sexta-feira, 10 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 4

4. Dois Solitários

Não vamos ter aula nos próximos três dias, já que a escola está de luto pela morte do Prof. Jonas.
Parece que ele estava bebendo café na sala dos professores quando, do nada, caiu duro. Os médicos disseram que foi um infarto abrupto, e que todo mundo sabe que o Prof. Jonas sofria de problemas do coração.
Isso tudo prova que Annelise é inocente, embora todos os alunos pensem o contrário. Mas, também, foi ela que se declarou uma assassina diante da escola inteira.
O que a tornou ainda mais interessante, ao meu ver.
Sério, o que se passa na cabeça dessa garota?
Ela não tenta se encaixar ou ser aceita, ela parece dizer tudo o que lhe vem a cabeça, sem se importar com o que os babacas daquela escola vão achar.
Não dá pra evitar sentir certa admiração por ela. Mesmo ela sendo maluca.
Mas agora tenho três longos dias de tédio trancafiado em casa. Não que eu goste da escola, mas ajuda a passar o tempo até os fins de semana, quando April vem me ver.
Fiquei o dia todo zanzando pela casa, mas resolvi ir para o meu quarto quando minha mãe começou a me dar tarefas na cozinha.
Meia hora depois, escuto batidas na janela.
Quase engasguei quando vi Annelise do outro lado da vidraça, fazendo caretas.
Abri a janela.
- Temos duas portas, sabia?
- Não ligo. Vamos dar uma volta. – Não era uma pergunta.
Fechei a janela e disse pro meu pai que ia passear um pouco, o que o deixou satisfeito. Ele não gostava de me ver o dia todo pregado no computador.
Saí e encontrei Annelise na calçada.
Começamos a andar em silêncio, e depois de uma meia hora estávamos na mesma praia em que nos encontramos na primeira vez.
Era diferente das praias perto do centro, onde os surfistas pegavam onda, e provavelmente o lugar em que Ashley e suas amiguinhas estariam agora, em “luto” pelo Prof. Jonas.
Não que eu ache que alguém deva deixar de se divertir pela morte de um professor que não gostava, pois seria hipocrisia. Mas Ashley e seu fã-clube estavam chorando copiosamente ontem mesmo.
Annelise abandonou o caminho pela beira do mar e começou a subir por uma trilha, comigo em seu encalço.
- Aonde vamos? – Perguntei.
Mas ela permaneceu em silêncio até alcançarmos uma clareira, cercada por árvores, mas com o mato baixo.
Um pouco de fumaça se erguia de uma amontoado de cinzas, o que indicava que haviam apagado uma fogueira há pouco tempo.
Annelise pegou alguma coisa do chão e se voltou para mim.
Era uma espécie de punhal decorado com pedras, e ela apontou direto para o meu pescoço.
- O que você quer, Christopher?
- Como? – Pergunto, surpreso.
Ela havia me levado até ali.
Annelise estreitou os olhos.
- O que pretende bancando o “amigo da bruxa”? O que queria comigo na escola? Fez alguma aposta com Ashley?
- Não! – Respondo. – Eu só te achei... Legal.
- Você estava com o meu espelho. Está tentando descobrir meus segredos!
- Se eu souber de algo, vou levar para o túmulo. – Digo, começando a suar um pouco.
- Túmulo é onde você vai dormir esta noite se não der o fora!
 Não me movi.
- Você não está falando sério, garota. – Digo.
- Ah, estou sim! Não me provoque...
Suspiro. Ela ergueu uma sobrancelha, com as mãos na cintura. E abaixa o punhal.
- Relaxa, garoto. Isso é um athame. Não tem corte.
Ela sorri, passando a lâmina pelos dedos.
- Você é diabólica.
- Deveria ter visto a sua cara.
- Devo ter feito a mesma cara que as pessoas da escola, quando você disse que foi sua intenção que o professor morresse.
Ela riu.
- Aquilo foi genial. Quem diria que o Prof. Jonas faria o favor de morrer no dia em que eu o mandei morrer? Coitado. Espero que reencarne menos azedo.
Reparei no desenho de uma estrela de cinco pontas feito na areia.
- É aqui que você faz bruxarias?
- Aham. Gostaria de virar um sapo?
Não respondi, interessado nas runas desenhadas no chão, e nas pedras coloridas colocadas em círculo em volta da fogueira apagada.
