sábado, 25 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 9

9. A Verdade Revelada

- Corre, Christopher!
Annelise gritava.
Corríamos ofegantes pela floresta, fugindo de alguém ou alguma coisa. As árvores pareciam querer nos segurar com seus galhos, que se enroscavam em nossas roupas.
O rosto de Annelise estava cheio de arranhões.
Mas não podíamos parar, ou seríamos alcançados.
Quando chegamos a uma clareira, certos de que agora encontraríamos a estrada e pessoas que pudessem nos ajudar, por pouco não caímos em um abismo.
Estávamos na beira de uma espécie de cânion, e eu podia ver a casa de Annelise do outro lado do precipício.
Nos voltamos, desesperados, mas não havia por onde escapar.
Era tarde demais...
***
- Christopher? Está tudo bem?
Annelise me encarava com a expressão preocupada.
Me sentei na cama, respirando com dificuldade e suando frio. Ainda estava escuro lá fora.
- Estou bem. – Digo, passando a mão na minha própria testa e sentindo-a úmida. – Foi só um pesadelo.
- O que você sonhou? – Pergunta ela, parecendo intrigada. – Sonhos e pesadelos são sempre uma pista.
- Não me lembro. – Declaro, depois de pensar um pouco. – Já não me lembro mais de nada.
Ela continuou me encarando.
- São 5 da manhã. – Sussurra ela. – Acha melhor irmos agora?
- Acho. – Respondo, ainda pensativo.
Meus pais ainda estavam dormindo.
Peguei uma calça jeans e um suéter vermelho no guarda-roupa de April e os levei para Annelise.
Preparei o café da manhã enquanto ela tomava banho.
Até mesmo arrisquei pegar um par de tênis “emprestado”, sorrateiramente, na sapateira da minha mãe, que tinha pés pequenos.
Depois que eu também havia tomado um banho e tentado relaxar ao máximo, tomamos café e saímos.
Deixei um bilhete na geladeira, dizendo aos meus pais que eu resolvi acordar cedo e correr.
- Onde a tal cigana mora? – Pergunto a Annelise.
Ela dá de ombros.
- Pessoalmente eu não sei, mas todos dizem que ela vive em uma caverna no topo da montanha. – Annelise coloca uma mecha do cabelo atrás da orelha. – Ela é uma das lendas vivas de Fatalville, sabe? Assim como eu, a bruxa.
Caminhamos muito.
Atravessamos um bom pedaço da praia e depois seguimos por uma estrada de terra totalmente deserta.
Depois subimos por uma trilha íngreme.
- Não estamos perto da sua casa, estamos?
- Não. – Respondeu Annelise, com segurança. – Minha casa fica do outro lado da floresta, depois de um cânion.
Aquilo despertou uma faísca na minha memória, mas não consegui me lembrar de nada.
No meio do caminho, Cheshire, o gato, pulou do meio do mato bem diante de nós.
- Como ele fez isso? – Pergunto, incrédulo.
Annelise não parecia impressionada.
- Ele faz isso o tempo todo. Ás vezes penso que ele me segue sem que eu perceba, e outras acho que ele... Simplesmente resolveu aparecer. Ele é o gato de Diana.
- E você é a filha de Diana. – Digo. – Lembra daquele dia, antes da aula de química?
Ao falar isso, percebi quantas coisas aconteceram nos últimos três dias. Estranho. Há três dias Annelise Campbell era só uma garota estranha e intrigante, que me deixava curioso, mas que não representava nada pra mim.
E hoje... Bem, ela não era mais uma garota qualquer, com toda a certeza.
Annelise me encarou com os olhos verdes que sempre prendiam minha atenção, e respondeu à minha pergunta.
- É claro que me lembro. E o que posso fazer? Tenho os meus truques.
Sorrio, sabendo que ela sabe exatamente como eu me sinto.
Essa garota ainda vai me enlouquecer.
E isso é ótimo.
***
Depois de encarar quilômetros de subida, finalmente avistamos uma pequena caverna no topo da montanha.
Paramos.
Olhei para Annelise. Ela não parecia cansada, apenas seu rosto estava corado por causa do exercício. Os olhos verdes brilhavam mais que nunca.
- Pronta para descobrir a verdade?
Ela apertou minha mão.
- Eu não estaria, caso estivesse sozinha.
Nos aproximamos mais da caverna.
