quarta-feira, 15 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 6

6. Sobre Espelhos e Bruxas

Ashley começou a chorar e gritar, correndo para o cachorro. Eu ainda estava paralisado, e tudo que eu consegui perceber é que não havia mais nenhum sinal de Annelise por ali.
E Ashley não a havia visto.
Fiquei quase aliviado.
Meus pais saíram para os fundos, alarmados pelo escarcéu de Ashley.
Minha mãe a abraçou de forma consoladora, levando-a para dentro, enquanto meu pai olhava dos destroços do cachorro pra mim.
- Você viu o que o atacou, Christopher?
 Era difícil mentir para o meu pai, mas fiz que não com a cabeça.
- Escutei os latidos, mas quando cheguei era tarde: ele já estava morto.
A noite foi repleta de choro e confusão, com os pais de Ashley tomando café na minha casa e discutindo com os meus pais o que poderia ter acontecido ao cachorrinho.
Só eu fiquei completamente calado.
Mil idéias passavam pela minha cabeça.
O que o pai de Annelise havia dito, mesmo?
Ela mente...
Quer que acreditem que é inocente...
Mas está sempre mentindo...
- Christopher? – A voz do meu pai interrompe os meus pensamentos. – Tem certeza de que não viu nada?
Nego outra vez.
- Nada. Ouvi os latidos e fui ver o que estava havendo, mas cheguei tarde demais. Lamento muito.
Ashley estava com os olhos vermelhos e inchados.
- Pobre Boo Boo. – Diz ela, balançando a cabeça.
Pobre mesmo.
Quem é que merece ser chamado de “Boo Boo”?
A mãe de Ashley a abraçava.
Era uma loira perua muito parecida com a filha. Já o Dr. Kinselle tinha a expressão muito séria, e pelo o que eu sabia, era o melhor médico de Fatalville.
Já eram quase dez horas quando minha mãe se despediu de Ashley e da Sra. Kinselle, enquanto meu pai ajudava o Sr. Kinselle a enterrar os restos do “Boo Boo”.
***

