quarta-feira, 22 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 7

7. Sal e Ferro

Olhei para trás, em estado de choque.
Mas não havia mais ninguém além de mim no quarto.
Então me voltei para o espelho, com a respiração entrecortada. As imagens passavam diante dos meus olhos como se fosse uma tela de TV.
Reconheci o rosto de Henry Campbell, só que ele estava muito mais jovem e sem nenhum fio de cabelo branco. O vi entrando em uma casa, a mesma casa em que eu estava escondido agora, só que parecia mais uma mansão apesar do tamanho pequeno, já que estava novinha em folha, cercada por um jardim impecável.
Ele subiu para o segundo andar e entrou no quarto de tapeçaria vermelha, esse mesmo em que eu estava agora, e começou a falar com uma mulher.
Eu não podia ver o rosto de Diana, uma mulher baixa e magra, com cabelos pretos, que estava de costas pra mim.
Ela olhava para um berço, onde havia duas crianças recém-nascidas.
- O que você pretende fazer? – Henry perguntava, olhando para a esposa.
Diana não respondeu.
Ao invés disso abriu uma gaveta da penteadeira e tirou dois espelhos minúsculos, ambos com um gato entalhado. Eu já conhecia aquela moldura: era o espelhinho de Annelise.
- Uma criança seguirá o caminho da bruxaria, enquanto outra será pura magia negra. Uma será a única esperança, enquanto a outra, deverá morrer. – Disse uma voz feminina. – Deixarei que decidam.
O espelho me intrigava.
Digo, o grande, que exibia imagens em “flashbacks”.
Não fazia o mínimo sentido ver Diana com dois bebês, a não ser que um deles fosse Heath.
E o que queria dizer esse lance de bruxaria e magia negra?
Depois vi imagens de pessoas mascaradas, e Diana presa em correntes: sempre uma mulher de costas.
De repente a imagens se apagaram, e letras apareceram devagar na superfície escura do espelho:

AJUDE ANNELISE

Com um pequeno estalo, o espelho voltou ao normal, e eu só pude ver meu próprio rosto assustado, branco como papel.
Olhei pra trás e me deparei com a porta do quarto aberta.
Como isso podia acontecer?
Espiei para fora e escutei. Nenhum mínimo ruído.
Olhei pela janela e vi que a caminhonete de Henry Campbell não estava mais lá, e eu nem havia escutado-o sair.
Me apressei.
Sabia que tinha pouco tempo.
Lá fora ameaçava começar um verdadeiro temporal tropical.
Abri uma das portas do corredor e topei com Annelise.
Fiquei pasmo.
Ela estava com os pulsos e tornozelos acorrentados em uma parede onde haviam ganchos que pareciam próprios para isso. O quarto estava completamente vazio, a não ser por uma lareira apagada recentemente, uma cruz de madeira no chão e uma bandeja contendo bisturis e outras ferramentas cirúrgicas.
Annelise parecia estar completamente desacordada.
Me aproximei e segurei o rosto dela com as mãos.
Sua testa estava molhada de suor, mas ela não parecia ter sido ferida, e sim desmaiado depois de ser acorrentada.
Olhei para os lados, sem saber o que fazer.
Segurei com força as correntes, e descobrir como desenroscá-las dos ganchos. Segurei Annelise no colo: ela era pequena e bem leve, então não seria um problema carregá-la por alguns metros.
Porém, quando eu estava descendo as escadas, escutei o barulhento motor da caminhonete, e pelo menos outros dois veículos.
Henry Campbell havia chegado, e ele trazia companhia.
Não tive tempo de ficar paralisado.
Apenas apertei Annelise mais ainda contra o meu peito e corri escada acima, entrando no quarto das tapeçarias vermelhas e fechando a porta atrás de mim.
Meio segundo depois escutei passos de várias pessoas na escada, e logo em seguida gritos: A bruxa escapou!
Eu sabia que não tinha muito tempo até alguém resolver olhar dentro do quarto de Diana.
Deitei Annelise na cama, tomando cuidado para não fazer barulho com as correntes, e fui até a janela.
Era bem alto, mas havia uma escada de madeira encostada na calha, quase toda coberta pelo musgo.
Vi homens entrando apressados em um dos carros e outros se aventurando a pé pela floresta.
Começou a garoar.
Assim que não vi mais pessoas à vista, forcei um pouco a janela e ela cedeu.
Difícil seria descer com Annelise no colo sem escorregar e quebrar o pescoço, mas eu tinha que arriscar.
Peguei-a no colo com cuidado, e, rezando com toda a minha fé, sai para o sereno.
O vento soprou com força contra nós, e procurei com o pé o apoio da escada. Assim que me apoiei, a madeira apodrecida cedeu, e fechei os olhos quando despencamos juntos, sabendo que era o fim.
Esperei pelo impacto do chão duro e lamacento, que me arrebentaria, mas ele não veio.
Só houve, ao invés disso, uma espécie de tranco, que me fez abrir os olhos.
Olhei para baixo e vi o chão a apenas trinta centímetros.
Olhei para cima e vi uma das correntes que apertavam os pulsos de Annelise enroscada na calha.
Eu sabia que aquilo era impossível.
E mais impossível ainda foi a corrente se desenrolar sozinha, assim como havia se enrolado, me deixando aterrissar firme no chão com Annelise no colo.
A chuva começou a engrossar, e não demoraria para alguém nos ver se continuássemos por ali.
Eu com certeza me perderia se fosse pela floresta, então corri para o lado da praia.
Não havia ninguém a vista.
Deitei Annelise embaixo de alguns coqueiros e me sentei ao lado dela para descansar um pouco.
Tirei minha jaqueta para cobri-la, mas então percebi que havia alguma coisa muito errada.
O rosto dela estava vermelho e quente, e eu percebi que partes de seus braços, logo acima das correntes, estavam muito brancas.
As correntes.
Não pareciam apertadas, mas forcei o máximo que podia as argolas de metal frio, e, para minha grande surpresa, consegui abri-las.
Eram como garfos que se consegue entortar com os dentes.
Porém, mal contive um grito.
O pulso de Annelise estava queimado onde antes estava o ferro. E o outro pulso também. E os tornozelos.
Mas o ferro não estava quente!
Ela abriu os olhos devagar.
- Christopher... – Murmurou Annelise.
- Shh. – Eu disse, passando a mão no cabelo dela. – Você está machucada. Vou ligar para o hospital.
Ela olhou para os próprios pulsos.
- Não é preciso. – Disse. – Apenas me ajude a chegar até o mar.
Fiz o que ela pediu, sem contestar.
Deixei-a se apoiar em mim e caminhamos para a água fria e agitada.
- O tempo virou de repente. – Comentei. – Acho que haverá uma tempestade.
- Ou não. – Respondeu ela. – Depende do meu humor.
- Então você controla o tempo? – Pergunto.
- Não exatamente. – Diz Annelise, quando a água começa a chegar aos nossos joelhos. – O temporal começou quando me prenderam. Quando eu senti medo e achei que iria morrer.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Então olhei para os pulsos dela e não vi nenhuma marca, nenhum sinal de ferimentos, onde antes haviam queimaduras horrendas.
- Como isso é possível?
Ela deu um pequeno sorriso, e eu percebi que a cor do rosto dela havia voltado ao normal.
- Há vantagens e desvantagens em ser uma bruxa, Christopher. Alguns metais podem me queimar e deixar inconsciente. Mas o sal tem o efeito reversivo.
Paramos de repente, e ela me encarou de maneira intensa.
- Hey, não pense que eu não sei de tudo o que você fez, tudo o que passou. – Ela ergueu o rosto e o vento agitou os cabelos dela. – Foi muito corajoso, Christopher.
A encaro de volta, segurando suas mãos.
- Eu faria tudo de novo...  – Digo, hesitando. – Eu só quero te ver bem.
Nos beijamos, e senti a brisa se suavizar por um instante.