Havia um tapete na entrada, e vários sinos pendurados ao redor da passagem, tintinando com o vento. O gato preto que nos acompanhava entrou correndo, sem hesitar.
Um cheiro forte de incenso chegava até nós.
Olhando para dentro da caverna, era tudo bem escuro, e apenas podiam-se discernir formas e vultos.
Escutamos uma voz que parecia vir de algum lugar distante, trazida por ecos:
- Eu estava esperando por vocês, crianças. Entrem.
Senti Annelise apertar ainda mais minha mão.
Entramos juntos na caverna, tateando pelas paredes de pedra. Ao fazermos uma curva, acompanhando o “túnel” dentro da caverna, demos em uma saleta circular.
Havia velas e incensos, estantes de livros e uma espécie de lareira onde o fogo crepitava. Também haviam poltronas, almofadas e tapetes de várias estampas.
Uma mulher que não deveria ter mais de 40 anos estava sentada atrás de uma escrivaninha, anotando alguma coisa em um papel, usando pena e tinteiro.
Cheshire estava sentado em cima da mesa, observando-a.
A mulher levantou os olhos escuros para nós.
O cabelo dela era vermelho e longo, e suas roupas eram coloridas.
- Annelise Campbell – Disse ela, sorrindo gentilmente. – Ora, que mocinha adorável. E é incrivelmente parecida com seu pai, apesar do olhar e da postura sem dúvida serem herdados de Diana...
A cigana, então, voltou-se pra mim, e eu quase recuei ao encontrar seus olhos de falcão.
- E você, Christopher Harris? Tão belo e nobre, com sua áurea pura. – Ela olhou de mim para Annelise e vice-versa. – Oh, amor jovem! Faz tanto tempo que não vejo algo assim florescer! O brilho dos olhos dela, a vitalidade dele...
- Desculpe, cigana Soraya. – Interrompeu Annelise, com um suspiro impaciente. – Mas não viemos até aqui para isso...
- Claro que não! – Concorda a cigana. – Vamos, vamos... Sei para o que vieram. Sentem-se, vamos!
Nos entreolhamos e achamos melhor obedecer, então sentamos em duas poltronas diante da escrivaninha.
- Querem chá, crianças?
Ela ergueu uma chaleira que expelia uma fumaça amarelada, que tinha um forte aroma de flores e ervas, adocicado demais para o meu gosto.
- Não, obrigado. – Respondi para a cigana.
Annelise apenas fez um sinal negativo com a cabeça.
- Quero falar sobre Diana, minha mãe. – Disse Annelise, em tom autoritário. – Preciso saber de tudo sobre ela.
A cigana assentiu, juntando as mãos cheias de anéis por cima da mesa.
- Diana Campbell... A conheci quando ainda era Diana Kipp, uma garotinha de olhos verdes, muito terna e admirada por todos no vilarejo em que eu e ela crescemos... Ela era uma menina especial, todos sabiam. Tinha uma personalidade pacífica e uma capacidade de amar tão grande... Era serena e gentil. Ela tinha um dom em sentir as coisas, em conhecer as pessoas de uma maneira mágica... Ela era uma bruxa, Annelise. Mas uma boa bruxa, então, mesmo as pessoas sabendo disso, continuavam a amá-la.
A cigana interrompeu o relato e olhou para Annelise. Fiz o mesmo. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
Segurei sua mão por baixo da mesa.
E, por um momento, me coloquei no lugar dela.
Annelise cresceu em uma casa onde seu pai, cada dia mais senil, a maltratava. Viveu a vida inteira em uma cidade onde todos a julgavam e ela não teve um amigo sequer por todo esse tempo.
Da mãe que ela nunca conheceu, só ouvia horrores, sabendo que a mãe foi uma bruxa, assim como ela é.
E então, pela primeira vez, alguém lhe dizia que sua mãe era boa, generosa e tudo o mais. Como se agora ela tivesse uma esperança de ser alguém muito melhor do que as pessoas diziam, assim como Diana.
- Você tem que decidir agora, Annelise. – Continuou a cigana. – Basicamente, todas as histórias que você ouviu sobre sua mãe são boatos. Eu sei de toda a verdade, e é uma história muito diferente, com fatos felizes e infelizes. É você quem decide. Quer que eu a conte ou não?
- Continue, por favor. – Pediu Annelise, mordendo o lábio.
A cigana retomou a narrativa.
