segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A ALIADA DA MORTE - PARTE 03

Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...
De repente me sobressaltei. O que eu estava fazendo em casa? Eu havia desmaiado no cemitério, depois que a Morte abriu o Portal do Além e... Angélica!
Devagar, nas pontas dos pés, abro uma fresta da porta do quarto. Escuto minha mãe batendo um bolo na cozinha e meu pai falando ao telefone. Dou uma espiada na sala. Angélica está sentada no sofá com suas bonecas, assistindo um desenho qualquer e comendo bolachas.
- Foi tudo um sonho. – Suspiro. – Um sonho muito terrível e realista.
Angélica me escuta e sua cabeça loura se volta para mim. Volto a prender a respiração. Seus olhos estavam cheios de crueldade. Ela abre um sorriso macabro, e percebo que os incidentes da noite passada não foram sonhos porcaria nenhuma.
- Escapou por um triz, Katrina. – Murmura ela, em um tom seco. – Mas a Morte disse que a sua sorte não vai durar muito.
- Veremos, maninha. – Respondo, sentindo um bolo na garganta. – Já venci a Morte uma vez. Não vai ser difícil repetir a manobra.
Os olhos dela se estreitam, mas minha mãe entrou na sala naquele minuto.
- Kat já acordou, mamãe! – Exclama ela, voltando a seu tom doce e inocente. – Ela disse que ia pentear meu cabelo, não é, Kat?
Forço um sorriso.
- Claro, Angel. – Respondo, revidando o ridículo “Kat”. – Vou me vestir e já volto.
Fecho a porta e me apoio nela.
Que ótima maneira de começar um final de semana: minha própria irmãzinha colaborando com a Morte em seu plano macabro, desejando me ver morta.
- Deus! Por que eu não posso ser uma garota normal? – Murmuro, fechando os olhos. – Do tipo que os únicos problemas são uma nota baixa em biologia, dúvidas sobre que vestido usar na próxima balada ou se algum garoto bonito está a fim de mim ou não?
- Por que isso não teria absolutamente nada haver com você. – Diz uma voz tão inesperada que meu coração quase salta pela boca.
Sentada no peitoril da minha janela, sorrindo de uma maneira que iluminava todo o quarto, estava a mesma mulher que apareceu no cemitério na noite passada.
Seus cabelos escuros e longos emolduravam o bonito rosto quadrado, destacando os olhos violetas. Usava um vestido preto de tecido não identificável e era ainda mais pálida que eu.
- Olá! – Sorri ela. – Se lembra de mim?
- Lembro. – Digo, ainda confusa. – Quem é você?
- A Morte. – Responde ela. – Sou a verdadeira Morte.
É informação demais pra minha cabeça.
Suspiro.
- Mas se você é a Morte, quem é a caveira que eu conheço desde bebê?
O sorriso dela some.
- Sei que é confuso, então vamos começar pelo início.
“Desde que existe Vida no mundo, a Morte também existe. Somos irmãs e amigas, complementos uma da outra. A Vida não existiria sem a Morte e vice-versa. Somos o equilíbrio.
“Porém, as coisas começaram a se complicar quando os homens surgiram. Desde os tempos mais remotos, os homens têm dificuldade pra me aceitar. Agarram-se à Vida como se eu fosse uma espécie de monstro, um ser maligno e cruel... Como a sua inimiga, Katrina.
- A Morte que você conhece foi criada assim. – Continuou ela. – Séculos e séculos de pessoas que não me aceitavam, e criavam em suas mentes o ser sombrio que é a Morte Obscura. Porém, se não fosse por um motivo especial, essa Morte não teria tanta força. A razão principal para que a Morte Obscura esteja cada vez mais forte, chama-se assassinato. Todos os dias a Morte chega para pessoas que ainda tinham muito para viver, mortes causadas por homicidas egoístas e cruéis. Tento ajudar essas almas, mas é a Morte Obscura que acaba alimentando-se delas. Mas, o tempo todo, a verdadeira Morte fui eu: serena e justa.
Fiquei encarando a Morte verdadeira, tentando processar a informação.
- Eu entendi. – Disse, por fim. – Mas como posso impedir a Morte Obscura de continuar aprontando? E...  O que realmente ela fez ontem a noite?
O rosto dela escureceu.
- Venha comigo e veja.
A Morte verdadeira estendeu sua mão para mim. Não sei exatamente o que aconteceu, só sei que de repente eu via através dos olhos dela, e era como se eu flutuasse. Olhei para baixo. Pessoas iam e vinham pelas ruas, sem poder me ver.
De repente notei vultos estranhos passando pelas pessoas, arrastando-se pela calçada e parecendo que também não podiam ser vistos. Eram Almas.
