sábado, 28 de maio de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 1

1. Fatalville

- Chris! Estamos aqui!
Ah, droga. Droga droga droga.
Parece que Ashley me viu, mesmo eu tentando disfarçar. Essa é uma das desvantagens de se ter 1,80m de altura: é quase impossível passar despercebido.
Não dava para fingir que eu não tinha escutado, então me resignei e fui para a mesa onde ela e seus amigos estúpidos estavam.
- O que está achando de Fatalville, Chris? – Pergunta uma das amigas de Ashley, antes mesmo que eu pudesse levar a batata da colher até a boca.
Bem, pra começar, eu não queria estar aqui.
A cidade é um fim de mundo, parada e chata. A praia é feia, o clima é horrível e a maioria das pessoas dessa escola são tão estúpidas que parecem viver em algum seriado de TV adolescente.
Ah, e meu nome é CHRISTOPHER. Nem minha mãe me chama de “Chris”, ou ela não teria tido o trabalho de me dar um nome tão longo.
Mas apenas dou de ombros e respondo:
- Legal.
Eu não estava nem um pouco feliz por aquela cidade ser a minha nova casa, mas não precisava criar inimigos por todos os lados.
- Chris é tipo assim, campeão de natação. – Diz Ashley, abrindo um sorriso enorme. – Não é maneiro?
Os amigos dela concordam.
Deus.
Com tantas casas iguais e sem graça espalhadas por Fatalville, por que eu tinha que ter me mudado para a casa ao lado de Ashley Kinselle?
Não me levem a mal.
Ashley é bonitinha, loirinha e animadinha. Na minha antiga cidade, ela seria considerada só mais uma garota que seguia a moda. Mas aqui, em Fatalville, ela parece ser considerada a beldade do momento, e a garota mais popular.
E ela está visivelmente a fim de mim, e não para de demonstrar isso (embora não seja nem um pouco correspondida), como agora, passando a mão no meu cabelo com uma intimidade realmente perturbadora.
Será que todas essas pessoas não vêem que eu não quero me enturmar, só ficar na minha?
- Hei, olhem quem está bem ali! – Grita um dos amigos da Ashley, o grandalhão com cara de tapado. – A Afrodite de Fatalville!
O grupo todo riu.
Olhei para onde ele apontava, mas tudo o que vi foi uma garota magra de cabelo castanho e liso se dirigindo sozinha para uma mesa.
Afrodite era um apelido bastante irônico.
A menina não era feia, mas não poderia ser mais sem graça, como tudo ali. Combinava com Fatalville.
Ashley, para o meu desgosto, aproveitou a distração de todos e puxou meu braço por cima do ombro dela, me encarando.
- O que acha de uma pizza no sábado à noite, Chris?
Pego meu braço de volta o mais delicadamente possível.
- Seria muito legal – digo, tentando não revirar os olhos – Mas tenho um trabalho de ortografia para segunda.
 Ela morde o lábio inferior, mas logo tem uma nova ideia.
- Sou muito boa em ortografia. Posso te ajudar.
Olho pra ela.
- Ashley, não é uma boa. – Digo.
Ela me olhou incrédula. Parecia ser a primeira vez que ela levava um fora. Mas eu não estava no clima de bancar o novo brinquedinho da coleção dela.
- Tudo bem, então. – Diz, voltando sua atenção para o prato de salada a sua frente.
Me levanto, pegando minha mochila.
Não havia terminado de comer, mas tinha perdido a fome.
Vejo um dos idiotas do grupinho ao qual eu, para a minha revolta, pareço pertencer, atirar uma bola de papel na cabeça da “Afrodite”.
Ela se virou e lançou um olhar verde de irritação, com uma das sobrancelhas erguidas, o que bastou para que todos da mesa ficarem quietos.
Vejam só, a garota não era tão sem graça assim.

