sexta-feira, 8 de julho de 2011

DIÁRIO DE UMA BAD GIRL (2ª TEMPORADA) - 8


Sexta-feira, 08 de Julho de 2011

Querido Diário Macabro,
Ontem nós fomos atrás do tal “cálice de ouro” para que Scorpion nos arranjasse o antídoto para a transformação dos Filhos da Lua.
Aqueles 45 minutos dentro do carro foram os mais insuportáveis que eu já tive que aguentar.
Sabe aquele silêncio chato de constrangimento?
Pois é.
Ross estava bolado comigo.
Com certeza ele se sentia traído. Eu dei uma mancada muito feia, mas o que eu podia fazer? Mandar um torpedo logo cedo, tipo assim:

Oi, amore... Sei do nosso trato, + vou matar a dona d 1 loja de sapatos hj... T vjo dpois. Bjão.

Não dá! Francamente!
Então aqueles 45 minutos foram assim: Ross não tirava os olhos da estrada, e eu fiquei encolhida no banco, com medo de me virar para olhá-lo.
Às vezes eu via André pelo espelho do retrovisor, e ele exibia um sorrisinho sarcástico, que me fazia revirar os olhos.
O único que falou durante todo o trajeto foi ele, que passava as coordenadas para Ross.
Tivemos que praticamente subir a montanha que fazia fronteira com a cidade vizinha para chegar ao lugar indicado por André. Ainda bem que o jipe do Ross deu conta do recado.
Ross estacionou o jipe entre algumas árvores, de forma que ficasse quase imperceptível para as pessoas que passassem por aquela estrada.
Saltamos do carro e depois de caminhar por alguns metros, avistamos uma pequena vila.
Eu nunca tinha ouvido falar daquele lugar, nem dessa tal de Santa Inquisição.
- Entrem na Vila naturalmente – recomendou André. – E cumprimentem com um aceno as pessoas que passarem por vocês. O tal cálice está dentro da igreja.
Assenti, tentando fazer minhas mãos pararem de tremer. Nessas horas, normalmente, Ross segurava minha mão e dizia no meu ouvido que tudo daria certo, por que estávamos juntos.
Mas dessa vez tive que me contentar com essa lembrança feliz.
- Vou para o outro lado – diz André, acenando como numa espécie de despedida. – Não esperem por mim.
Depois que ele se afasta, me viro para Ross.
- Ross, eu... – Começo.
- Agora não é hora, Stacy. – Diz ele. – Temos algo importante pra fazer. E estamos juntos.
Fico sem saber o que dizer, enquanto ele segura as minhas mãos trêmulas.
Ok.
Minhas mãos pararam de tremer.
Achei que estava pronta para encarar o que quer que fosse.
Mas nada podia me preparar para a armadilha de Scorpion.
***
Ross e eu entramos na Vila abraçados, tentando agir como dois jovens namorados comuns.
Mas logo ficou claro que seria mais fácil nos misturarmos se ficássemos sérios e calados.
A Vila Santa, como se lia em uma placa logo na entrada, era um lugar maldito, isso sim.
Passavam por nós velhas embrulhadas em seus mantos pretos e homens pálidos com o olhar tão vago que pareciam dementes.
Todos tinha apenas uma coisa em comum: faziam um gesto com a cabeça ao passar por nós, e nós respondíamos.
Era quase um código entre as pessoas, e não um simples cumprimento.
Me senti em um triste vilarejo medieval.
As ruas de pedra eram desertas e silenciosas, e as poucas lojas tinham as vitrines tão sujas que não se podia enxergar nada lá dentro.
Senti meu nariz coçar um pouco, incomodado.
Olhei para cima e vi várias correntes de alho pendurados nas sacadas das casas.
Cutuquei Ross e ele ficou tão espantado quanto eu.
- Eles sabem – sussurrou ele no meu ouvido, enquanto nos afastávamos discretamente da calçada e íamos mais para o meio da rua. – É melhor tirarmos você daqui.
- Não! – Respondo, embora nauseada e meio tonta por causa do cheiro do alho. – Temos que ir em frente, agora que estamos aqui. Eles não vão descobrir sobre mim se continuarmos a agir normalmente.
Seguimos para uma praça central, diante da igreja que era, de longe, a maior construção da Vila.
O vento soprou em nossa direção e eu respirei fundo, ávida por acabar com o mal estar que o odor intenso do alho havia me causado.
Mas captei outra coisa.
Era um cheiro... Estranho. De alguma coisa queimada...
- Está sentindo esse cheiro? – Sussurrei para Ross.
Ele aspirou o ar.
- Senti um cheiro de queimado. Mas só quando o vento soprou. E bem fraco.
Mas eu podia senti-lo nitidamente, e bem forte.
Quando chegamos bem perto da porta da igreja, estaquei.
- O que foi? – Perguntou Ross, olhando em volta.
Mas não havia ninguém a vista.
- Estou com um mau pressentimento. – Digo. – E não sei se vou conseguir, entrar. Sabe... Esse lugar sagrado, cheio de cruzes... Acho que é uma barreira pra mim.
Ross me olhou.
- Stacy, você não tem nada a temer. – Diz ele. – São apenas... Crenças. Se a igreja é realmente a casa de Deus, e aberta para todos, você acha mesmo que, por ser vampira, você não pode entrar?
Recuo um passo.
- Acho que não, Ross. – O encaro. – Eu sou uma assassina agora.
As palavras morreram na minha boca.
- Você, Stacy Ricce – diz Ross, erguendo uma sobrancelha. – É a melhor amiga que Selena e outros poderiam ter.
Dou um passo para frente, e, prendendo a respiração, entrei na igreja ao lado de Ross.
E então... Nada. Normal.
- Está tudo bem? – Sussurra Ross.
Confirmo com a cabeça.
- Tudo beleza.
Ele dá um meio sorriso.
- Vá treinando para o dia do nosso casamento.
Dou um sorriso nervoso.
- Se o nosso casamento for na Vila Santa, Ross Christie, juro que te abandono no altar.
- Só se conseguir me fazer voltar a por os pés nesse lugar. – Responde ele.
Quando chegamos até o altar, Ross se ajoelhou e começou a fingir que estava rezando.
Fiz o mesmo.
Olhamos em volta.
A igreja estava completamente deserta.
Reparei nos detalhes.
Eu não costumava ir muito às igrejas, mas sabia que, geralmente, havia muitas flores, pinturas e imagens lindas de santos e anjos.
Mas essa era diferente.
Não havia flores, apenas velas.
Os vitrais tinham desenhos medonhos, de demônios devorando crianças.
Ao invés de imagens de santos, haviam estatuetas de gárgulas ao redor do altar, e nas pinturas nas paredes e no teto não haviam anjos, e sim cenas de prisioneiros sendo chicoteados e torturados. Alguns desses infelizes tinham o coração arrancado.
