quinta-feira, 23 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 8

8. Segredos

- A Santa Inquisição – começa Annelise – É um grupo de fanáticos religiosos totalmente pirados. Eles seguem os princípios católicos, não os atuais, mas sim os da Idade Média. Eles simplesmente acusam as pessoas de serem bruxas ou qualquer outro tipo de monstro e as perseguem, torturam, matam...
Ela se calou e eu pude ler o medo em seus olhos.
- Heath agora é um deles, Christopher. – Disse ela, de repente. – Eu achei que ele estava viajando pra longe, mas na verdade meu pai o convenceu de que eu sou um demônio. De que preciso ter meu coração arrancado e queimado.
Seguro a mão dela e aperto.
- Você não precisa ter medo. – Digo. – Estou com você. Não vou deixar que te machuquem.
Annelise apoiou a cabeça em meu peito.
- Se ao menos eu soubesse, Christopher... Soubesse o que eu realmente sou, e quem era ela...
- Diana?                              
- Sim. Diana Campbell. Minha mãe. Uma bruxa como eu.
Me enrijeci ao lembrar das cenas que o espelho havia me mostrado.
- O que foi? – Perguntou Annelise, me examinando atentamente com os olhos. – Você está com medo de alguma coisa. É de mim, Christopher?
- Não. – Respondi.
Ela tinha que saber a verdade.
Contei a ela tudo o que eu vi no espelho, até mesmo as partes que eu não havia entendido.
Quando terminei, Annelise se levantou e começou a andar de um lado para o outro do quarto.
- Não é possível! – Ela me encarou. – Christopher, eu nunca vi nada assim naquele espelho! Bem... Às vezes eu tinha a impressão de ver uma sombra ou outra passando por ele, mas sempre achei que era apenas isso, impressão... E dois bebês? Eu sou a única filha de Diana, e Heath só veio morar em Fatalville há alguns anos... Como pode?
De repente Annelise parou e me encarou, parecendo aterrorizada.
Me levantei e fui para ao seu lado, temendo que ela entrasse em estado de choque.
- Está tudo bem, Annie.
Ela abriu a mão e exibiu o espelhinho com moldura de gato.
- Minha mãe me deixou duas heranças, Christopher. – começou ela. – Cheshire e esse espelho. Cheshire é um gato estranho e foi sempre uma espécie de guardião pra mim, e esteve comigo em todos os momentos da minha vida. E esse espelho... Também sempre esteve comigo.
- Não me lembro de tê-la visto com ele na mão quando fugimos. – Observo, tendo certeza de que as mãos dela estavam vazias.
Ela assentiu.
- É disso que eu estou falando. E achei tão estranho quando você o encontrou naquele dia, depois da aula de química. Você me assombra e perturba, mesmo que eu nunca o chame, Christopher Harris.
- Me considera uma assombração?           
- Sim, das melhores. – Responde ela. - Como podemos ter tanta afinidade se pertencemos a dois mundos tão diferentes? – Sussurrou ela.
- Acho que é assim que funciona o que chamam de amor. – Arrisquei.
- Talvez – Ela baixou os olhos. – Mas isso não explica nada. Você não é um ser humano normal, Christopher. Lembra quando eu disse que podia ler seus sentimentos? Não se parece com nenhuma outra pessoa. E você achou o espelho e o trouxe até mim. E viu aquelas coisas no espelho grande. E conseguiu me tirar daquela casa quase que por milagre. O que você é?
Fechei meus olhos por um instante, e quando os abri percebi a expressão preocupada de Annelise.
- Não entendo. – Insiste ela, mordendo o lábio inferior.
- Basta eu estar com você para me sentir melhor. – Digo. Me sentir um cara bom.
- Tenho que te contar uma coisa. – Diz ela. – E então vou dizer o que eu acho.
- Conte. – Pedi. – Pode me contar tudo.
Ela suspirou, e nos sentamos no sofá outra vez.
- Eu não sabia nada sobre a minha mãe até pouco tempo. Só sabia que ninguém em Fatalville jamais gostou dela, assim como não gostam de mim. E eu sei o porquê. Porque sou uma bruxa. Nunca neguei isso. As coisas que eu desejo com força acontecem. Posso provocar mudanças no clima. Fazer as pessoas pensarem coisas... Como naquele dia, que desejei que o Prof. Jonas morresse. Eu não queria. Só fiquei com raiva. Achei que não tinha desejado com força, e que não iria acontecer. Em algumas noites eu escutava barulhos estranhos, e a voz de um espírito que me pedia para deixá-lo me dominar. Ele era... Mau. E eu sempre tentei ignorá-lo. E hoje... Você me diz que eu matei um animal e bebi o sangue dele, sendo que eu não me lembro de nada disso. O espírito conseguiu o que queria. Ele me possuiu. E você deve ir pra longe de mim, Christopher.
Encarei Annelise.                
- Não! – Digo, resoluto. – Isso é só a sua teoria. Não vou me afastar de você. Se ao menos tivéssemos alguma pista sobre sua mãe...
- Há uma pessoa. – Diz Annelise, e eu a vejo ficar apavorada outra vez. – É uma cigana que vive no topo da montanha. Ela foi a melhor amiga de Diana Campbell. Ela sabe tudo. Uma vez, quando eu era criança, nos encontramos na cidade, e ela tentou falar comigo. Mas eu fugi. Fugi por que não queria mais ser a bruxa de Fatalville. Queria apenas ser eu...
Annelise suspirou, olhando para o céu escuro através da janela.
Segurei as mãos dela. Eu já havia tomado uma decisão.
- Annelise... Nós vamos procurar essa mulher amanhã, seja ela quem for, e vamos descobrir tudo o que desejamos saber. Se você quiser, claro.
Os olhos dela faiscaram.
- Sim. Eu quero.
Ela me beijou, e eu a apertei com força contra mim, com a sensação de que poderia ficar assim pra sempre, sem nunca mais largá-la.
***