No dia seguinte levantei cedo e disse aos meus pais que ia fazer uma caminhada por aí, e eles concordaram, contanto que eu levasse o celular.
Percorri a mesma praia de ontem de ponta a ponta, mas não encontrei nem sinal de Annelise.
Adentrei o bosque e parei na clareira, mas não havia nenhum sinal dela. As pedras estavam amontoadas em um canto e da fogueira só sobrara cinzas.
Por fim, comecei a subir a trilha em que eu havia visto Annelise e Henry Campbell subirem na noite passada.
A trilha dava muitas voltas e se dividia em vários trechos, e quando eu estava pensando em voltar antes que eu me perdesse, avistei uma pequena casa que ficava acima de uma espécie de morro.
A casa era de madeira e tinha dois andares.
Não havia portões ou cercas, e provavelmente não havia essa necessidade, já que a casa ficava bem escondida no meio da floresta.
Parei, indeciso.
Mas então vi uma silhueta atrás da cortina rosada de um dos cômodos do segundo andar.
Era a sombra de Annelise.
Atirei uma pedrinha na janela, que fez um pequeno estalo ao se chocar com o vidro.
Ela abriu a janela e pareceu surpresa ao me ver.
- Christopher! – Disse, olhando para os lados. – Você pirou? Se te pegam...
- Você também deve estar pirada. – Digo, tomando fôlego. – Para ter aparecido na minha casa ontem e feito o que fez.
Ela fez uma careta de descrença.
- Pirou geral, né? Eu só fui te chamar para um passeio, e ninguém me viu.
- Estou falando de ontem a noite! – Comecei a me irritar. – Desça aqui. Preciso falar com você. Agora.
Ela franziu o cenho.
- Não vou, e você... – Ela se interrompeu, e percebi de longe que as mãos dela começaram a tremer. – Vou abrir a porta pra você.
Ela sumiu da janela, e olhei em volta procurando o que a havia feito tremer daquele jeito.
Ouvi o barulho das trancas (que pareciam muitas) e Annelise abriu a porta.
Cheshire, o gato preto e esquisito que sempre estava com ela, saiu miando e correndo para o quintal, passando entre as minhas pernas de um jeito que quase me fez cair.
Gato infernal.
Encarei Annelise e fiquei um pouco surpreso.
Ela estava com um vestido bege de manga longa, sandálias de salto alto e o cabelo estava arrumado e preso com presilhas. E, se eu não estivesse enganado, ela estava usando maquiagem.
- Que foi?- Indagou ela, baixando o olhar para as próprias mãos.
- Nada. – Respondi.
Ela me encarou.
- Não pode simplesmente dizer que você nunca me viu tão bonita, Christopher? – Pergunta ela em tom de desafio.
- Não vim até aqui para discutir sua beleza, Annelise. – Respondo.
- Não importa. – Respondeu ela. – Não me arrumei pra você. Heath vai chegar hoje.
Ela piscou um olho e eu perdi a paciência.
- Vim aqui para dizer que você me deve explicações.
- É mesmo? – Diz ela, cruzando os braços. – Que explicações, bonitinho?
- Você foi até a minha casa ontem à noite. – Digo. – E matou um cachorro no meu quintal.
Ela deu um passo para trás.
Eu a encarei.
- Entre, Christopher.
Obedeci, e a porta se fechou atrás de mim.
Acho que foi só o vento.
A casa de Annelise era pequena e bem organizada, apesar de escura.
Ela subiu as escadas que levavam ao segundo andar em silêncio, e eu a segui.
Entramos em um quarto de tapeçaria vermelha, onde havia um espelho grande, um guarda roupa de madeira escura e estantes cheias de livros empoeirados.
Nos sentamos em um sofá preto que ficava encostado na janela.
- Este foi o quarto de Diana Campbell. E aquele é o espelho onde diziam que ela invocava um espírito maligno. Meu pai não sabe que eu entro nesse quarto. Eu encontrei a chave há alguns anos, e sempre fico horas aqui quando ele não está por perto.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
- Onde está seu pai agora?
- Foi buscar Heath na estação de trem. – Ela fez uma pausa por algum tempo, então se levantou e começou a andar pelo quarto, passando a mão pela tapeçaria. – Sabe, Christopher... Às vezes fico imaginando como ela era. Uso suas roupas, seus perfumes, seus sapatos... Leio os livros que um dia ela já leu, folheando as mesmas páginas e imaginando o que ela sentiu ao acompanhar cada palavra.
Annelise me encarou.
- Mas o que aconteceu? Ontem à noite...?
Me levantei e fiquei diante dela.
- Eu vi você, Annelise. – Sussurro. – Vi você matando o cachorro de Ashley, e o sangue escorrendo pela sua boca...
Passo os dedos delicadamente pelos lábios dela, e ela fechou os olhos.
- Devo estar ficando louco. – Digo. – De tanto pensar em você. Vendo coisas.
Ela abre os olhos e fixa o brilho verde em mim.
- Você não está louco – Diz ela. – Christopher... Eu fui possuída por um demônio.
Nos encaramos.
- Não me lembro de nada. – Explica ela. – E por tanto tempo achei que as histórias de possessão eram frutos dos delírios do meu pai, mas agora... Mas agora vejo que ele está certo. Eu saio à noite para matar e beber sangue.
Ela tremeu e eu a segurei pelos ombros.
- Annelise, fique calma...
Ela sacudiu a cabeça e soluçou.
- O mesmo demônio que atormentava Diana veio me buscar, por que somos duas bruxas amaldiçoadas.
- Annelise, não pode acreditar nisso! São só boatos que pessoas maldosas inventaram. Não deixe que a histeria delas te contagie...
Ela se afastou de mim e olhou para alguma coisa às minhas costas.
- O espelho... – Sussurrou, e eu me voltei, vendo nossos reflexos no espelho de moldura vitoriana. – O demônio deve habitar o espelho!
Antes que eu pudesse impedir, Annelise jogou uma escova de cabelo no espelho, fazendo uma rachadura e uma dúzia de cacos se espalharem pelo chão.
- Pronto, mãe. – Diz ela, com a sobrancelha erguida para a meia dúzia de reflexos dela que apareceram devido à rachadura. – Estamos livres.
Ela abriu a boca para me dizer algo, mas então escutamos um barulho de motor e uma buzina.
Ela correu para a janela.
- Eles chegaram. - Diz, se voltando para mim. – Não podem te ver aqui. Não faça nenhum barulho, Christopher. Volto pra buscar você.
Sem dizer mais nada, ela saiu do quarto e eu escutei o som da chave virando na fechadura.
Olhei pela janela e logo vi Annelise correr ao encontro de um rapaz alto e musculoso, de cabelos escuros, que estava saindo de uma caminhonete, e que ela abraçou com entusiasmo.
Porém ele pareceu indiferente, contentando-se em bater de leve nas costas dela.
Então esse era Heath?
Grande coisa.
Não gostei desse cara.
Henry Campbell também saiu do carro, e indicou a porta da frente para os dois.
Quando eles entraram na casa, a conversa chegava até mim.
- ...Como está a cidade, Heath? – Era a voz de Annelise.
Não houve resposta, então Henry Campbell começou a falar.
- Não mandei Heath para a cidade, Annelise. Disse isso para acalmar você.
- Não entendi.
- Diga a ela, Heath.
Escuto uma voz grave:
- Eu entrei para a Santa Inquisição, Annelise. Virão te buscar esta noite.
- O que?! – Annelise gritou, e eu ouvi um som que parecia uma cadeira sendo arrastada.
- Você é uma bruxa e terá o que merece! – Berrou Henry Campbell.
Ouvi gritos e o barulho de objetos quebrando.
Tentei abrir a porta de todas as maneiras, mas estava muito bem trancada.
Pude ver pela janela o céu escurecendo lá fora, e um vento forte começou a soprar.
- Pegue a corrente, Heath! – Berrava Henry Campbell. – Prenda essa bruxa!
Escutei os gritos de Annelise e sons abafados.
Gelei ao perceber o som de passos subindo as escadas, e uma corrente sendo arrastada pelo assoalho em direção a um dos quartos vizinhos.
Annelise havia parado de gritar.
Aflito, me voltei para o quarto, buscando alguma coisa que pudesse me ser útil para sair.
Foi então que percebi que o espelho que Annelise havia quebrado estava inteiro outra vez.
A temperatura do quarto caiu, e um rosto masculino que não era o meu apareceu na superfície escura do espelho.

Um comentário:

  1. Adorei seu blog!
    Parabéns! :D
    Beijos!
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