- A Morte Obscura abriu o Portal do Além com a ajuda da sua irmã, Katrina. – Me explicou a verdadeira Morte. – Ela gosta de ver sofrimento, e agora todas essas almas sofrem, pois o mundo delas não é mais esse.
Um bolo se formou em minha garganta, e tive que engoli-lo para poder falar.
- E o que eu posso fazer? – Pergunto baixinho.
- Descubra o verdadeiro significado da Morte, Katrina, para que eu possa guiar essas almas para a luz e para que a Morte Obscura desapareça. – Ela apertou a minha mão. – Fique de olho em Angélica. Conto com você.
Fecho os olhos. Quando os abro novamente, estou sozinha em meu quarto.
A Morte verdadeira havia desaparecido sem me dar nem mais uma pista. Que ótimo.
Me visto e vou até a sala, desligando a TV que Angélica assistia.
- Eu estava assistindo, maldita! – Diz ela, me mostrando o dedo do meio.
- Então além de encapetada minha irmã caçula também é mal educada? – Digo, pegando-a pelo braço e arrastando-a até a cozinha. – Vamos, peste. Tenho algumas lições para te dar.
Assim que vejo minha mãe, abraço delicadamente Angélica.
- Mãe – começo. – Angel e eu vamos ao parque, tudo bem?
Ela sorri de um jeito que me faz sentir culpada, porque eu seu que ela adora quando saímos juntas.
- Tudo bem, Katrina. – Responde ela. – Tomem cuidado e não se atrasem para o almoço.
- O que você vai fazer comigo? – Choraminga Angélica assim que cruzamos o portão da rua. – Daqui a pouco a Morte vai chegar e vai levar você com ela! Porque eu sou a Aliada dela agora!
- Cale a boca ou leva um tapa, fedelha. – digo, arrastando-a rua a baixo. – Sendo Aliada da Morte ou não, você ainda é uma pirralha irritante e eu sou a irmã mais velha, então posso muito bem te dar uns tabefes, ouviu?
Chegamos em uma praça pouco movimentada.
Despejo Angélica em um dos bancos de madeira e espero. Elas logo aparecem. Almas caminham em nossa direção, vindas de todos os lados, sentindo na presença de Angélica a pessoa que as puxou para esse mundo que é tão doloroso para elas.
- Está vendo todas essas almas? – Pergunto para minha irmã. – Veja como sofrem. E é por culpa sua que elas estão assim!
Eu esperava que Angélica ficasse apavorada e arrependida, mas tudo o que ela fez foi rir sinistramente.
- Acha que eu estou com medo? – Pergunta. – Essas almas não podem fazer nada comigo. Para mim, não há diferença se elas estão contentes ou não!
Recuei dois passos, chocada. Como minha doce e terna irmãzinha havia se transformado em um monstro impiedoso, egoísta e horrível? Continuei recuando, com as gargalhadas de Angélica ressoando, até trombar em uma coisa dura.
A Morte Obscura me abriu um sorriso.
- Finalmente poderemos acertar as contas, heim, Katrina...
Me afasto dela, surpresa.
- Mata ela! Mata ela! – Gritou Angélica, batendo palmas.
A Morte se voltou para ela, aborrecida.
- Quanto a você, criança, já não me é mais útil. Cansei de ser sua babá. – Dizendo isso, A Morte Obscura levou sua foice até a cabeça dourada de Angélica. Gritei e me lancei para frente, mas não pude impedir que a Morte Obscura tirasse a sua vida.
O corpo pequeno e dourado dela não chegou a tocar o chão, pois foi amparado pelos braços da Morte verdadeira.
Lágrimas encheram os meus olhos.
Aquilo não era justo. Ela era a minha irmã e eu deveria tê-la protegido, ter estado com ela e impedido que a Morte Obscura a tornasse uma criança cruel.
A verdadeira Morte me lançou um olhar penetrante.
Eu já sabia o que tinha que fazer.
Comecei a correr, com a Morte Obscura em meu encalço. Corri na direção do rio.
Parei na margem da água escura e revolta, e me voltei para encarar a Morte Obscura.
Só havia uma maneira de compreender totalmente o significado da Morte.
Morrendo.
E eu estava pronta, por que não ia me matar por covardia, ou tentar compreender a Morte matando outra pessoa. Eu ia morrer para salvar milhões de almas. Ia sacrificar tudo o que eu tinha porque acreditava que morrer tinha um significado muito além daquele terror todo que as pessoas haviam criado.
- É o seu fim. – disse a Morte Obscura, me alcançando e apontando a foice para o meu peito.
- Não! – Respondi. – É o seu fim, sua Morte fajuta.
Eu tive medo, mas dei um sorriso amargo.
Nunca imaginei que iria acabar assim, mas deveria ter imaginado. Afinal, sempre me recusei a aprender a nadar.
Em apenas um pulo, o frio e a escuridão da água me cercaram, me puxando para baixo e me sufocando.
Engoli a dor, porque era tudo o que eu podia fazer.