- Eles chegaram. – Aviso, escutando passos no hall.
- Vou ficar quieta. – Promete Annelise.
Concordo com a cabeça e saio do quarto, fechando a porta atrás de mim no mesmo instante em que escuto a voz da minha mãe.
- Christopher? Está em casa?
- Oi, mãe. Oi, pai. – Digo, tentando ser o mais natural possível. – Onde vocês foram?
- Dar uma volta pela cidade. – Diz meu pai, tirando a jaqueta. – Mas o tempo virou de repente. Estranho, não?
- Com certeza. – Digo, dando de ombros. – Foi sinistro.
- O que você fez hoje? – Pergunta minha mãe, colocando uma caixa de pizza na mesa. – Se divertiu por aí?
- É. Fiz umas caminhadas. Estou super cansado.
Meus pais não desconfiaram de nada, graças a Deus.
Peguei duas fatias de pizza e levei para o quarto, dando boa noite antes de fechar a porta e girar a chave o mais silenciosamente possível.
Annelise estava sentada no tapete do quarto, segurando o gato preto que ela chamava de Cheshire no colo.
- Hei! O que o monstrinho está fazendo aqui? – Pergunto, sussurrando.
Ela deu de ombros.
- Ele apareceu na janela e eu o deixei entrar.
Liguei a TV em um volume razoavelmente alto para não corrermos o risco de sermos ouvidos.
- A bola de pêlos não pode ficar. – Digo.
- Ora, Christopher... Esse gato vem sido meu melhor amigo por tanto tempo, desde que eu nasci! Se mandar ele embora, vou também.
- Tá ok. – Digo. – Você venceu, bichano.
O gato me ignora, continuando a ronronar satisfeito nos braços de Annelise.
Ela sorri e coloca o gato no sofá cama, depois vem na minha direção e me abraça.
Eu coloco meus braços ao redor dela e encosto o nariz em seu cabelo, aspirando o cheiro doce do shampoo da April.
- Estou feliz. – Sussurra ela. – Apesar de tudo o que me aconteceu, apesar da minha vida parecer um pesadelo, estou feliz por estar com você.
- Também estou feliz, então. – Digo.
- Sabe, Christopher... Você ter vindo pra essa cidade justo agora pode não ser coincidência. Talvez  o destino quisesse que você me encontrasse.
- Eu acho que eu estou me apaixonando por você. – Confesso, sentindo o meu rosto esquentar.
- Isso não é uma ideia muito sábia. – Respondeu ela, me dando um beijo suave.
Dormimos abraçados, sabendo o que nos aguardava pela manhã. Sentir o calor dela junto a mim parecia ser a melhor coisa do mundo.
Só que mais tarde, naquela noite, tive um pesadelo.
Foi aí que eu me dei conta de que a minha vida nunca mais voltaria a ser a mesma.

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