- Eu não imaginava que o covil de uma bruxa seria assim.
- O que você esperava? A carcaça de um bode? – Zomba ela. – As pessoas se esqueceram da sabedoria da natureza. Esqueceram de olhar para a lua e acompanhar as estações do ano. E se você faz tudo isso, porque aprendeu sobre essa sabedoria antiga, te associam ao diabo, como se esse cara existisse.
Ela se deitou em um monte de folhas secas, cruzando os braços atrás da cabeça, olhando para o céu nublado.
Me sentei ao lado dela.
- Não acredita no diabo? E em Deus?
- Depende do deus. Céu, inferno... Pode ser tudo a mesma coisa. Depende de quem você vai encontrar lá.
- Você é meio solitária, não é?
- Não. Eu tenho um gato.
- Não pode passar a vida toda tendo só um gato como amigo.
– Claro que posso. Mas eu tinha alguém para conversar antes de Heath ir embora. Ele pode não ser lá muito inteligente, mas era uma companhia tolerável.
Eu abri a boca para dar uma palavrinha de apoio, mas ela me encarou e falou antes de mim.
- Sinto tanta falta dele quanto você sente da April.
Estaquei.
Não me lembrava de ter falado sobre April para Annelise.
- Você pode ler meus pensamentos? – Indaguei, sabendo o quanto essa pergunta soava idiota.
Os olhos dela faiscaram e um vento gelado soprou em nossa direção, ao mesmo tempo em que uma nuvem tampava o sol.
- Não. – Disse ela, por fim. – Mas eu sei de muitas coisas sobre as pessoas, só de olhar pra elas.
Ela se virou para o lado das árvores, e eu tive a impressão de ver lágrimas em seus olhos, mas não pude ter certeza.
Ficamos imóveis e em silêncio por alguns segundos.
- Como é a sua família? – Arrisquei perguntar. – Eles sabem que você é uma bruxa?
- Eu não tenho família. O mais próximo que já cheguei de ter uma foram às vezes em que sonhei com a minha mãe.
- Hmm...
- Sabe, às vezes eu fico imaginando como seria se ela ainda estivesse viva. Nós duas juntas teríamos força para enfrentar qualquer coisa.
- Mas você é forte. – Digo. – Você ri da cara das pessoas que tentam te derrubar. E tem mais personalidade do que a panelinha de Ashley inteira junta.
Annelise sorri.
- Forte, eu? Tudo que eu tenho é uma muralha que ergui ao meu redor. Assim posso fingir não me importar com o fato das pessoas não me aceitarem. Mesmo quando tenho que me esconder no banheiro e chorar.
- Não consigo imaginar você chorando. – Digo, com a testa franzida.
- Pode imaginar agora? – Sussurra ela, erguendo os olhos pra mim.
Eram dois poços verdes, cheios de lágrimas.
Hesitante, coloquei minha mão sobre a dela. Por um momento, ela pareceu tão pequena e tão frágil. Diferente de todas às outras vezes em que eu a tinha visto.
- Eu... Eu gosto de você.
- Eu também gosto de você, Annelise. É de longe a melhor pessoa que eu conheci nessa cidade.
A bruxa deu um pequeno sorriso.
Quando me dei conta, estávamos sentados na grama, conversando sobre todo tipo de coisa.
Olhei em volta.
- Onde está aquele seu gato?
Ela deu de ombros.
- Cheshire? Deve estar caçando algum coelho do mato por aí.
- Não acha estranho dar um nome desses a um gato tão carrancudo?
- Não acha ótimo um nome desses para um gato louco que aparece e desaparece do nada o tempo todo?
Eu ia dizer que Cheshire não era nome de gato de bruxa, mas um grito me interrompeu:
- Annelise Campbell! – Era uma voz de homem, gritando em algum lugar nas profundezas do bosque.
Percebi nitidamente que Annelise estremeceu. Ela se voltou para mim, pálida.
- Meu pai. – A voz dela era um sussurro. – Meu Deus, já está escurecendo!
- Mas o que...?
Ela se levantou e me puxou, me empurrando na direção da praia.
- Christopher! Vai embora daqui, e não volte! Eu preciso ir pra casa.
Com o coração disparado, comecei a descer a trilha em passos largos.
Olhei para trás, mas não vi Annelise.
Prendi o fôlego e dei meia volta.
Não entendi porque fiz aquilo. Mas eu não podia simplesmente ir embora.

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