domingo, 26 de junho de 2011

MINHA NAMORADA É UMA BRUXA - PARTE 10

10. Duelo de Bruxas

Por alguns segundos, achei que nada iria acontecer.
Então, o espelho na mão de Annelise brilhou, e eu vi a mão dela tremer.
O gato, Cheshire, pulou para o lado de Annelise, e uma espécie de névoa começou a envolvê-lo. Boquiaberto, vi a figura do gato crescer e se transformar em uma silhueta humana.
Annelise deu dois passos para trás, e eu tive que segurá-la, temendo que ela caísse no abismo.
- Era você o tempo todo... – Sussurrou ela, tão surpresa quanto eu.
Diante de nós não havia mais um gato, e sim um homem alto que usava apenas uma calça branca, de cabelos claros e pele tão dourada que chegava a ser luminosa. De suas costas brotavam duas imensas asas de plumagem alva, e ele segurava uma espécie de espada de ouro.
Era como um anjo.
Ele olhou para Annelise e fez uma mesura respeitosa.
- Estou aqui, minha senhora.
Ashley deu um passo à frente, com o rosto vermelho e descrente. Ela ergueu a mão para tocar na plumagem de Brendon, mas se deteve, como se alguma coisa a houvesse repelido.
Heath e o Dr. Kinselle estavam imóveis e paralisados.
- Isso não é justo! – Exclamou Ashley. – Esse espírito só está assim tão forte porque se sustentou todo esse tempo com o corpo e a energia do gato! Lucius também estaria assim se ela não houvesse matado Boo Boo!
- Parece que o seu espírito dos infernos não vai poder te ajudar! – Diz Annelise, em tom provocante. – Que pena de você, irmã...
Ashley ergue a cabeça.
- Você está enganada, Annelise. – Diz ela, também segurando um pequeno espelho com moldura de gato. – Venha, Lucius...
Uma névoa escura começou a botar, nascendo do espelho e se transformando no esboço de uma forma humana. Era um rapaz de rosto fino e cabelo muito vermelho, vestido de preto da cabeça aos pés.
Porém parecia uma imagem de um projetor com defeito. A figura de Lucius oscilava e era quase transparente, como a chama de uma vela que estava prestes a se extinguir.
- Ah, a forma física... – Sussurrou o espírito. – Depois de tanto tempo em um cachorro e um ataque mal sucedido a um jovem casal, como desejo uma forma física...
A imagem se transformou em uma névoa novamente, que se arrastou até envolver o Sr. Kinselle.
- Ashley, o que está acontecendo? O que o seu espírito está fazendo?
- Você foi tão bom pra mim, papai. – Diz Ashley, sem se mover. – Mas agora preciso sacrificá-lo por Lucius. É necessário.
O rosto do Sr. Kinselle era uma máscara de pavor.
- Eu salvei você! – Gritava ele. – Eu salvei você da bruxa que era sua mãe!
Annelise arfou ao escutar aquilo.
- Christopher, foi ele! – Sussurrou ela. – Foi ele que condenou a minha mãe!
O homem gritava e se retorcia, mas a névoa o envolvia cada vez mais. E quando ele se ergueu, não era mais o Sr. Kinselle, era Lucius, com sua pele pálida como cera, observando-nos com os olhos vermelhos.
- Lucius! – Gritou Ashley, correndo para ele.
O espírito a envolveu com um dos braços e encostou os lábios nos dela.
Aproveitei o instante de distração do casal infernal e encarei Brendon.
- Acha que pode detê-los?
Ele continuava olhando-os, segurando firme a espada de ouro, e respondeu sem me encarar.
- Não sei. Ele possuiu um humano. Está muito forte. – Depois se voltou para Annelise com um olhar de devoção. – Mas farei de tudo pela minha senhora.
Annelise deu um pequeno sorriso e pousou a mão delicadamente na plumagem de uma das asas dele.
- Eu acredito em você, Brendon.
Ela falou isso em um tom tão doce que eu quase senti ciúmes. Quase.
Lucius se aproximou de nós, com um sorriso, ainda abraçado com Ashley.
- Annelise! – Exclamou ele. – Angelique e eu estamos tão felizes em vê-la. Você sabe que eu a amo também, não sabe?
- Não acredite nele. – Advertiu Brendon.
- Sei que ele é um mentiroso sujo. – Cospe Annelise – E nunca vai me controlar como ele faz com a sirigaita.
- Você não está em posição de nos insultar, querida. – Diz Ashley.
- E você – Diz Lucius, encarando Brendon. – Não deveria se meter.
Brendon suspirou, parecendo não querer perder a calma.
- Eu amo Annelise. Assim como eu amava Diana. Vou cuidar dela e protegê-la do mau, diferente de você.
- Diana? Eu amava Diana! – Grita Lucius, perdendo toda a calma. – Eu a amava, mas ela não existe mais nesse mundo. Tenho Angelique, e terei Annelise também.
- Vamos lutar outra vez. – Declara Brendon, erguendo a espada. – E dessa vez será para eliminá-lo completamente!
Os dois espíritos, então, se transformaram em duas névoas onde parecia correr pura energia. As duas névoas distintas se chocavam e tentavam envolver uma a outra, porém sem nunca se misturar.
Ashley encarou Annelise. Heath estava ao lado dela.
- Por que, Heath? – Perguntou Annelise. – O que eu lhe fiz?
Ele baixou os olhos.
- Angelique também é minha prima. Também é uma bruxa. E ela me prometeu grandes coisas. Ela não tem medo de usar os poderes, Annelise.
Annelise revirou os olhos.
- Você é tão babaca. – Diz ela. – Não vê que ela só quer usar você, Heath? Não importa se a chama de Ashley Kinselle ou Angelique Campbell: ela é uma vadia!
Ashley faz uma careta.
- Hey! Por que não falamos de você, irmãzinha? Como pode roubar meus papéis nas peças da escola? E depois roubar Christopher de mim!
