sábado, 9 de julho de 2011

DIÁRIO DE UMA BAD GIRL (2ª TEMPORADA) - 9


Ainda sexta-feira, 08 de Julho de 2011

Querido Diário Macabro,
Novamente, andaram acontecendo tantas coisas que eu mal tenho tempo de relatar.
Bom...
Vou contar tudo e aproveitar para me... Despedir.
Quando consegui escapar da Vila Santa meu corpo todo tremia e meu coração estava em pedaços: Por que Ross estava nas mãos daqueles loucos e eu não podia voltar para salvá-lo.
Estava tão nervosa que demorei um século para achar o jipe escondido no meio das árvores.
Assim que peguei o volante e liguei o carro percebi que as minhas mãos tremiam tanto que no meio do caminho tive que parar várias vezes para não bater em alguma árvore ou sair da estrada.
Sem contar que me perdi milhares de vezes até achar o caminho certo para a casa da Gang das Feras.
Aimeudeus! Como eu sou idiota!
Deveria ter prestado mais atenção no caminho, quando fomos para a Vila. Mas quanto ao meu desespero, não posso fazer nada: Enquanto Ross estiver em perigo, não vou conseguir respirar de novo.
Cheguei à grande casa de madeira da Gang das Feras, soluçando e chorando lágrimas de sangue (literalmente), e Scorpion não estava lá.
Entrei e me joguei nos braços de Selly, que estava quase tão desamparada quanto eu.
E enquanto a pessoa que eu mais amo nesse mundo estava como prisioneira de uma Vila de malucos, só me restava esperar pelo meu inimigo, para não perder também minha melhor amiga.