- Diana, então, se tornou uma mulher caridosa, porém de personalidade forte. Era bondosa, porém geniosa e aventureira. Certa vez, então, um homem se apaixonou por ela. Diana não sentia o mesmo, e o recusou da forma mais delicada possível. Ele, porém, sentiu-se humilhado, e quando descobriu que Diana era uma bruxa, convocou a seita a qual pertencia: a Santa Inquisição.
A cigana fez uma breve pausa, e o fogo da lareira se agitou. Senti vontade de abraçar Annelise, mas sabia que não era o momento adequado.
- Diana e eu, que sempre fui sua melhor amiga, fugimos juntas para Fatalville antes que a Santa Inquisição a pegasse. Aqui ela conheceu Henry Campbell, outro homem que se apaixonou por ela. Ele decidiu largar a vocação religiosa e a pediu em casamento. Sua mãe, que também era afeiçoada a ele, aceitou, pois também precisava de um novo sobrenome para se esconder da Santa Inquisição. As beatas não gostaram nada dessa união, e fizeram tudo o que podiam para difamar sua mãe, o que deu origem aos boatos que você com certeza já escutou por aí, Annelise. Voltando, porém, aos recém-casados Campbell, eles foram muito felizes por três anos. Quando sua mãe ficou grávida, não cabia em si de felicidade. Porém, Annelise, há uma coisa que você precisa saber sobre as bruxas...
A cigana encarou Annelise, muito séria.
- As bruxas são as únicas mortais que podem se comunicar com espíritos. Esses espíritos podem ser bons ou malignos. Os bons sempre estão dispostos a fazer de tudo para agradar e proteger as bruxas. Os malignos fazem de tudo para tentá-las, possuí-las e fazê-las ficar em suas mãos. Sua mãe, particularmente, conhecia bem dois espíritos: Lucius, um espírito maligno que ela fazia de tudo para ignorar, e Brendon, um espírito bom que sempre foi uma espécie de anjo da guarda pra ela.
Annelise estremeceu ao meu lado.
- Não pare. – Pediu ela.
A cigana assentiu.
- Quando sua mãe descobriu que não esperava apenas uma criança, mas duas, sua felicidade dobrou. Então, numa noite, seu pai sofreu um acidente, e estava morrendo. Lucius, o espírito maligno, ofereceu ajuda a sua mãe, prometendo não deixar que Henry morresse. Sua mãe, mesmo sabendo dos riscos, aceitou. Henry sobreviveu, mas as seqüelas em seu cérebro pouco a pouco começaram a fazê-lo enlouquecer, devagar. Mas Diana não sabia disso ainda. Acreditava que Lucius havia se redimido, pois havia salvo seu marido sem pedir nada em troca. Feliz, ela nomeou Brendon seu guardião, Annelise, e Lucius o guardião de sua irmã, Angelique.
A cigana parou, subitamente, e se pois a acariciar o gato.
- Continue! - Pediu Annelise, impaciente.
- Pobre Diana. Que erro terrível cometeu. No dia em que ela preparava os presentes de suas duas filhas, dois espelhos com moldura de gato, onde elas poderiam evocar seus guardiões, Lucius revelou suas intenções de possuir a filha de Diana que ele deveria guardar. Diana e Brendon travaram uma espécie de luta de poder contra Lucius, que acabou com os dois espíritos brigando dentro de um grande espelho no quarto de Diana. Foi medonho. Eu estava lá. Não podia ver os espíritos, mas senti sua fúria. Lucius ficou bastante enfraquecido, mas não foi derrotado. Naquela mesma noite, Diana deu a luz a duas meninas lindas e saudáveis, que foram batizadas como Annelise e Angelique Campbell. Duas bruxinhas, que possuíam seus guardiões e seus portais para invocá-los. Porém, como Diana se deu conta, uma seria uma bruxa da luz, mas a outra corria o risco de ser uma bruxa das trevas, de ir para o lado da magia negra. Uma seria a esperança, e outra deveria... Morrer. Ah, Annelise, Se você soubesse o quanto essa decisão machucou sua mãe... Mas ela sabia que Lucius voltaria e faria de tudo para levar a alma de Angelique para o mal. Então ela decidiu que não esperaria Lucius se fortalecer. Em uma tarde de primavera, enquanto você dormia e eu segurava Angelique nos braços, ela fez uma espécie de chá com ervas, conhecida como Poção do Eterno Sono, que faria Angelique adormecer e morrer sem nenhuma dor, e sentindo-se feliz. Assim, Brendon levaria a alma da criança para luz. Henry sabia da decisão da esposa, e não questionava, apesar de não compreender. Sua mente já começava a ficar embaralhada. Mas nunca vou me esquecer a expressão de Diana naquele dia. Os olhos inchados de tanto chorar e coração pesado. Ela acariciou a filha e a beijou muitas vezes, e se preparou para dar-lhe a poção... Foi então, nesse exato momento, que um homem entrou no quarto e deteu Diana. Reconheci o mesmo homem da Santa Inquisição de quem ela havia fugido. Gritei, mas ele me ignorou. Fez de tudo para espalhar a história de que Diana tentara matar a filha e fez com que ela fosse internada como louca. Pegou a pequena Angelique dos braços de Diana e a levou, enquanto você chorava no berço, Annelise. Ele levou Angelique, e hoje eu não sei onde ela está, com quem está, se realmente aceitou as condições de Lucius e segue com as trevas... Só sei que você, Annelise, foi criada pelo pobre Henry Campbell...
