domingo, 24 de julho de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 3 - Garota de laboratório

E foi naquela noite que eu deixei a Casa de Educação para Moças onde eu cresci para trás e comecei uma vida nova em uma pequena cidade longe dali.
Meu tutor, o Dr. Rezende, é um homem estranho, em todos os sentidos.
Chegamos à sua velha e enorme casa, que ficava em uma ruazinha quase deserta. Ele estacionou a caminhonete preta e entramos na sala empoeirada.
Espirrei.
- Quanto tempo isso aqui não vê um espanador? – Pergunto.
Ele faz uma careta.
- Acha que eu não tenho coisas mais importantes para fazer do que tirar o pó?
Dou de ombros.
- Ora, achei que os médicos fossem organizados.
- Médicos de verdade são ocupados. E eu sou médico e cientista. Passo o tempo todo no laboratório.
- O que você faz lá? – Indago, curiosa.
- Você faz perguntas demais. - Responde ele, encaminhando-se para a copa.
- Estou com fome. – Digo, sentando no balcão de mármore.
O médico deu de ombros.
- Não vou ter tempo de ficar alimentando você. – Avisa ele. – Pra sua sorte, passei no mercado.
Dizendo isso, ele abriu o armário e me jogou uma caixa de biscoitos.
- Hei! – Exclamo. – Isso é pra cachorro!
Ele coça o queixo, olhando para a caixa.
- Não percebi. Bom, é o que temos por enquanto. – Ele pega uma garrafa e enche uma taça. – Vinho? – Oferece.
Arregalo os olhos.
- Posso beber vinho?
Ele ergue uma sobrancelha.
- Não sou eu quem vai impedir se você quiser beber.
Aceitei, mas cuspi tudo no primeiro gole. Era um horror.
O médico riu.
- Vou lhe preparar uma xícara de chá.
Fiquei andando pela sala e olhando em volta enquanto ele enchia uma caneca com o líquido escuro e esquentava no microondas.
Havia um sofá cheio de almofadas. E uma pilha de revistas velhas na mesinha de centro.
O médico me trouxe o chá e eu bebi. Não parecia chá mate nem nenhum outro chá que eu conhecia, mas não era ruim. Esvaziei a xícara e entreguei para ele, que me observava com atenção.
- Agora, Laura, acho que você está pronta para conhecer o laboratório.
Ele foi andando, e eu o segui por um corredor estreito. O médico tirou um molho de chaves de bolso e destrancou a porta, ascendendo as luzes e revelando um enorme cômodo de paredes brancas.
Ali, tudo era extremamente limpo e organizado, diferente do resto da casa. Boquiaberta, percorri com os olhos as prateleiras e mais prateleiras cheias de potes de vidro, tubos de ensaio e todo tipo de coisa que eu nunca havia visto antes.
Mesas e balcões repletos das mais diversas ferramentas, e sobre uma maca eu via os pés de um corpo inerte coberto por um lençol.
- Fantástico! – Exclamo.
O médico parecia orgulhoso.
- É aqui que eu crio. Experimento.
Ficamos em silêncio por algum tempo, até que eu dissesse:
- Por que me trouxe até aqui, se você não gosta de crianças?
Ele me encarou.
- Ninguém queria você naquele internato. E eu estou precisando de uma ajudante por aqui.
Passei os olhos pelo grande laboratório de novo, e dessa vez um detalhe chamou minha atenção.
- O que é aquilo?
- Aquilo é a fornalha. – Responde ele. – Pode-se elevar tudo a altas temperaturas. E aqui eu tenho tudo para cortar, retalhar e picar qualquer coisa, e também costurar e remendar.
- E aquela porta? Leva para onde?
Nesse minuto ele ficou muito sério.
- Aquele é o meu escritório particular, aonde guardo meus documentos. Se ousar entrar ali, vai se ver comigo.
O laboratório me fascinava.
Foi então que escutamos passos no corredor e uma mulher muito velhinha, curvada e enrugada entrou no laboratório. Usava um vestido preto e longo, como uma viúva de filme antigo, e trazia um corvo empalhado sentado em seu ombro.
Ela pareceu espantada ao me ver.
- Ora, ora, quem é essa pequena dama?
- Laura. – Responde o médico. – A menina da qual eu falei.
- Minha garotinha! – Exclama a velhinha, me puxando e pegando no colo, demonstrando mais força do que aparentava. – Como vai?
- Bem... – Respondo, apesar de não gostar que me segurassem no colo.
- Eu sou a Tia Olga. – Diz ela, me balançando. – Moro no porão.
- Como pode alguém morar em um porão? – Pergunto.
- Ela mora. – Responde o médico. - Sai só algumas vezes. E você não está autorizada a perambular por lá.
Tia Olga me fez apoiar a cabeça no ombro dela e começou a me balançar.
Meu corpo estava pesado de cansaço, e meus olhos começaram a se fechar.
- Ela já mata? Assim tão jovem? – Perguntou Tia Olga, sussurrando.
- Mata. – Foi a resposta também baixa do médico.
- Meu Deus! É a mais jovem que eu conheço. Mas ela tem consciência da morte?
- Acredito que sim, mas ainda envolve tudo em fantasias. Cria bruxas, fadas e sereias para justificar o ato. Ah, e já tem uma sede enorme de experimentar. Envenenou a colega de quarto por pura curiosidade.
- É uma garotinha especial...
Não entendi muito bem aquele diálogo, mas não perguntei nada por que minha mente e meu corpo já não me obedeciam: caiam na paralisia do sono.