- Meu Deus, de novo essa história! – Exclama Annelise.
- E eu nunca fui seu! – Grito, sem acreditar que estávamos tendo aquele tipo de discussão enquanto dois espíritos se retorciam e soltavam faíscas elétricas acima de nossas cabeças.
- Não importa, agora! – Berra Ashley. – Teve sua chance, Christopher. E você, Annelise Campbell, terá que me matar, ou não sairá viva.
Annelise fez uma careta de sarcasmo e ergueu a sobrancelha. Ela ia dizer alguma coisa, mas então a coisa mais absurda do mundo aconteceu.
Uma espécie de força invisível a lançou para trás com força.
- Annelise! – Gritei.
Consegui segurá-la e puxá-la pelo braço antes que ela caísse no cânion, mas foi por pouco.
Ashley nos encarava com os olhos de serpente, mantendo as mãos estendidas na frente do corpo. Foi ela quem empurrou Annelise.
- Ora, sua vaquinha! – Grita Annelise.
Ela puxão ar, com raiva, e faz um gesto violento com os braços na direção de Ashley, que é arremessada para trás com um grito.
Annelise olha para as próprias mãos, surpresa.
- Uau! – Exclama.
Heath vem na direção dela, mas eu salto sobre ele, sem parar para pensar no quanto isso era loucura, e uso toda a minha força.
Estranho como as brigas de filmes parecem fáceis.
Na vida real, a coisa é bem diferente.
Heath era bem forte, e ele me deu um soco no estômago que me tirou todo o ar. Depois ele me atirou no chão, e eu senti gosto de terra.
Mas saber que Annelise corria perigo me deu forças para levantar, se bem que com bastante dificuldade. Heath me segurou pelo pescoço e eu tive que morder o braço dele com força para não ser estrangulado.
Ele gritou de dor e me largou.
Me levantei, cambaleando um pouco, e consegui dar uma rasteira nele. Ele podia ser mais forte, mas eu era mais rápido.
Rolamos várias vezes na terra, eu levei muitos chutes, mas acertei o nariz dele também.
Esse foi um golpe de sorte, já que, com o nariz quebrado, ele não estava mais em condições de brigar, ou ia morrer por perder tanto sangue. Assim, ele fugiu pela floresta.
Nem tive tempo de ficar orgulhoso pela vitória da minha primeira briga desde a terceira série, por que fiquei boquiaberto ao olhar para a briga dos dois espíritos.
Os lampejos de névoa dourada, que representava Brendon, estavam muito enfraquecidos. Mas os lampejos vermelhos da névoa negra estavam cada vez mais intensos.
Annelise ainda “brincava de empurra-empurra” com Ashley, quando eu vi o espelhinho de Ashley, o espelho com moldura de gato que era um portal para que ela evocasse Lucius, cair no chão, sem que ela percebesse.
Uma lâmpada se acendeu em minha cabeça.
Corri para o espelho. Peguei uma pedra pequena, mas bem pesada, e me preparei.
Ashley se voltou de repente, percebendo o que ia fazer.
- Não! – Gritou ela.
Tarde demais, loirinha.
Joguei a pedra com força, acertando o espelho e quebrando-o em pedaços. A única coisa que restou, bem no meio dos caquinhos, foi um minúsculo ímã, o ímã que ficava na parte de trás do espelho e que até o momento eu não havia entendido a utilidade.
Olhei para cima.
A briga dos espíritos havia terminado. Brendon já havia voltado a sua forma humana, e observava Lucius, ainda em névoa, se transformar em uma espécie de redemoinho, que, soltando faíscas, foi completamente sugado pelo ímã.
 Ashley gritava, cortando os dedos em uma tentativa inútil de juntar os caquinhos do espelho.
- Não! Lucius! – Berrava sem parar.
Annelise se aproximou dela, pousando a mão na cintura.
- E então, Angelique Campbell? – Diz ela, com uma sobrancelha erguida. – Como é que vai ser?
- Vou trazer Lucius de volta!
- Tem certeza? – Indago. – Acho que cola quente não vai resolver isso.
Ela me ignora e se levanta, encarando Annelise.
- Eu odeio você! E vou me vingar!
Annelise bocejou antes de falar.
- Sabe, irmã, Diana cometeu um erro ao deixar você a mercê de um espírito maligno. Mas foi uma escolha sua atender aos caprichos de Lucius. Ele já me procurou, também, mas eu sempre o ignorei. Você poderia resistir e recomeçar, se quiser.
Ashley dá uma gargalhada esganiçada.
- Desistir? Nunca! Lucius me ofereceu o poder infinito. E é a ele que eu vou seguir. Vou dar um jeito de trazê-lo de volta. – Ela me encara. - E você também será meu, Christopher Harris!
Reviro os olhos.
- Pela milésima vez, garota: EU NÃO GOSTO DE VOCÊ!!!
Ashley me encarou, revoltada.
Annelise não conseguiu evitar um sorriso.
- Essa é sua palavra final, maninha?
- Serei fiel a Lucius para sempre!
Annelise suspirou.
- Tá ok. Você não me deixa outra escolha.
Annelise empurrou Ashley com força, usando os braços, mesmo, e não os poderes de bruxa.
- Você é uma idiota, garota! – Berrou Ashley.
Ela deu outro empurrão.
- O que você está fazendo, sua maluca? – Voltou a gritar Ashley, que a cada empurrão ia mais para trás, chegando perto de cair.
- Fazendo o que deveria ter sido feito há 17 anos.
Agora Ashley estava a poucos centímetros do abismo.
Ela ajeitou o cabelo loiro com ar arrogante.
- Você não teria coragem...
Annelise encarou Ashley com a cabeça caída para a direita, mas eu só podia vê-la de costas.
- Tá brincando? Estou realizando meu sonho! Bye, bye, loira!
E, com um último empurrão, Annelise jogou Ashley Kinselle (ou Angelique Campbell) abismo abaixo. Tudo o que restou foi um grito prolongado, ecoando através das montanhas.