***
- Isso não vai dar certo. – Disse Annelise, parada em frente à janela do meu quarto. – Eles vão descobrir.
- Confie em mim. – Respondi. – Entre logo. Depois de sairmos daquele jeito da sua casa, não será tão difícil entrar na minha.
- Não precisa fazer isso. – Insiste ela, erguendo-se na ponta dos pés para espiar dentro do quarto. – Já disse que posso morar na floresta.
- Annelise, se você quer ser a versão feminina do Tarzan não é problema meu. Estou dizendo que não há escolhas. Você vai morar escondida na minha casa, por pelo menos algum tempo.
Ela revirou os olhos, mas pela primeira vez reconheceu a derrota.
Recusou minha ajuda e pulou silenciosamente para dentro do quarto, se bem que com certa dificuldade.
Eu, então, entrei pela porta da frente, mas meus pais não estavam em casa.
Peguei toalhas e algumas roupas da April e enchi a banheira com água quente para Annelise.
Confesso que o vapor quente e o cheiro de shampoo que ela exalava quando saiu do banheiro, apenas de toalha, me deixaram com muita vontade de beijá-la de novo, mas respeitei sua privacidade e deixei que ela se trocasse no quarto.
Não pude deixar de rir ao vê-la com as roupas da minha irmã, que ficaram bem largas e precisaram ser dobradas nas mangas e nas barras.
- Não tem graça. – Resmungou ela. – Trouxe comida?
- Trouxe sim. – Respondi, lhe entregando um pacote de salgadinhos e uma lata de refrigerante.
- Que saudável. – Resmunga ela.
- Ora, que garota folgada. – Brinco.
- Você que ofereceu a hospitalidade. – Responde ela, dando de ombros.
Nos sentamos abraçados no sofá, e ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas comendo Doritos e aproveitando um pouco a sensação de proximidade que era nova para nós dois.
Eu queria continuar assim. Queria passar a mão pelo cabelo dela, beijá-la, abraçá-la... Mas sabia que haviam coisas urgntes que precisávamos conversar.
- Quem eram aqueles caras? – Perguntei, de repente. – O que eles queriam?
A expressão dela endureceu.
- A Santa Inquisição. – Ela me encarou. – O que eles queriam? Arrancar meu coração com um bisturi e queimá-lo em nome de Deus, apenas isso.
Ela se ajeitou no sofá, procurando uma postura confortável.
Me preparei para escutar uma história de terror bem real.

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