***

Parece que tudo isso aconteceu ontem, mas já se passaram seis anos.
Faz seis anos eu moro com o médico.
Faz seis anos que quase não saio de casa, e passo os dias no laboratório.
Faz seis anos que eu aprendi a arte de abrir, remendar e reforma cadáveres.
O médico traz os corpos, arrebatados do cemitério. Quanto mais frescos, melhores. Depois descartamos os restos na fornalha.
Às vezes congelamos ou conservamos um órgão ou outro, que nos pareça interessante, e sempre anotamos tudo com muito cuidado, principalmente os produtos e ferramentas utilizados.
Os anos se passaram e o médico e eu descobrimos nossa paixão em comum: o estudo da anatomia humana.
É que, segundo a velha Tia Olga, pessoas como nós são especiais. Fazemos coisas que outras pessoas jamais entenderiam.
Eu estava pensando sobre tudo isso, sentada no chão, no meio do meu quarto, com o gato ronronando ao meu lado, quando o médico abriu a porta.
- Menina... Laura. Amanhã você vai para a escola.
Fiquei de pé em um pulo.
- Como? Que escola? Por quê?
Ele revirou os olhos. O médico detestava perguntas demais.
- Uma escola aqui do bairro. Fiz sua matrícula. Você começa o terceiro ano amanhã com os outros da sua idade.
- Por que? – Insisti, ainda chocada. – Por que tenho que ir pra escola?
- Tia Olga insistiu. Disse que vai ser melhor pra você do que ficar trancada em casa. Vamos lá, Laura. Você atacou minha biblioteca esses anos todos. Sabe tudo sobre química, física e anatomia. Estudou um pouco de história. Vai ser moleza pra você.
Bato o pé.
- Por que eu tenho que ir, Dr. Rezende?
Ele franze o cenho.
- Você vai. Vou obrigar você a ir. Se não for, Tia Olga não vai me dar paz. Já comprei seus livros e o seu uniforme.
- Nem tenho o que fazer em uma escola. – Reclamo. – E não sei conversar com adolescentes.
- Não minta pra mim, Laura. Você insiste em assistir filmes de adolescentes toda santa madrugada. – Diz ele, fechando a porta antes que eu pudesse replicar, colocando fim à discussão.
Seria inútil tentar contrariá-lo.
Eu iria ter que me preparar para o meu primeiro dia de aula depois de praticamente viver isolada em um laboratório por seis anos.

CONTINUA

Um comentário:

  1. uma história um tanto intrigante, porém com um bom começo, em minha opinião um dos melhores começos de história que vc já fez.

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