***
- Brendon! – Exclamou Annelise.
O espírito fez um sinal negativo com a cabeça.
- Isso foi muito errado, Annelise. Talvez não fosse necessário...
Annelise riu, em tom de deboche.
- Ora, foi muito necessário!
O sorriso dela se apagou quando olhou pra mim. Eu deveria estar branco como papel.
- Christopher?
Ela se aproximou devagar e colocou a mão no meu rosto.
- Nossa... – Sussurrou ela. – Depois de tudo o que você fez por mim e das coisas que disse... Deve estar decepcionado. Me desculpe. Pode ir. Prometo que não vou procurar você ou te incomodar de novo.
Sacudi a cabeça.
- O que? Aquilo foi incrível! Sádico, mas incrível!
A ergui no colo e a girei.
- Nós conseguimos! – Gritei.
Ela riu e me abraçou, com as mãos pousadas na minha nuca.
- Conseguimos mesmo. Mas agora tenho que ir pra minha casa, pegar as minhas coisas e nunca mais olhar pro maluco do Henry.
- E pra onde você vai?
- Eu não sei... Talvez eu vá morar na caverna junto com a cigana.
Fomos andando, voltando a adentrar a floresta. E quando olhamos para trás, procurando ver Brendon, a única coisa que avistamos foi um gato preto, nos examinando de longe.