***
Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...
Espera aí! Estou tendo alguma experiência de dejá-vu ou foi tudo um sonho dentro de outro sonho?
Devagar, abro a porta do quarto.
A casa está silenciosa, a não ser por murmúrios e choros no andar de baixo. Paro na ponta da escada. Praticamente minha família toda está lá embaixo. Todos tristes e vestidos de preto, velando o corpo inerte de Angélica.
Percebo que eu estou usando um vestido preto simples, e segurando um lenço também preto
Me aproximo do caixão.
Olho para o rosto pálido da minha irmã e começo a soluçar. Me sinto culpada por tê-la perdido. É um sentimento que nunca vai me abandonar.
Um vento estranho entra pela janela da sala, e um papel praticamente pousa em minha mão. É um bilhete.

Katrina,
Você se saiu muito bem em sua tarefa, e lhe agradeço por isso. Eu e todas os espíritos que foram recolhidos.
A Morte Obscura foi destruída, e agora as almas estão em paz. Por enquanto. Logo os crimes e o medo a farão retornar, mas irá demorar muito para que ela adquira tanta força outra vez.
Não se preocupe com Angélica. Ela está bem. Está pronta para recuperar a inocência e começar a próxima rodada. Todos nós sempre teremos a chance de aprender de novo.
Minhas condolências,
Morte (a verdadeira).

Comecei a chorar ainda mais.
Uma pequena parte de mim reconheceu que as coisas aconteceram como deveriam ser, e que a criança que um dia foi minha irmã se preparava agora para seguir para outra vida.
Ainda assim, era difícil aceitar.
A morte de alguém próximo vai ser sempre difícil, vai nos fazer sentir um vazio enorme e uma saudade que vai doer para sempre.
Não porque a morte seja ruim, mas é que nós, humanos, somos seres apegados demais. Faz parte da nossa natureza.
Passei a mão pelo rosto frio de Angélica.
Não sabia se ela poderia me ouvir, mas mesmo assim me inclinei perto de seu ouvido, trêmula, e coloquei o lenço preto, com o qual eu havia tentado secar minhas lágrimas, acima da mão dela.
- Você pode ficar com isso. – Sussurrei. – O preto é a única cor que faz a vida ter algum sentido.

FIM

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Um comentário:

  1. Aii, que lindo! Nunca gostei de histórias muito macabras, mas essa foi MUITO 10!!!
    Meus parabéns, Giovanna, você escreve textos muito bons!
    Quero ser escritora, e pode ser que eu seja sua concorrente, mas preferia ser sua amiga!
    Beijos!

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