Era um horror.
Mas então Ross e eu avistamos o que procurávamos: o cálice. Nos aproximamos, sempre olhando em volta, da bancada no centro do altar onde ele estava pousado.
Ross abriu a mochila, mas se interrompeu quando notou que o cálice não estava vazio.
Me aproximei e cheirei o líquido vermelho.
- Sangue de galinha. – Digo.
- Ótimo! – Resmunga Ross. – Onde vamos jogar isso?
- Ah! Deixa comigo.
Digo, pegando o pesado cálice de ouro e virando o sangue fresco goela abaixo.
- Uau. – Diz Ross, quando lhe entrego o cálice. – Nada mal. Na verdade, foi bem prático.
Lhe dou uma piscadela.
De repente o sino da igreja toca, e nós dois demos um pulo. Acho até que eu gritei, mas não sei ao certo, por que cada badalada era tão insuportavelmente alta que o chão parecia tremer.
Corremos para a porta da igreja, mas avistamos, ao longe, uma pequena multidão que avançava rapidamente na direção da igreja.
Senti meu coração na garganta. E agora?
- Vem! – Grita Ross, me puxando para trás de um dos bancos, onde nos encolhemos e ficamos em silêncio.
Mas as pessoas passaram direto por nós e pareciam não notar o sumiço do cálice.
Todas elas se dirigiam por uma passagem lateral, que Ross e eu não havíamos notado. Era uma espécie de saída dos fundos.
Nos levantamos devagar, só que não podíamos sair pela mesma porta por qual entramos: três padres bloqueavam a saída.
Os três conversavam baixo, envolvidos em suas batinas negras, e seria arriscado demais passarmos por eles.
Assim, nos juntamos ao resto da multidão, e saímos para uma espécie de pátio.
O cheiro de queimado voltou com força, e eu quase não acreditei na cena horrenda que estava ali, bem diante de nós.
Eu podia ver, acorrentada a um poste, uma jovem, com a cabeça caída pra frente. Onde antes estava seu coração era agora um buraco com sangue seco no peito.
Perto dela havia uma espécie de vaso ornamental, de onde subia uma fumaça escura...
- Meu Deus – sussurrei para Ross. – Eles arrancaram o coração dela e queimaram!
Ele estava tão pálido e trêmulo quanto eu.
- Precisamos sair daqui. – Sussurrou ele.
Mas a multidão não deixava.
As pessoas se amontoavam ao nosso redor e nos empurravam para o lado contrário.
Olhei para a mesma direção das outras pessoas, tentando entender o que elas aguardavam.
Foi então que eu a vi.
Era alta e magra, e não aparentava mais de vinte e poucos anos. O cabelo era vermelho escuro, e a pele bronzeada. Os olhos verdes eu já conhecia.
Elizzy Adornetto era puxada por dois homens, e tinha os pulsos amarrados.
Ela olhou desafiadoramente para a multidão.
Um dos padres passou por nós, na direção de uma espécie de altar de pedra onde Elizzy subiu, para que todos pudessem vê-la.
- Vão matá-la. – Sussurrou Ross.
Elizzy nos tinha causado muitos problemas. E torturado Ross de maneira cruel. Mas eu podia ver, nos olhos dele, que se não tivéssemos outra missão ali hoje, e se não fosse tão arriscado, ele tentaria salvá-la.
Mas é óbvio que Ross jamais admitiria isso.
O padre, um homem moreno e já bem velho e curvado, começou a falar.
- Essa mulher, que está diante de vocês, é a mais fiel representação do mal! – Começou ele, em um tom eloquente que fez toda a platéia se calar e prestar atenção. – Vejam como é bela. Tão bela que seus corações desejam que ela sobreviva ao nosso julgamento, tão bela que vocês não querem acreditar que ela represente algum perigo. Enganados estão, porém. Isso diante de vocês não é uma mulher! É uma criatura do demônio. Ao anoitecer ela devora seus filhos, ela os mata em busca de sangue! Está aqui, diante de vocês, a vampira, o ser sombrio que muitos dos nossos já matou, em busca de sangue para sua sede de maldade!
A platéia toda emitiu exclamações de surpresa.
- Diga a eles! – Ordenou o padre, dirigindo-se a Elizzy.
Ela encarou a platéia com aquele olhar insolente que era muito “André”.
- Sim. – Diz ela. – Eu secaria seus corações agora mesmo, se pudesse. Fincaria meus dentes em seus corações medíocres e sugaria a alma de todos vocês até a última gota. E depois cuspiria em seus corpos miseráveis, pois enquanto vocês apodrecem na terra, eu serei eternamente linda e poderosa, graças à morte horrenda e dolorosa de todos!
Até o padre ficou surpreso pela ousadia dela.
Todos esperavam que ela negasse ser uma vampira, que ficasse de joelhos e implorasse por misericórdia.
- Eu, diante do poder concedido a mim por Deus – diz o padre, erguendo os braços. – A declaro culpada e condenada à morte na fogueira!
Foi então que um dos homens encapuzados pulou para cima do altar e desamarrou os pulsos da vampira.
Elizzy deu um sorriso de canto.
O homem ergueu o capuz, revelando o rosto de André.
- Hoje não, padre! – Disse ele, em tom satisfeito. – Mas não se preocupe. Nós, vampiros, voltaremos. E ainda secaremos cada coração presente!
Os dois saltaram do altar e correram para o bosque, e uma dúzia de homens, inclusive o padre, foram atrás deles. Mas jamais os alcançariam.
A multidão gritava, enfurecida, enquanto Ross e eu tentávamos abrir caminho para escaparmos dali, eu satisfeita por André ter conseguido cumprir sua missão.
Mas, quando me virei, dei de cara com o outro padre.
A expressão dele ao me encarar era de grande surpresa, e por um momento tive medo dele ter percebido o que eu era.
Mas não era isso.
Era muito, muito pior.
- Não pode ser – sussurrou Ross, olhando para algo mais adiante.
Acompanhei o olhar dele.
Quando entramos no pátio não havíamos notado um enorme vitral bem atrás de nós.
Esse era diferente de qualquer um dos outros vitrais da igreja macabra.
Era o retrato de uma jovem.
E bem... Era eu.
Não “eu”.
Mas era eu.
Eu nunca tinha usado um vestido violeta como aquele, e também jamais um penteado elaborado daquele jeito. E a garota do retrato tinha os cabelos meio alaranjados... Mas aquele era o meu rosto.
Os meus olhos, nariz, boca...
Não era um retrato meu.
Mas de alguém quase idêntica a mim.
Li a placa de bronze abaixo do vitral:

