sábado, 4 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 3

3. Aula Sem Química

Quando me dei conta, Annelise estava a alguns metros de mim, me encarando, e me perguntei se o beijo que ela me deu foi algum produto da minha imaginação ou uma ilusão causada pela famosa Bruxa de Fatalville.
- Pode dar o fora. E não fique se achando. – Diz ela, com os braços cruzados. – Não estou interessada em você.
- E quem disse que estava? – Pergunto, apesar de saber que, 99% das vezes em que uma garota te beija, se não tiver ninguém assistindo, é porque ela está interessada.
- Ashley gosta de você. E quando você contar isso a ela, vai ficar irritada. É o suficiente pra mim.
- E se eu não contar isso a ela? – Provoco.
- Daí terei gastado saliva à toa. – Diz ela, me dando as costas e começando a caminhar pela praia.
A segui.
- Não gosta da Ashley? – Pergunto.
Ela dá de ombros, sem se virar.
- Você gosta?
Não respondo.
- Olhe... – Começa ela, me encarando com a cabeça inclinada para a direita. – A Miss Fatalville está gamada em você, sabia? Não que você esteja com essa bola toda.
Ergo uma sobrancelha.
- E quem disse que eu não estou?
Ela ri, jogando a cabeça pra trás.
Quando acho que estou começando a ganhar a simpatia da única pessoa um pouquinho interessante em Fatalville, Annelise me dá as costas novamente, e eu a observo se afastar, andando rápido pela areia, com o gato preto e magro sempre atrás dela.
***
Quando cheguei na escola, na manhã seguinte, não vi Annelise em lugar algum, embora tenha dado uma olhada pelo pátio.
Mas, para minha sorte, Ashley parecia estar me evitando. Ela ria alto com sua rodinha de amigos, e todos eles me ignoraram por completo.
Graças a Deus.
Quando faltavam apenas alguns minutos para o sinal tocar, fiquei esperando no lado do lado de fora da classe de química, e encontrei Annelise.
Ela simplesmente passou por mim com uma piscadela, mas depois se voltou.
- Parece que a nossa Miss Fatalville já enjoou da sua cara, não é? Que peninha.
Não tive tempo de responder, porque ela rodopiou e seguiu seu caminho, virando o corredor à direita.
Dei de ombros.
Menina estranha.
Entrei na sala sabendo que provavelmente era o primeiro a chegar, já que os alunos só estavam começando a subir para as salas do andar superior.
Bom, me enganei.
Annelise estava lá, sentada em uma carteira no fundo da sala, muito concentrada em alguma coisa que estava fazendo no celular.
Quase tive um treco e achei que provavelmente estava alucinando.
- Como é que você fez isso?
Ela ergueu os olhos pra mim por um breve instante.
- Isso o quê?
- Você estava lá... E de repente apareceu aqui!
Ela deu de ombros, me ignorando.
Começou a chegar mais gente na sala e eu percebi, frustrado, que havia perdido essa.
O que eu iria fazer? Começar a gritar como um doido que a garota que era conhecida como bruxa pela cidade inteira tinha se transportado com um feitiço para sala de aula?
Qual é!
Me sentei ao lado de Annelise, decidido a não falar com ela até que esse joguinho acabasse.
É claro que, após cinco minutos, já que o professor não chegava, eu tentei puxar assunto.
- O que está fazendo?
Ela continuava sem desviar os olhos do celular, com os dedos clicando freneticamente nos botões.
Annelise demorou um pouco para responder, e eu achei que ela iria me ignorar de novo.
- Mensagens – Respondeu ela, enfim. – Meu primo Heath está viajando.
- Ah... – Digo, tentando pensar em alguma coisa interessante pra dizer. – Vocês são muito chegados?
- Somos. – Responde ela, sem desgrudar do celular. – Ele é o meu melhor amigo.
Eu ia dizer que minha irmã April era minha melhor amiga, e que ela vivia me visitando em Fatalville, mas o Prof. Jonas, nosso professor de química, entrou na sala nesse momento.
Ele carregava um jornal embaixo do braço, e a sala, que estava repleta de conversas e risadas, ficou em silêncio.
Eu não tinha motivos para me queixar do Prof. Jonas, já que eu havia tido somente uma aula com ele até agora, mas os alunos pareciam detestá-lo.
Ele desdobrou o jornal e o exibiu para a classe, de maneira que todos podiam ver a manchete do Diário de Fatalville:

CASAL DE ADOLESCENTES É ATACADO NA PRAIA

- Isso – Começa ele – É o mundo lá fora. E são coisas desse tipo que vocês, jovens, terão, se não se cuidarem e olharem por onde estão andando.
Uma das garotas levanta a mão.
- Eu quase conheço a garota atacada! – Exclama a menina. – Ela é prima da amiga do irmão da colega da minha vizinha. Fiquei sabendo que ela estava na praia ontem à noite com o namorado quando alguém os atacou com um canivete. Não conseguiram ver quem foi, mas era forte e conseguiu fazer uns cortes bem fundos nos dois.
A sala entrou em um debate acalorado com o professor, sobre quem (e porque) havia atacado o casal na praia.
Todo mundo parecia ter algum comentário a fazer.
Menos, claro, Annelise e eu.
Ela ainda estava entretida com seus torpedos, enquanto eu a observava de perfil.
Puxa vida.
Essa garota é realmente estranha.
Parece ser quase invisível e viver em um mundo paralelo, onde nunca é notada. Mas, ao mesmo tempo, tem alguma coisa nela que prende a atenção. Pelo menos prendia a minha.
- Srta. Campbell, me passe o celular.
A sala inteira se voltou para Annelise, mas ela parecia não ter escutado o professor.
Ele se encaminhou até a carteira dela e tomou o celular das suas mãos, o que a fez se dar conta de que estava encrencada.
- Me devolva! – Diz ela, levantando-se e esticando a mão, impaciente.
Ele deu um meio sorriso.
- Celulares são proibidos em sala de aula e a senhorita estava avisada. – Respondeu o Prof. Jonas. – Sente-se.
Annelise continuou imóvel.
- Me devolva AGORA. – A voz dela saiu em um sussurro rouco. – Ou vai se arrepender...
O Prof. Jonas riu, obviamente divertido com a insolência dela.
- Sente-se, Srta. Campbell.
Annelise se limitou a jogar a bolsa no ombro e encará-lo.
- Quero que você morra e queime no inferno. – Disse ela, em alto e bom som. – Morra!
Saiu da sala como um furacão, batendo a porta com força.
Houve comentários e piadas, mas eu não prestei atenção.
Vi um pequeno objeto prateado no chão: era um espelho bem pequeno, com moldura cinza, que tinha um gato miúdo entalhado.
Provavelmente Annelise o tinha deixado cair. Quando segurei o espelho frio e pesado (mas que eu podia esconder sem dificuldade se fechasse os dedos sobre ele) e senti um calafrio, tive certeza: era dela.
Notei que havia um ímã na parte de trás dele.
Estranho.
No intervalo das aulas avistei Annelise revirando a bolsa em um canto, escorada na parede, com livros e cadernos caídos no chão.
- Procurando por isso? – Indago, exibindo o espelhinho.
Ela o arranca da minhas mãos com violência.
- Ora, por que não cuida do que é seu?
- De nada. – Respondo, dando de ombros.
- Não tenha o atrevimento de me responder. – Diz ela, tocando no espelho com a ponta do dedo. – Sugiro que nunca mais toque nisso, se não quiser perder sua alma.
- Você é uma bruxa mesmo, não é? – Perguntei.
E ela me ignorou.
Começo a ajudá-la a juntar os livros.
- Por que está usando esses sapatos vermelhos? – Pergunto, por não ter outro assunto e porque os sapatos eram estranhos mesmo, ainda mais com short jeans e meia calça cinza.
Mas de qualquer forma, eu não entendo muito de moda.
- Por que eu não usaria? – Diz ela. – Eu fazia teatro, antes. Usei esses sapatos quando fiz O Mágico de Oz na oitava série.
- Você fez a bruxa?
Ela riu.
- Não. Fiz a Dorothy. – Respondeu ela. – Adivinha quem fez a bruxa?
- Não faço ideia.
- Ashley Kinselle. – Disse Annelise, sorrindo, parecendo se lembrar de uma coisa muito engraçada. – Ela pirou quando descobriu que na cena dela na peça somente seus pés iriam aparecer, embaixo da casa.
Eu ri.
- Na sétima série também roubei o papel dela em uma peça.
- É mesmo? Qual?
O sorriso dela se apagou, e seus olhos se estreitaram.
- Afrodite, em uma sobre a Guerra de Troia.
Devo ter aberto a boca para dizer alguma coisa, mas não pude. Gritos e vozes alteradas começaram a surgir por toda parte, em uma grande barulheira.
Alguma coisa muito grave devia ter acontecido na escola.
Vi Ashley passar correndo por mim, com a mão na boca e lágrimas nos olhos.
- Hei, Ashley! – Grito. – O que está havendo?
Ela balançou a cabeça.
- Ah, Chris... Foi horrível. O Prof. Jonas está morto!
Nesse instante, os olhos dela encontraram Annelise, e uma espécie de silêncio nos cercou. Parecia que todo mundo a encarava. E Annelise devolvia todos os olhares.
Me lembrei das palavras que ela havia pronunciado hoje mais cedo, na aula de química.
- Annelise – começo, tentando ajudá-la. – Eu sei que não foi sua intenção...
Ela balançou a cabeça.
- Pelo contrário. – Disse ela, em um tom desafiador. – Foi exatamente a minha intenção. Alguém quer ser o próximo?

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