***
Quando o relógio da sala bateu onze e cinqüenta e sete, Selly se jogou no chão, gritando de dor.
Eu estava mais do que desesperada, com o maldito cálice na mão, mas nem sinal de Scorpion.
Os outros lobos também urravam e se contorciam, e eu quase cai pra trás, quando Scorpion entrou na sala com mais meia dúzia de capangas.
- Está atrasado, seu grande otário! – Gritei, desesperada.
Ele não se abalou.
- O cálice primeiro.
Joguei o cálice para ele e ele fez um sinal para os caras que o seguiam, que prepararam um líquido azulado em seringas.
Fui para o lado de Selly e parei, completamente horrorizada.
Seus olhos já não eram humanos, eram os olhos vazios de uma besta, seu maxilar crescia e dentes enormes apareciam, e eu tive a impressão de que poderia rasgar a sua boca pequena e redonda, da qual ela se orgulhava tanto.
Ela se curvou, urrando, e eu vi os ossos da sua coluna se moverem. Não, mover não explica aquilo... Os ossos cresciam e se ajustavam para se tornar uma coluna de um quadrúpede, forçando a costura da delicada blusinha de cetim...
- Por favor! – Implorei, sem conseguir olhar mais. – Faça isso parar!
Scorpion deu um suspiro entediado e fez outro sinal para os capangas, fazendo com que cada um se dirigisse para um dos lobos e aplicasse a injeção.
Segurei a mão (que já era quase uma garra) de Selly enquanto um dos caras de Scorpion injetava o líquido azul no braço dela.
Primeiro, ela parou de gritar e tremer.
Depois, lentamente, foi voltando a ser a Selena que eu sempre conheci.
 Olhei em volta.
Os outros lobos pareciam igualmente bem e aliviados.
Respirei fundo.
Essa foi por pouco.
John foi o primeiro a se levantar. Em silêncio, ele foi até Selly e a ajudou a se erguer. Depois encarou Scorpion.
- Por que fez isso? – Indagou, num desprezo seco.
Scorpion deu de ombros, examinando o cálice de ouro.
- Diversão. – respondeu ele.
Logan se levantou em um pulo, com os punhos cerrados.
Drake fez o mesmo movimento, e Mia colou em Logan.
- É mesmo? – Indaga Logan. – Talvez seja a nossa vez de brincar!
Num acordo múltiplo, os Filhos da Lua se transformaram e atacaram os capangas que lhes haviam dado o antídoto, e esses não tiveram tempo de reagir.
Entendi o plano.
Scorpion tentou correr, mas saltei sobre ele no jardim, com os caninos já a mostra.
- Game over – Digo, imobilizando-o no chão. – Você morre agora, James Scorpion!
Ele riu.
- É mesmo? Tem certeza de que não quer saber como salvar Ross? É, Stacy. Eu sei. Ele deve estar sendo torturado agora mesmo pela Santa Inquisição.
Hesito, e isso bastou para que ele conseguisse alcançar alguma coisa no bolso do casaco.
Recuo quando o cheiro nauseante e insuportavelmente forte do alho invade minhas narinas.
- Vampiros – diz Scorpion, levantando-se. – Sempre esquecem que têm suas fraquezas, por isso é fácil matá-los, apesar de serem tão fortes e rápidos.
- Sabe que ainda posso matá-lo. – Respondo. – Mesmo tendo que enfrentar o alho. Afinal, você fede mais.
Ele sorri, sem aceitar a provocação.
- Sei que pode, minha cara. Mas salvar seu namorado não é mais importante?
Semicerro os olhos.
- Sem joguinhos. – Aviso. - O que você sabe?
Scorpion ergueu uma sobrancelha.
- Sei que você é muito parecida com a Princesa Lelystra, a lendária santa por qual esses fanáticos esperam há séculos. Que ironia, não? Uma vampira que é a cara de uma bondosa dama da Santa Inquisição!
- O que mais? – Pressiono.
- Bom, você poderia ir até lá e simplesmente pedir que eles libertassem Ross, mas em troca provavelmente teria que ficar e governar seu povo, princesa.
Analiso divagar a situação.
- Por que eu faria isso, se posso invadir a Vila e salvar Ross?
Ele ri alto.
- Porque, Stacy Ricce? Vamos, seja mais esperta. Onde está a Bad Girl que já escapou das minhas garras mais de uma vez e roubou meu mais leal discípulo? Eles caçam vampiros também, para arrancar o coração e queimar, ou jogar na fogueira, não importa: o fato é que, quando descobrirem que “a princesa foi possuída por um demônio bebedor de sangue” vão exterminar você e Ross Christie. Vão caçá-los até o inferno.
Estremeço.
O maldito tinha razão.
- Ok. – Digo, tentando esconder meu desespero atrás da fúria. – Agora, Scorpion, me dê um bom motivo para não matá-lo.
Ele sorri.
- Olhe para trás.
Obedeço, desconfiada, e vejo um grupo de membros da Liga do Escorpião a poucos metros, armados com estacas e metralhadoras, além de alho saindo dos bolsos.
Scorpion conseguiu me enrolar outra vez.
- Acho que não seria uma boa para você, minha cara. – Diz ele, passando por mim. Depois se virou. – Adeus, Stacy. Ainda vamos nos encontrar de novo.
- Vamos. – Digo, encarando-o. – E quando isso acontecer, vou matá-lo. Juro.
***
Cheguei em casa de madrugada, decidida a fazer uma das coisas mais difíceis que eu poderia imaginar.
Entrei como um furacão.
Meu pai, como eu já sabia, estava me esperando, sentado na sala.
- Onde você estava, Stacy? – Começou ele, no tom preocupado e paciente de quem confia, mas teme.
Bato a porta e o olho com insolência.
- O que foi?  Não tenho mais o direito nem de ir a uma balada agora?
Passo por ele batendo os pés.