***
Quando cheguei em casa, encontrei minha mãe arrumando os porta-retratos na estante. Ela finalmente havia terminado de esvaziar a última caixa da mudança.
- Onde coloco o quadro da April? – Pergunta ela, erguendo uma pintura abstrata que a minha irmã tinha feito na escola há, sei lá, um milhão de anos. – Nessa parede ou ali perto na janela?
- Perto da janela. – Digo, abrindo a geladeira e pegando uma lata de refrigerante.
- Não beba essa porcaria, está quase na hora de jantar. – Repreende ela, sabendo que eu não obedeceria. – Então, boy, como foi a escola?
- Quer mesmo saber? – Pergunto.
- Não. Mas é meu dever de mãe perguntar.
- Foi um belo pé no saco. Esse pessoal da escola é sem noção. Estou odiando cada segundo. Mas obrigado por perguntar.
Ela pousou as mãos na cintura, parecendo cansada.
-  E lá vai o Príncipe Arrogante outra vez. Com sua superioridade e seu mau-humor.
Ela sai pela porta dos fundos, sacudindo um tapete, e eu a sigo.
- Não me sinto em casa, mãe. – Insisto, enterrando as mãos nos bolsos do jeans. – E nunca vou me sentir.
Ela balança a cabeça.
- Claro que vai. Só precisa se adaptar. – Ela olha para o lado da cerca no jardim vizinho. – Ali está Ashley. Por que não convida ela pra ir ao cinema? Eu acho que ela gosta de você. Talvez seja uma distração saudável para essa sua amargura.
Vejo Ashley deitada em uma esteira, de biquíni e shorts, embora quase não houvesse sol. Ela acena quando nos vê.
- Mãe, não força a barra. – Digo, rangendo os dentes. – Ela parece uma boneca Barbie. Não é pra mim.
Minha mãe abafa o riso, pois Ashley vinha em nossa direção.
- Olá, vizinha! – Cantarola Ashley, sorrindo. – Precisa de alguma coisa?
- Não, mas obrigada, Ashley. – Responde minha mãe, tentando não rir. – Christopher disse que você é adorável, e ele não está enganado.
Ashley abre ainda mais o sorriso, e eu olho feio para minha mãe.
- Vou ver se seu pai precisa de ajuda na cozinha. – Diz ela, entrando novamente e me lançando um olhar maldoso.
Ashley passa a mão pelo meu ombro.
- Uau! Você realmente tem braços de nadador.
Me afasto, devagar.
Por sorte havia uma cerca que a impediria de avançar.
- Obrigado. Eu acho.
- O pessoal faz competições de surf e nado na praia. Às vezes tem alguns torneios. Deveria participar.
- Não gosto muito de água salgada.
Na minha antiga escola eu fazia parte do time de natação e treinávamos em uma piscina enorme, que era aquecida no inverno. A escola de Fatalville não tinha piscina, e eu não estava animado com a ideia de nadar na água escura e gelada do mar, com ondas me sacudindo e sal fazendo meus olhos arderem.
- Tudo bem. Mas vai ter que dar uns mergulhos com a gente algum dia.
Não se eu puder evitar.
- Quem sabe... – Começo a me afastar. – Até mais, Ashley.
- Espera! – Grita ela, se pendurando sobre a cerca. - Eu tenho uma coisa importante pra te falar.
- Ah, é?
- Aham. Cuidado com a garota que os rapazes estavam mexendo hoje no refeitório.
- A Afrodite? – Pergunto.
- Ela mesma. O nome dela é Annelise Campbell, e ela me odeia. Então sempre tenta prejudicar a mim e aos meus amigos. Eu não sei porque, só sei que ela é meio pirada.
- Porque a chamam de Afrodite? – Pergunto, começando a ficar curioso. Então eu não era a única pessoa que não suportava Ashley e seu club.
- Por causa de uma peça de teatro que fizemos na sétima série, sobre a Guerra de Tróia. O professor escolheu justamente ela para ser a Afrodite. Chegou a ser cruel, porque todos queriam que eu ficasse com o papel, e ela, óbvio, não tem cara de deusa da beleza. Os outros alunos aborreceram tanto ela que ela passou a me odiar.
Que historinha ridícula.
Dou de ombros.
- Não vejo porque tanto escárnio. A garota não é feia.
Ashley ergue as sobrancelhas.
- Não zombaram dela pela aparência, Chris. Mas porque todo mundo sabe que Annelise Campbel é uma bruxa. E ninguém chega perto dela.
A encaro, tendo certeza de que ela estava brincando. Mas Ashley permaneceu séria.
- Está brincando, não é? – Pergunto. Porque se o pessoal de Fatalville, além de infantil e chato fosse pirado, eu tinha que dar o fora dali agora.
- Não, não estou. Toda a cidade conhece a história da mãe dela e tudo o que ela fez. E as coisas que a própria Annelise fez. Pode perguntar pra qualquer um.
- E o que elas fizeram?
Eu já estava imaginando a histeria coletiva. Um papo sobre pacto com o demônio ou qualquer coisa que me permitisse provar para os meus pais que estávamos no fim do mundo.
- Bom... Acho que cedo ou tarde você vai acabar sabendo. Correm várias histórias por aí.
- Qual é, Ashley! O que custa você me contar?
Ela me encara com um sorrisinho, olhando de um lado para o outro para garantir que ninguém nos escutava.
Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, Ashley me encara.
- Bom, na verdade, não tenho permissão para falar sobre isso. Não é bom relembrar essas histórias do passado. Dizem que dá azar... – Pela primeira vez percebo o cérebro dela funcionando. – Mas já que você quer tanto saber, porque não aparece aqui em casa amanhã à noite? Meus pais não vão estar, e eu posso te contar tudo o que eu sei... Que tal?
Ótimo.
Quando começo a reunir evidências de que as pessoas daquele lugar são loucas, a loira arma o bote.
Incrível mesmo.
E foi assim que Ashley finalmente conseguiu que eu marcasse um encontro com ela.

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