domingo, 7 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 5 - À noite, todos os gatos são pardos

Pouco a pouco, os outros alunos começaram a entrar na sala, e uma garota de cabelo roxo se sentou perto de mim, conversando com uma menina baixinha de cabelos curtos e pele morena, que se senta na minha frente.
A baixinha me encarou e sorriu.
- Oi. Você é nova na escola, não é?
- Sou. – Digo, com o olhar tímido. – Acabei de me mudar pra cá com meu pai e minha avó.
Era uma mentira, mas eu precisava de uma história convincente, ou surgiriam perguntas demais. E o médico havia me orientado.
A garota a minha frente estendeu a mão.
- Eu sou Jaqueline. Do teatro da escola.
- Laura Rezende. – Respondo, apertando a mão dela.
Esse não é meu sobrenome de verdade, mas o médico me matriculou com ele, então eu teria que usá-lo.
- Bem-vinda ao inferno. – Diz a garota de cabelo roxo.
Ela usava bastante maquiagem, e tinha um piercing no nariz.
- Obrigada. – Respondo, dando um pequeno sorriso.
- Não é assim que se recebe os novos alunos, Sabina. – Repreende Jaqueline. – Afinal, é o terceiro ano, e as coisas vão ficar mais animadas.
Sabina ergueu uma sobrancelha.
- Só estou avisando. – Depois se virou pra mim. – Hei, se quiser fumar um cigarro no intervalo, se esconda no banheiro do terceiro andar. É o único lugar onde ninguém vai te pegar.
Eu nunca fumei, mas assenti, prometendo que me lembraria da dica.
O professor de matemática entrou na sala naquele momento, e despejou linhas e linhas de equações na lousa.
Copiei tudo, mas fiquei com cara de interrogação.
Que diabos era aquilo?
Faz seis anos que eu não estudo matemática, tirando algumas fórmulas de física e química.
Não faço idéia de como resolver aqueles problemas.
Jaqueline começou a fazer os cálculos, concentrada, e Sabina simplesmente abriu uma revista enquanto mascava um chiclete.
O professor se virou para a classe, após fazer a chamada.
- Pra quem não me conhece, sou o professor de matemática. – Indicou a lousa com o braço, que era comprido como um braço de macaco. – Alguém tem alguma dúvida?
- Todas. – Deixo escapar.
Ele me encara, como se eu acabasse de brotar do chão misteriosamente, mas não diz nada. Apenas se senta em sua mesa, pondo-se a digitar freneticamente em um notebook.
- Que cara mais esquisito. – Sussurro.
- Nem brinca... – Diz Sabina. – Ele é um primata. Eu é que não vou me matar de estudar essa matéria primitiva.

***
Depois do meu primeiro dia de aula, eu cheguei à conclusão de que teria que estudar bastante se não quisesse fracassar na minha tentativa de freqüentar a escola como uma adolescente normal.
Por sorte, eu me saia excelentemente bem em química, física e biologia, graças a minha convivência com o médico no laboratório.
E entendia um pouquinho de história e de literatura, já que nos últimos tempos andei fuçando na biblioteca do Dr. Rezende.
Fui andando pra casa, chutando pedrinhas, quando escutei alguém chamar, atrás de mim:
- Hei, garota! Você, do cabelo ruivo!
Me virei.
Um garoto corria na minha direção, com um livro de Geografia na mão.
Esperei ele me alcançar.
- Você deixou o seu livro embaixo da carteira. – Disse ele, com o rosto corado e tentando recuperar o fôlego. – Você é a Laura, não é?
Peguei o livro, assentindo.
- Sim, sou eu. – Respondo. Em seguida me lembro das regras da boa educação que aprendi na Casa de Educação para Moças. – Obrigada.
Ele joga o cabelo castanho escuro para trás e eu o reconheço: era o mesmo garoto que havia me indicado a direção da sala de aula hoje mais cedo.
- Jaque disse que você é nova na cidade. – Diz ele. – A propósito, eu sou Daniel. Amigo da Jaque e da Sabina.
- Oi. – Digo, simplesmente.
- Vamos tomar um sorvete na sexta depois da escola. Quer vir?
Penso um pouco para lembrar de alguma frase jovem e despreocupada.
- Estou nessa.
- Ok. – Diz ele, recuando. – A gente se vê.
- Tá. – Respondo, dando as costas a ele.
Entrei silenciosamente na casa pacífica e calma, completamente diferente da confusão da escola.
Eu podia ouvir o médico no laboratório, mas não fui até lá. Me fechei no quarto e abri os cadernos, pronta para passar o resto da tarde esudando.

***

Na manhã seguinte, Tia Olga me perguntou sobre a escola, e eu disse que não havia nada de especial: ainda não entendo por que fui mandada pra lá.
Quando cheguei para o meu segundo dia de aula no colégio barulhento, encontrei Sabina, Jaqueline e Daniel no refeitório.
 - Laura, você tem Facebook? – Pergunta Jaqueline.
Ergo as sobrancelhas.
- Não.
- Vamos fazer um Facebook pra você. – Diz ela. – E uma conta no instagram. Você é tão bonita, e é ruiva natural. Aposto que logo vai ter vários seguidores. Me empresta o seu celular.
Obedeci, enquanto Sabina revirava os olhos.
- Jaque, deixe a garota em paz.
- Só um minuto. Pronto! Só precisamos de uma boa foto de perfil. Sorria, Laura.
Forço um sorriso automático, como quando o fotógrafo ia na Casa de Educação para Moças fazer fotos das órfãs para o nosso anuário.
Jaque e Sabina olham para o celular parecendo espantadas.
- Ficou boa? – Pergunto.
- Ah, talvez com um filtro fique melhor. – Diz Jaque, enquanto Sabina ria de alguma coisa.
Olho para a foto. Eu parecia assustada, ou com raiva. Meus olhos estavam esbugalhados e eu estava mostrando dentes demais. Na verdade, parecia alguém tendo um derrame cerebral.
- Tem razão, Jaque. Ela vai ficar famosa. – Diz Daniel, me dando uma piscadinha. – Vai virar um meme.
- O que é um meme? – Pergunto.
Os três me olham como se eu fosse de outro planeta.
- Cara... – Diz Sabina. – De onde você veio, mesmo?
Não respondo, inquieta com o fato de que preciso me encaixar melhor.
Estava martelando a cabeça para buscar um novo assunto quando eu o vi. Chegou no refeitório acompanhado de Vanessa, a patricinha, e outros alunos.
E mal consigo encontra palavras para explicar o que eu senti quando os nossos olhos se encontraram por um instante.

CONTINUA

2 comentários:

  1. Eu sei de onde vc tirou esse seu professor de matemática tahh.
    - Anhhh? – Começa ele, sempre olhando pra cima. – Vamos parar com esse tipo de observação infantil, por que... Acho que ninguém aqui é criança, pra ficar... Chorando, aí, dizendo “Mas eu não to entendendo nada! Tenho todas as dúvidas”... Que não adianta. Então... Vamos parar com a brincadeira e tentar fazer o nosso negócio aqui, táhhh?
    é igualzinho kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  2. todas as suas histórias são D+,aguardo a continuação de "A MENINA,O MEDICO E O MONSTRO" e "DIÁRIO DE UMA BAD GIRL".Por favor ñ demore...Beijokassss,e até a próxima!

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