domingo, 29 de maio de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 2

2. O Gato da Bruxa

- Você veio bem na hora marcada. - Ashley abriu um sorriso enorme.
- É, eu vim. – Digo, me forçando a sorrir também.
Qual era a dificuldade de chegar na hora na casa ao lado?
- Vamos, entre! – Diz ela, pegando minha mão e me puxando para dentro.
Alguém sem dúvida havia se preparado para esse “encontro”.
Ashley usava um vestido preto bem justo, a casa estava pouco iluminada e havia salgadinhos na mesa de centro.
Quanto a mim, havia me contentado em escovar os dentes e ajeitar o cabelo com as mãos, e estava vestindo jeans, camiseta e tênis – tudo bem velho.
Só não tinha vindo de pijama porque não uso pijama, se é que me entendem.
- E então? – Começa ela, sentando-se no sofá e me chamando para o lado. – Sobre o que quer falar?
Sorrio o mais charmosamente possível.
- Gostaria de falar sobre você... – Começo, tentando soar convincente. – Mas antes, quero muito saber a história de Annelise Campbell.
Ashley murchou um pouquinho com a última parte, mas meu plano deu certo: ela começou a contar tudo o que sabia o mais rápido possível.
- Henry Campbell era padre. – Começou ela. – Ou, pelo menos, ia ser. Era um jovem brilhante, de verdade. Todo mundo em Fatalville gostava da ideia, já que ele era um ótimo conselheiro.
Ela fez uma pausa, cruzando as pernas, e eu fiz um gesto para que ela continuasse.
- Bom... Estava tudo bem até Diana Kipp chegar e... – Ela fez uma pausa dramática. - Acabar com tudo!
- Como assim? – Indago, me sentindo fazendo participação em alguma novela.
- Ela seduziu Henry Campbell. E ele largou a igreja e tudo em que acreditava para ficar com ela.
Olhei para Ashley.
- Ele se apaixonou e desistiu de ser padre. E daí?
 Ela me encarou.
- Diana foi uma desgraça na vida de Henry. Isso aconteceu há uns vinte anos, mas a cidade inteira ainda comenta. Os dois se casaram, mas logo começaram as brigas. Diana era uma mulher horrível. Muita gente conta que já viu ela dançar em volta de fogueiras na praia, durante a lua cheia, invocando demônios e bebendo vinho. Diana era uma bruxa, sem dúvidas. Henry já não era o mesmo homem. Ela o estava enlouquecendo. Um tempo depois eles tiveram uma filha, a Annelise. Na primeira semana de vida do bebê, Diana tentou matá-la para oferecer a alma da filha ao diabo. Mas Henry não permitiu, e a trancou em casa. Uma enfermeira cuidava dela, mas ela se recusava a comer e acabou morrendo. Passou os últimos dias no hospital. Mas antes de morrer, Diana fez um juramento. Todo mundo ouviu. Ela disse...
Comecei a ficar impaciente com a demora dela.
- O que ela disse?
- Ela disse que voltaria. Disse que o um espírito maligno a ajudaria a se vingar de todos os moradores de Fatalville.
Encaro a garota.
Santo Deus. Eu estava mesmo em uma cidade de lunáticos.
- Então é por isso que todos odeiam Annelise Campbell? Por que a mãe dela, que tentou matá-la, era maluca? Isso não me parece muito lógico.
Ashley ajeita o cabelo loiro de novo.
- Não é isso. Annelise é igualzinha a mãe, Chris. Não somente os olhos verdes. Ela anda pelo mato conversando com um gato e desenhando simbólos satânicos na areia da praia. Henry acabou ficando louco de pedra, e ela pode fazer o que quiser. Tome muito cuidado.
Fiquei encarando Ashley por alguns segundos.
As lendas urbanas de Fatalville. Meus pais tinham que ouvir aquilo.    
- Bom, Ashley, obrigada por me contar essa história tão interessante! Foi realmente um papo muito agradável. – Digo, fazendo uma reverência e abusando do sarcasmo.
Ela se desespera, levantando-se.
- Não pode ir ainda, Chris! Espere! Acabou de chegar...
- Tenho mesmo que ir.
Me encaminho para a porta, e quando estou quase escapando, ela me alcança, segurando meu braço.
- Ganho um beijo de boa noite, pelo menos?
Ela fecha os olhos e sorri, com as bochechas rosadas.
Ergo uma sobrancelha e seguro o queixo dela.
- Ashley, abra os olhos. Eu bem que gostaria, mas não mereço você.
Lhe dou as costas.
Sei que o que eu vou dizer agora é golpe baixo, e pode destruir essa visão de honra e cavalheirismo que acabei de causar, mas vou dizer assim mesmo: tinha um pedaço de alface entre os dentes da frente dela.

***
No domingo de manhã acordei com o barulho da minha irmã, April, malhando na esteira, no meio da sala.
April tem vinte anos, e mesmo sendo três anos mais velha que eu, é minha melhor amiga. Ela está na faculdade, e não veio para Fatalville comigo e nossos pais, mas prometeu que estaria aqui todos os finais de semana possíveis.
É mesmo muito legal da parte dela fazer isso.
Imagine! Deixar uma cidade de verdade como a nossa, com shopping, cinema, discoteca e tudo o mais para vir até esse fim de mundo.
Tomamos café juntos e depois fomos à praia.
São raros os dias quentes em Fatalville.
Normalmente o vento frio é constante.
April e eu esticamos uma toalha na arei e conversamos por horas.
- E aí, Christopher – Começou ela. – Alguma garota interessante?
Contei pra ela sobre Ashley e o alface, e ela morreu de tanto rir, o que me fez gargalhar também.
- E tem mais – digo. – Parece que tem uma bruxa em Fatalville. Sério, as pessoas aqui realmente acreditam nisso! Contei pro pai e pra mãe, mas eles não deram bola. Disseram que Ashley devia estar brincando.
- Porque você não tenta conhecer melhor a tal bruxa? Ela me parece intrigante. E do jeito que você falou do pessoal daqui, aposto que se te virem com ela vão te deixar em paz, principalmente Ashley.
- Não é má ideia. – Digo, pensando naquela hipótese.
April foi embora mais cedo do que eu gostaria, já que ela tinha que pegar o trem das quatro.
Fiquei andando pela praia, chutando a areia, imaginando que Fatalville seria um pouquinho menos horrível se minha irmã estivesse lá todos os dias.
Quase tropecei em uma bola de pelos pretos, mas me contive para não chutar o gato que estava parado aos meus pés, me observando.
Usava uma fita vermelha no pescoço, o que era bem estranho.
Ergui os olhos e vi uma pessoa parada a poucos metros.
Me assustei, mas o susto só durou alguns segundos.
Estranho observar essa garota, assim de perto. Me pareceu muito diferente na escola.
Era magra e miúda, e tinha o cabelo castanho e liso, e os olhos verdes que impediam que ela fosse totalmente sem graça.
Mas algo nela parecia misterioso. Ou talvez fossem as baboseiras que Ashley disse pipocando na minha cabeça.
Annelise Campbell cruzou os braços, e o gato preto correu para ela.
- Olhem só, o novato! – Exclama ela, com uma voz vibrante que me fez dar um pulo. – Está invadindo a área da bruxa... Ou ainda não sabe da história?
Fiquei sem saber o que dizer.
Ela interpretou como um sim, e abriu um pequeno sorriso. Tinha covinhas nas bochechas.
- Ashley Kinselle, claro! – Exclamou ela, afagando o gato. – O que a Miss Fatalville te contou?
- Ela disse que você é uma bruxa.
- Certo.
- Uma bruxa má.
- Certo, também.
Sorri, sem jeito, mas ela continuou séria.
- Qual é o seu nome?
- Christopher.
- Muito bem, Christopher. Espero que você não tenha bafo.
Dizendo isso, a bruxa veio na minha direção, decidida, e me beijou.
E eu confesso que não foi ruim.
Para uma bruxa má, pelo menos.

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