabeça no travesseiro, ouvindo meus pais discutindo aos sussurros no andar de baixo. A Morte nem sempre foi assim. Antes ela só realizava seu trabalho com vontade e destreza.  Que aconteceu com ela? Por que ela ainda pretendia abrir um tal portal para os espíritos? Pensei tanto nessa questão, que adormeci.

A névoa cobria meus pés. Estava em um lugar escuro, cheio de colinas e vales. Me parecia familiar, mas ao mesmo tempo eu sabia que nunca havia estado ali. Comecei a caminhar e tropecei em uma cruz. Estava no cemitério, mas ele parecia muito diferente.
Comecei a ouvir vozes. Me encolhi atrás de um túmulo e agucei minha audição, de acordo com o meu poder.
- Aceita ser minha nova aliada, totalmente fiel e leal a mim? – disse a voz rouca da Morte, em algum lugar ali perto.
- Aceito. – disse uma voz que eu não reconheci. – Aceito o compromisso da imortalidade, do poder, e também aceito ajudá-la a abrir o Portal do Além, oh, Morte!
- Sendo assim, eu a faço minha eterna aliada. – diz a Morte, e juro que consigo perceber um sorriso em sua voz seca. – Que matemos Katrina, nossa inimiga!
- Sim, morte a Katrina!

Acordei com um grande sobressalto. Não foi um simples sonho. Isso estava acontecendo nesse exato momento, no cemitério. Olhei para o relógio do quarto. Já era mais de onze horas da noite. Em qualquer momento a Morte e sua nova aliada irão abrir o Portal do Além, e eu sou a única que poderia impedi-las.
Muito bem, Morte. Resolveremos as coisas.
Calço minhas botas pretas de caminhada e visto meu casacão de couro. Saio de casa correndo, me sentindo trêmula. Com o meu novo poder, minha velocidade é tão grande, que penso que vou chegar a tempo. A esperança aperta tanto o meu coração, que chega a doer.
Sem pensar, derrubo a porta do mausoléu principal, onde sei que a Morte deve estar me esperando.
- Não! – É tudo o que consigo gritar.
A Morte se volta para me encarar, surpresa. Seu rosto de caveira não era tão mal assim antes. O pequeno vulto ao lado dela também se volta para mim, com uma expressão aborrecida.
- Katrina? O que você está fazendo aqui? – Pergunta Angélica, fazendo um beicinho de zanga. – Você sempre tenta estragar tudo! – Ela começa a bater os pés no chão, e a chorar, birrenta. – Por que você se mete? Por quê?! Agora a Morte é a minha amiga!
- Controle-se, criança. – Diz a Morte, olhando para ela. – Sua irmã está no lugar certo. Hoje vamos acabar com ela.
Mal posso me manter em pé, de tão bambas que ficam minhas pernas. Angélica, minha irmãzinha, é a nova Aliada da Morte.
- Angélica? - Balbucio, sem querer acreditar. - Como pode uma coisa dessas? Ela é só um bebê!
Ela recomeça a bater os pés.
- Não me chame de Angélica! – Grita ela, com uma voz mais grave do que deveria ser. Olhando suas faces meigas deformadas pelo ódio, enxergo tudo. Posso facilmente visualizar minha irmãzinha matando aquela mulher no colégio a sangue frio, e depois rindo disso. – Meu nome agora é Anjo Negro, ouviu? Eu sou a nova amiga eterna da Morte!
A Morte me abre o mais cruel dos sorrisos.
- Eu nunca deveria ter escolhido você, Katrina. – Declara ela. – Sua irmã sim é o que eu sempre procurei. Uma Aliada verdadeira. E agora, realizaremos a antiga profecia do Portal do Além!
- Não pode fazer isso, Morte! - Digo. - Ela é só uma criancinha. Não tem noção do que está fazendo! Você a esteve manipulando!
Mas nenhuma das duas me deu ouvidos.
Angélica abriu um cruel, e encaixou uma chave de osso em um orifício na rocha do mausoléu, que começa a se abrir devagar, trazendo um vento gelado carregado de medo.
- Você teve a sua chance. – Diz ela, olhando inocentemente para mim. – Mas agora eu cumprirei a profecia. E a mamãe vai gostar mais de mim!
- Isso está errado! – Grito. – Almas não devem conviver com vivos!
Tento me lançar contra ela, impedir minha irmã de realizar o mal enorme que eu mesma me recusei a causar. Mas a Morte me bate com sua mão de osso, me lançando para longe.
Caio na relva fria do cemitério, sabendo que logo estarei morta e sepultada ali mesmo. Meu espírito vagará desolado pela terra, assim como todas as almas, agora que o portal está aberto.
Morte e Angélica estavam comemorando o seu triunfo, e logo as duas se lembrariam de mim, e viriam para me destruir... Eu havia sido derrotada por um esqueleto velho e uma menina mimada e sádica de cinco anos. Era tão vergonhoso e humilhante que eu quase preferia estar debaixo da terra, mesmo.
Foi então que um facho luminoso surgiu de repente, ao meu lado, me transmitindo força e calor com seu toque.
Confusa, forcei meus olhos a se adaptarem à claridade. Alguém havia vindo me socorrer.
Parecia uma bela mulher, mas logo vi que aquela criatura não podia ser humana. Era simplesmente radiante demais.
Ela sorriu.
- Olá, Katrina. – Disse ela, segurando minhas mãos. – Eu sou a verdadeira face da Morte. Estou aqui para ajudá-la. Precisamos impedir aquelas duas, mas primeiro você tem que descansar um pouco. Não pergunte nada.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, minha visão começou a embaçar.
Tudo ficou escuro.
                                 CONTINUA
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