Princesa Lelystra (1807 – 1824)
Aguardamos vosso retorno, princesa, para o início de uma nova era.

Não.
Não, não, não!
- Scorpion – sussurro de repente. – É uma armadilha, Ross!
Ross apertou minha mão.
Mas nesse mesmo minuto o padre gritou, e todos puderam ouvir:
- A princesa! Voltou para nós!
Aproveitei o instante de confusão da multidão e corri, segurando a mão de Ross, empurrando todos que estavam no meu caminho.
Quase tropecei, mas Ross me segurou e começou a me guiar para longe, na direção dos portões da cidade.
- Peguem o rapaz! – Gritou alguém. – Ele vai capturar a princesa!
Estávamos quase chegando aos portões quando a multidão nos alcançou.
Ross me jogou a mochila e eu a agarrei, com as mãos tremendo.
- O que vamos fazer?
Ele estava ofegante.
A multidão se aproximava mais e mais...
- Corre, Stacy. – Pediu ele. – Eu sei que você pode correr muito. Está forte. Fuja!
- Não posso deixar você! – Grito.
- Selena e os outros precisam de você! – Berrou ele. – Vá salvá-los. Eu posso me virar!
- Não vou! – Teimo.
Ross me segura pelos ombros.
- Stacy, me escute: se eu for com você, vou atrasá-la e eles vão nos pegar. Você é uma vampira. Pode correr muito depressa e salvar a Selly. Eu me viro.
O beijei com desespero, mas ele me empurrou e eu corri, agarrada à mochila, com lágrimas borrando minha visão.
Não olhei pra trás.
Se eu olhasse, não conseguiria prosseguir.

CONTINUA

2 comentários: