sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 1 - Apenas uma garota

Eu estava tão concentrada em esfregar direitinho o chão da Dona Inácia que nem percebi quando ela se aproximou. Só me dei conta mesmo da presença dela quando quase passei a escova com cera no sapato elegante e bicudo a poucos centímetros de mim.
Levantei os olhos.
Dona Inácia se inclinou e me olhou atentamente através das lentes grossas dos óculos.
Ela era bem rígida com todas as órfãs da Casa de Educação para Moças que administrava.
Principalmente aquelas que, como eu, tinham tutores que pagavam caro para manter o colégio-orfanato, mas não paparicavam Dona Inácia como ela gostava.
- Laura, você anda comendo direito? – Perguntou ela, de repente.
Me ajoelho, parando de esfregar o chão por um instante.
- Sim, senhora.
Respostas curtas e claras. Era o que Dona Inácia gostava.
- Está magra como um palito! – Diz ela, franzindo o nariz fino. – Têm se alimentado direito?
- Se chama biotipo. – Resmungo, voltando a esfregar o chão. – Pode perguntar para a professora de ciência.
Dona Inácia ajeita o óculos no rosto, afetada.
- A senhorita deveria respeitar mais os mais velhos. Ou o seu tutor irá pensar que eu não a eduquei corretamente quando vier visitá-la.
Engulo em seco.
- Ele nunca me visita. Não o conheço.
Dona Inácia suspira, como se uma criança órfã se queixando sobre o sentimento de abandono fosse apenas mais uma petulância, como quando as meninas mais novas cutucavam o nariz.
- Quem sabe se a senhorita se comportar melhor a situação mude? – Indaga ela.
Era sempre assim. Não importava com quanto cuidado fizéssemos nossas tarefas ou quão bem escovássemos nossos dentes. Pra Dona Inácia, tudo de ruim que nos acontecia era consequência de não termos nos esforçado o suficiente para nos comportarmos bem.
- Eu estou me comportando, eu juro. – Digo, encarando-a. – Mas Adelaide está doente e não desceu para ajudar, então eu tive que trabalhar em dobro, por isso estou atrasada.
Dona Inácia me analisou atentamente, e hesitou um pouco antes de abrir a boca.
- É justamente sobre sua colega de quarto que eu vim falar. – Começa ela. – Adelaide não está passando nada bem. Está com dores de estômago, e o médico não sabe dizer o que é. Você sabe de alguma coisa, Laura?
A encaro de volta.
- Não. – Respondo, devagar.
Ela me encara de volta.
Lentamente  ela se agacha, apoiando-se na mesa, para poder me olhar nos olhos e bem perto, sussurrando baixinho:
- Eu sei que você fez alguma coisa, Laura. Não é a primeira vez. E se eu descobrir que você tem alguma coisa a ver com isso, como quando aquela menina caiu na piscina...
- Foi um acidente! – A interrompo. – A psicóloga disse que a culpa não foi minha.
Dona Inácia escuta os passos e as vozes animadas das outras órfãs descendo para o jantar e se ergue lentamente.
- Termine logo e vá se levar para o jantar. – Diz, ríspida, antes de se afastar, o salto quadrado dos sapatos fazendo eco pelo refeitório vazio.
- Sim, senhora.
Mas assim que a vi desaparecer na diretoria, larguei a escova de esfregar e corri o mais rápido possível para o meu dormitório. Passei por um médico no caminho, que provavelmente havia examinado Adelaide.
Entrei no dormitório B, que a essa altura já estava vazio, e fui direto para a cama ao lado da minha.
- Adelaide! – Sussurrei.
Ela estava dormindo, mas abriu os olhos.
O cabelo escuro dela, sempre brilhante e penteado, estava emaranhado, e a pele morena estava pálida.
- O que foi, Laura?
Me abaixei ao lado dela, segurando sua mão.
- Você contou para alguém? Contou o nosso segredo?
Ela suspirou.
- Não, Laura.
- Tem certeza? – Pergunto.
Ela aperta a barriga, com um gemido de dor.
- Tenho. Mas se não me disser o que tinha naquele chá, eu vou contar. Meu estômago está doendo!
- Eu já disse! Era um chá mágico das fadas. Foi feito com uma flor mágica que eu achei no jardim. As fadas me disseram que quem o toma pode ir morar no reino delas e conhecer a rainha dos elfos e não precisa voltar pra cá nunca mais.
Adelaide aperta os olhos, afastando a mão das minhas.
- Então... Porque você não tomou?
Balanço a cabeça.
- Não posso. Se eu for morar com as fadas, quem vai vigiar a bruxa velha da Dona Inácia? Ela quer nos impedir de sermos livres. Não foi ela que tentou evitar que a Maria fosse morar com as sereias?
- Laura – Adelaide ofega, sua testa suada. – A Maria morreu afogada. Ela não foi morar com as sereias, ela morreu!
Suspiro. Pobre Adelaide. Estava delirando.
- Não se preocupe, Adelaide. Eu vou te ajudar a escapar. Por favor, lembre-se de mim quando estiver morando no castelo da rainha dos elfos.
Ela ia falar alguma coisa, mas tampei seu rosto com o travesseiro e apoiei com força.
Ela se debateu e berrou alguma coisa, mas seus braços fracos não podiam me impedir.
Levou uma eternidade, mas ela acabou desistindo.
Levantei o travesseiro e a vi dormindo tranquilamente.
Aproximei meu rosto do dela, e não senti sua respiração.
Ótimo! Eu a havia libertado mais uma amiga de uma vida infeliz e entediante na Casa de Educação para Moças, deixando-a partir para um mundo de aventuras e fantasias.
Sorrindo, fui saltitando para o refeitório, me sentindo mais leve do que nunca ao imaginar Adelaide dançando no meio das fadas.

CONTINUA

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