- Stacy Jeane Ricce! – Ralha meu pai.
Paro e contenho minha expressão antes de me virar.
Meus pais quase nunca dizem meu nome inteiro.
Quando dizem, sei que eles estão muito, muito, muito zangados e chateados mesmo.
Me viro com a melhor expressão de adolescente rebelde que consigo fazer.
- O que é?
Ele fica em silêncio e uma ruga aparece em sua testa enquanto ele fala:
- Você fez uma coisa muito errada hoje. Não gostaria de me contar?
Dou de ombros.
- Nada a declarar.
- Stacy... Você não apenas bebeu sangue humano. Você matou.
Tento não tremer, mas um bolo se forma na minha garganta e eu não consigo falar.
Vejo a tristeza no olhar do meu pai.
- Encontraram o corpo da Sra. Kinselle sem nenhuma gota de sangue. E como eu rezei, e como eu desejei que você não...
- Droga! – Berro, chutando a mesinha de centro e quebrando o vaso que estava em cima dela. – Inferno, fui eu que matei! Bebi o sangue daquela gorda horrorosa, sim! Por que? Vai me entregar para a polícia?
Meu pai se levanta e segura o meu braço.
- Não vou admitir que fale nesse tom, escutou bem?
Solto meu braço e subo para o quarto, gritando:
- Você não manda mais em mim! Se não quer ser um vampiro de verdade, dane-se! Eu vou viver para sempre, não importa quantos eu tenha que matar!
Ouvi os passos dele atrás de mim.
- Você vai me escutar! Está fora de controle! Que tipo de monstro você se tornou?
- Sou uma vampira! – Grito, batendo a porta do quarto. – E se você escolheu ser uma vampiro fraco e covarde, bebendo sangue de animais, o problema é seu! Não vou pagar pelas suas escolhas erradas!
Abro uma bolsa e começo a recolher meus pertences mais preciosos e algumas peças de roupa. Eu tinha que ser rápida, ou não iria conseguir...
Abro a porta e dou de cara com meu pai bloqueando minha passagem, e minha mãe que havia acordado com a minha gritaria e estava com lágrimas nos olhos.
- Não vou criar monstros sanguessugas nessa casa! – Disse meu pai, em tom ameaçador. – Querendo ou não você pertence a essa família, então vai seguir as regras da casa, por bem ou por mal.
Sorrio.
- Não preciso de vocês, e que bom que tocou no assunto! Estou indo embora.
- O que? – Diz minha mãe. – Como assim? Onde você pensa que vai?
- Você não vai sair dessa casa. – Diz meu pai.
Dou uma gargalhada seca.
- Vou morar com o meu namorado! E sabem de uma coisa? Vou transformá-lo em vampiro, e nós dois vamos matar todas as noites, se quisermos! E muito tempo depois de vocês dois apodrecerem debaixo da terra, nós estaremos juntos, jovens e lindos pra sempre!
Meu pai me empurra para dentro do quarto.
- Acha que vou permitir que faça isso?
Avanço.
- Não, mas não pode me impedir!
Reúno toda a coragem que ainda me resta e empurro meu pai com força, fazendo-o bater as costas na parede com força e cair.
Escuto minha mãe gritar, mas desço as escadas correndo.
Ela vem atrás de mim e segura meu braço.
- Stacy, filha, o que está fazendo? – Pergunta ela, e encarar seus olhos brilhantes de lágrimas terminou de partir meu coração. – Não te reconheço mais. O que está fazendo?
Ah, a vontade louca de desabar chorando nos braços dela e contar tudo... Mas já não posso colocar minha família em risco. Já basta meus amigos correrem perigo por minha causa. Já basta Ross estar preso por minha causa.
Ao invés disso, pisco um olho.
- Sendo uma vampira de verdade, como seu marido nunca teve coragem de ser. – Respondo. – Me largue agora, humana, antes que eu seque sua garganta.
Me viro e entro no jipe, ligando o motor e jogando a bolsa no banco do passageiro enquanto acelero, vendo pelo retrovisor a casa onde eu nasci desaparecer ao virar uma curva.
***
Pois é, diário.
Não posso reclamar da minha vida, e sim agradecer por ter tido força para enfrentar tanta coisa até agora. E ainda pedir um pouco mais para terminar minha missão.
Estou escrevendo isso agora, enquanto o sol nasce, em frente à casa da Selly.
Estou me preparando para seguir meu caminho e salvar Ross, mas para isso vou ter que deixar tudo o que eu conheço pra trás.
Como já disse, não posso reclamar.
É o mínimo que eu posso fazer.
Deixar minha família e meus amigos é mil vezes melhor do que vê-los morrer e se sacrificar por minha causa. Afinal (não posso deixar de pensar nisso) eles iriam ficar bem melhores se eu nem tivesse nascido...
Estou cheia de meter todo mundo em perigo.
Talvez, quem sabe, meu destino não seja mesmo como a princesa prisioneira de um grupo de lunáticos?
Afinal, que chance há de a Noiva do Demônio se formar na Universidade de Fatalville, virar uma advogada ou médica, casar, ter filhos e tudo mais?
Qual é!
A manhã já está clareando.
Agora vou tocar a campanhinha e entregar você, diário, para Selly. Será a melhor forma de me despedir dela.
Quanto a você... Valeu.
Valeu mesmo.
Obrigada por agüentar minhas loucuras por tanto tempo, e me desculpe pelas lágrimas que estou derramando nas suas páginas. Odeio quando isso acontece.
Não tenho esperanças de vê-lo de novo, mas nunca vou esquecer meu “Querido Diário Macabro”.
Adeus, cara.
Sentirei saudades...

CONTINUA

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