Annelise se pois de pé, de repente, e encarou a cigana.
- Então... Eu tenho mesmo uma irmã gêmea?
- Sim, criança.
Segurei a mão de Annelise para tentar acalmá-la, mas sua mente estava a mil.
- O homem que levou Angelique pertence à Santa Inquisição, não é?
- Sim...
- E agora estão atrás de mim... Agora eu entendi tudo!
Olhei para Annelise, procurando uma resposta.
A cigana franziu a testa.
- Espere... Vocês precisam fugir! – Gritou a mulher, e vi os braços dela se agitarem. – Eles estão vindo. Rápido!
Me levantei, sem entender o que estava havendo.
- Obrigada, cigana Soraya! – Berrou Annelise, puxando meu braço na direção da saída da caverna.
- O que está havendo? – Pergunto, incrédulo.
Vejo o gato preto correr na nossa frente.
- Não dá tempo de explicar agora!
Quando saímos da caverna, a luz do sol quase nos cegou. Mas a primeira coisa que vimos, ao longe, foi um grupo de vultos subindo a montanha. Era a Santa Inquisição.
- Corre, Christopher!
A voz de Annelise me faz recordar subitamente o sonho, e me vejo vivendo meu próprio pesadelo, até chegarmos à beira do abismo.
Tarde demais...
- E agora? – Pergunto a Annelise.
Antes que ela pensasse em algo para dizer, um homem encapuzado, usando um pesado crucifixo pendurado no pescoço, chegou até nós, apontando uma arma.
- Me deixe em paz! – Gritou Annelise. – Não fui eu que matei o Prof. Jonas, e nem mandei um espírito atacar aquele casal na praia. Foi outra bruxa, e ela se chama Angelique Campbell!
- Eu sei. – Respondeu o homem.
Ele baixou o capuz, e, boquiaberto, reconheci o Dr. Kinselle. Atrás dele, pude ver mais duas pessoas: Heath e Ashley.
- Ashley Kinselle? – Indagou Annelise, reagindo mais rápido que eu.
- Sim. – Diz ela, balançando os cabelos loiros com ar de vitória. – Oi, Cris. Oi, Annelise. Você não é a única que tem os seus truquezinhos, sabia?
A encarei com descrença. O brilho ingênuo de seus olhos havia desaparecido, e ela agora parecia uma espécie de serpente.
- Você... – Começo, ainda descrente. – Não acredito!
Ela sorri e faz um bico.
- Não teria me rejeitado se soubesse o quanto eu sou poderosa, não é mesmo, Chris?
- É Christopher. – Digo, em tom áspero. – E eu jamais daria crédito a uma garota falsa igual a você.
Ashley fica vermelha, e Heath dá um passo à frente.
- Não importa mais. – Diz ele. – Você será aniquilado. E quanto a você, Annelise... Tem a opção de se unir a nós e a Lucius. O que me diz?
Olhei para Annelise.
Ela parecia totalmente serena.
Em resposta, apenas ergueu seu espelhinho com a moldura de gato, refletindo o sol, e exclamou:
- Em meu nome e em nome de Diana Campbell, eu invoco o espírito de Brendon pra dar na cara de vocês.

Um comentário:

  1. Uaal quen diriia ein Ashley é uma Bruxa tbn..
    ta ficanduu cada dia melhor :O
    Parabéns Giovanna!

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