segunda-feira, 25 de julho de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 4 - O primeiro dia de aula

- Está fantástico! – Exclama Tia Olga, me fazendo rodopiar pelo quarto outra vez.
Eu sabia que não estava nada fantástico.
E nem deveria.
Afinal, era apenas o uniforme da escola.
- Não quero ir. – Digo, pela milésima vez.
- Claro que quer! – Revida Tia Olga. – E vai. Te fará bem.
Era inútil discutir.
Coloquei a mochila cheia de livros nas costas, e quase cai pra trás por causa do peso. Lutei um pouco e consegui seguir em frente.
O gato miou, sentado na cama.
Como sempre, Tia Olga se assustou.
- O que é isso?!
- É o gato. – Respondo. – Deve estar com fome.
Tia Olga suspira, aliviada.
- Oh, então ele ainda está aí!
Olho para a velhinha franzina, que não mudou absolutamente nada nos últimos seis anos.
- Tia Olga, a senhora não é minha tia de verdade... Mas é tia do Dr. Rezende?
Ela balançou a cabeça.
- A Tia Olga é a tia de todas as crianças e até mesmo de adultos que são... Especiais.
Não entendi muito bem.
Mas havia aprendido a evitar fazer perguntas naquela casa.
Escutamos os passos apressados do Dr. Rezende no corredor, e Tia Olga o chamou:
- Venha ver a nossa garotinha!
Ele colocou a cara na fresta da porta entreaberta, de má vontade.
Me olhou da cabeça aos pés.
- Muito bem, Laura. – Disse, por fim. – Beba o seu chá. E não esqueça o celular que te dei.
- Já está na bolsa. – Digo, aceitando a xícara fumegante que Tia Olga me oferecia, enquanto ela me analisava.
- Laura é muito bonita. – Diz. - Ela tem covinhas. E cílios grandes. Uma mocinha adorável.
O médico me encarou.
- Quer carona?
Ele estava se esforçando para ser educado, mas eu sabia que ele detestava ter que sair durante a tarde, quando sempre havia muito serviço no laboratório.
- Não, vou andando. – Digo.
- Então dê o fora logo, menina! – Diz ele, no tom rude usual.
Obedeci, e caminhei por dois quarteirões até a escola que eu teria que frequentar agora.
Muitos adolescentes.
Por todos os lados.
Eles riam, gritavam, conversavam alto...
Não era normal para mim estar no meio de tantas cores, sons, cheiros... Era como se juventude não fosse um conceito abstrato, mas algo palpável e estranhamente sufocante.
Peguei o papel amassado que estava no meu bolso: os confusos horários e mapeamento das salas.
Me senti perdida de vez.
Fazia muito tempo que eu não me sentia assim, deslocada.
Quando eu morava na Casa de Educação para Moças, estava lá desde que eu nasci.
E na casa do Dr. Rezende... Depois de seis anos e da paixão pelo laboratório, eu acabei me adaptando.
Agora eu estava desgovernada, sem saber por onde começar.
Trombei com alguém e quase cai para trás com o peso da mochila, mas um garoto me segurou pelo braço.
- Perdida, novata? – Perguntou o menino.
Me recompus.
- Mais ou menos. – Respondo. – Para onde fica a sala 6?
- Por ali. – Indica ele. – Segunda porta a direita. Depois do mural.
Sigo pela direção apontada, sem agradecer.
Os últimos seis anos haviam me deixado quase tão grosseira quanto o médico. Pensando bem, eu nem me lembrava direito das aulas de etiqueta e boas maneiras da Casa de Educação para Moças.
Entro na sala na mesma hora em que escuto um sinal insuportável de tão alto soando através das paredes.
Me sento em uma das últimas carteiras.
Uma menina entra depois de mim e se senta ao meu lado.
Meche no cabelo liso e brilhante, depois me encara.
- Quem é você?
Abro minha mochila e pego um caderno, e respondo sem me preocupar em olhar pra ela.
- Laura.
Ela faz um estalo com os lábios.
- Ah, que bom pra você! – Responde ela. – Eu sou Vanessa, popular como você nunca será. E esse lugar já está guardado. Cai fora.
Olho para ela, curiosa.
A garota já havia aberto um estojo de maquiagem sobre a carteira e estava aplicando uma camada nada natural de pó cor-de-rosa nas bochechas.
Reconheço essa figura dos filmes adolescentes. Eles as chamam de patricinhas.
Percebo como suas unhas são longas e retas. Sinto vontade de arrancá-las com um alicate. Vê-las saindo, retas e perfeitas, da pele dos dedos da garota, deixando um rastro de sangue e carne viva.
Ela se volta para mim novamente.
- Está olhando o que? – Pergunta, impaciente.
- Nada. – Digo, pegando minhas coisas e me mudando para a carteira da frente.
Aquilo não iria ser nada, nada fácil.

CONTINUA

Um comentário:

  1. Hey Giovanna!!
    Estou amando a história!!
    E aguardando ansiosa a continuação!!
    Bjos

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