***
Não havia nenhum carro parado em frente a casa de Annelise, nem nenhum sinal de que havia alguém por ali.
Abrimos a porta devagar e olhamos ao redor.
A casa estava organizada e em silêncio total.
Senti Annelise prender a respiração.
- Deus... Christopher! - Sussurrou. – Ela está aqui!
Subimos as escadas devagar, e entramos no quarto das tapeçarias vermelhas.
E lá estava ela.
Sentada na frente do espelho, com o gato preto no colo, os cabelos escuros e longos, olhos verdes, e uma postura orgulhosa que compensava a baixa estatura.
Ela era assustadoramente parecida com Annelise.
Diana Campbell sorriu ao nos ver.
- Vocês fizeram um ótimo trabalho. – Foram as primeiras palavras dela. – Annelise, você é a bruxa que eu sabia que um dia iria se tornar. Estou orgulhosa.
Como nem Annelise nem eu conseguíamos pronunciar uma única palavra, Diana continuou.
- Por todos esses anos, meu espírito vagou entre a vida e a morte. E eu fiz de tudo para proteger você.
Não consegui me conter.
- Naquela noite... Na minha casa... Era você, e não Annelise!
Ela desviou o olhar pra mim.
- Está certo, garoto. Alguém precisava destruir a forma física de Lucius. Tive que matar o cão.
Annelise estava muda.
Ela deu um passo à frente, hesitante, e segurou uma mecha do cabelo de Diana entre os dedos.
- Como... Como isso pode ter acontecido?
Ela sorriu.
- Não sei. Há certas coisas na bruxaria... Muito além da nossa compreensão. Hoje, quando vocês baniram Lucius desse mundo... Aconteceu. Eu estava aqui.
Annelise olhou em volta.
- E... Onde está ele?
- Henry Campbell teve uma parada cardíaca ontem à noite e não resistiu. Sinto muito.
Annelise não pareceu se abalar.
- Pois eu não.
Ela se sentou no sofá, diante de Diana.
Saí de fininho e fui andando pra casa. Elas com certeza tinham muito pra conversar, e eu não ia querer atrapalhar.
Mas meu coração estava tão leve que eu tive vontade de cantar.
***
Faz mais de dois meses que tudo isso aconteceu.
Agora Annelise e eu estamos namorando, e as coisas estão muito bem em Fatalville.
Nós dois fizemos alguns amigos na escola.
Mas ainda preferimos as tardes em que ficamos apenas a gente na praia deserta, rolando juntos na areia ou caminhando de mãos dadas na beira do mar, sendo observados por um gato preto, que vez ou outra pisca um olho de forma cúmplice quando falamos com ele.
Todo mundo da cidade acha que o Sr. Kinselle e Ashley se mudaram, pois é o que diz a Sra. Kinselle, que está morando sozinha e abriu uma loja de sapatos.
April ainda vem me visitar sempre que pode, e ela e Annelise se dão bem.
Como eu disse, está tudo nos eixos.
Eu não me sinto o mesmo cara reclamão de dois meses atrás. Fatalville pode não ser perfeita, mas se tornou minha casa, no fim. Parece que meus pais venceram.
Às vezes sinto falta das competições de natação, dos shoppings grandes, das festas em boates... Mas nessa horas, Annelise me olha com aqueles olhos verdes e cheios de mistérios.
E eu chego a conclusão de que não trocaria essa magia, mesmo que imprevisível, por nada nesse mundo.

4 comentários:

  1. Ahhhh akaboou ki pena vou sentiir falta
    :( mas foi muito muito bon valeu a penaa!! Tô anciosa pela 2° temporada de "O diárioo de uma bad girl" [bjinhos Giovanna Parabéns pelas histórias =D

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  2. AH MARAVILHA ADOREI. ACHO QUE DEVIAS FAZER LIVROS !

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  3. Best best best best best!!!!!! Amei demais!!!!!
    Ai, queria que continuasse!

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  4. nossaaaa ! que perfeito!!!!!!!

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