sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 2 - A hora de partir

Embora o jantar fosse macarrão com molho de salsicha, um dos meus pratos favoritos, minha alegria não durou muito.
Dona Inácia mandou uma das inspetoras me levar até sua sala com urgência, não me dando tempo nem de terminar meu jantar e lavar meu prato.
Parei diante da porta de madeira, suspirando. Eu estava pronta para negar qualquer acusação injusta que a bruxa me lançasse.
- Pode entrar. – Disse a voz seca e ríspida.
Abri metade da porta, e vi Dona Inácia de pé, parada perto da sua escrivaninha, em sua postura inabalável.
- Laura. O seu tutor está aqui.
Meu coração deu um salto. Meu tutor? De verdade?
Termino de abrir a porta, e vejo um homem sentado em uma das cadeiras do escritório da Dona Inácia.
Devia ter uns quarenta anos, o cabelo era grisalho, e eu tinha a impressão de que já o tinha visto antes.
- Oi. – Digo, tímida.
Ele ergue uma sobrancelha.
- Essa é a garota? – Pergunta ele para Dona Inácia, com a voz muito calma. – Deveriam dar mais comida a ela. Está tão magra que poderia ser carregada pelo vento.
- Esse é o meu biotipo. – Respondo. Percebo Dona Inácia me analisando, mas ela não diz nada para me repreender. – Me alimento muito bem.
- Certo. – Ele fala, mas não parece que está realmente me escutando. Apenas continua me observando.
Dona Inácia dá um pigarro.
- Seja educada com o Dr. Rezende, Laura. Ele pretende levá-la com ele esta noite.
Arregalo os olhos, em choque.
Eu já havia me acostumado com a ideia de passar o resto da minha vida na Casa de Educação para Moças, ajudando as outras órfãs a escaparem.
Nunca havia conhecido meu tutor legal, nem sabia o nome dele. O homem se levanta e pergunta para Dona Inácia aonde estavam minhas coisas, e percebo que ele usava um jaleco branco. Um médico.
Dona Inácia pede licença e diz que vai pedir para uma das inspetoras fazer as minhas malas. A porta se fecha, e me vejo a sós com o médico.
Me sento em uma das poltronas, tão altas que meus pés não tocam o chão.
Observo o médico, muito ocupado em fazer anotações em uma caderneta.
- O senhor é o meu pai? – Pergunto, de repente.
Ele ergue os olhos, e quase repito a pergunta, achando que ele não me ouviu.
- Não, não. – Diz ele. – Os seus pais já faleceram há muito tempo, Laura. Em um acidente de carro. Eu sou um parente distante.
Ele dá um meio sorriso, como se achasse graça de alguma coisa.
Mas eu não entendo. Não entendo mesmo.
- Se o senhor é o meu tutor, por que decidiu vir me buscar só agora? – Indago.
Ele me olhou como se não soubesse que eu tinha a capacidade de pensar e fazer uma pergunta coerente.
- Quantos anos você tem? – Pergunta o médico.
- Onze. – Respondo. - Por que você vai me levar daqui? –
- Você faz perguntas demais. – Resmunga ele, voltando a fazer anotações. - Vou levar você embora e ponto final.
Me sento, suspirando.
- Não que eu goste daqui. – Digo, mais pra mim do que para ele. – A diretora é uma bruxa.
- Ela não é uma bruxa. – Diz o médico, de repente. – Você diz isso por que não gosta dela. E ela não enfeitiçou Adelaide. Foi você que colocou um pozinho no chá dela, não colocou? Onde achou aquilo?
O observo com atenção.
Não gosto quando descobrem meus segredos.
- No armário de produtos de limpeza. – Respondo, enfim. – Eu queria saber o que era.
Ele não sorriu dessa vez.
- Ora, acredito que você saiba ler. E mesmo que não saiba, a foto de um rato morto na embalagem seria um indicativo, não é? – Ele fez uma pausa. – Você matou sua colega de quarto. Eu sei. E não adianta mentir para mim.
Dessa vez,  eu sorrio.
- Prove que eu a matei. Como sabe se eu não a libertei?
Nesse instante, Dona Inácia entrou na sala, trazendo uma mala com todas as minhas coisas, que não eram muitas.
Ela se aproximou do médico e os dois trocaram algumas palavras sussurradas. Tive a impressão de escutar as palavras “Adelaide” e “morta”, mas não pude ter certeza.
Dona Inácia me observou com seus olhos de águia, ajeitando os óculos. Então, se aproximou e fez o sinal da cruz sobre o meu peito.
- Que Deus a proteja, criança!
Nem pude me despedir as outras meninas. O médico e eu entramos em uma caminhonete velha e partimos.

CONTINUA

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