sábado, 13 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 6 - Apaixonada


Ele era simplesmente o ser humano mais extraordinário que eu já havia visto. Senti minhas bochechas esquentarem e minha garganta ficar seca de repente, como se eu tivesse acabado de fazer uma série de exercícios aeróbicos.
- Quem é ele? – Pergunto para Sabina.
Ela segue o meu olhar e faz um estalo mal humorado com a língua.
- Carlos. A maioria das garotas acha ele gostoso, mas é só mais um idiota. Nem perca o seu tempo.
Assenti vagamente.
Carlos...
Não era muito alto, mas era forte, bronzeado... Um físico ideal.
Imaginei aquele corpo saudável e perfeito inerte em uma maca, os órgãos em ótimo estado sendo retirados, cada tecido sendo estudado e as fibras daquela pele morena na frieza do microscópio...
Não pude evitar um suspiro.
Estava cansada dos corpos velhos com cheiro forte de formol roubados do cemitério.
Queria estudar algo novo, imaculado. Um corpo saudável e jovem. Só de pensar na sensação do sangue ainda quente nas minhas mãos, senti um arrepio na espinha.
- Cuidado, amiga, você está secando o cara. – Brinca Jaqueline. – Mas a culpa não é sua, Carlos é mesmo o maior gato que já houve por aqui.
Daniel revira os olhos.
- Por favor... O que ele tem que eu não tenho?
Jaqueline e Sabina riram.
- Deixa eu ver... – Começa Jaque. – Ombros de nadador, peitoral musculoso...
- Pele bronzeada – continua Sabina. – Braços fortes, charme que seduz as garotas... O que você acha, Laura?
Olho atentamente para Daniel, séria.
- Você é mais alto, portanto tem uma estrutura óssea muito diferente. É bem magro, pele clara... Parece ser um típico adolescente sedentário. Carlos deve praticar mais esportes, e provavelmente se alimenta e se hidrata melhor. Bem... De qualquer forma, não há como comparar: o metabolismo de vocês é completamente diferente.
Os três me encararam, confusos.
Daniel balança a cabeça.
- Você me assusta, Laura. – Comenta ele, com um sorriso.
- Ele provavelmente está na mesma turma de Química que você. – Diz Jaque. – Por que não tenta se aproximar dele? Que eu saiba, ele está solteiro.
- Pelo amor de Satanás! – Exclama Sabina. – Laura merece coisa melhor.
- Nisso eu sou obrigado a concordar. – Diz Daniel. – Embora ela precise urgentemente de uma aula sobre memes.
Ele começou a me mostrar imagens confusas no celular, que, por alguma motivo, deveriam ser engraçadas. Mas a única coisa em que eu conseguia pensar era que Química era minha próxima aula.
As meninas começaram um novo assunto, mas eu me levantei assim que escutei o sinal ressoando pelas paredes. Me dirigi para o laboratório de Química e vesti o jaleco branco.
O laboratório da escola era decepcionante: apenas muitos tubos de ensaio e reagentes simples em prateleiras e bancadas. Um tédio.
Outros alunos chegaram, e enquanto eu procurava um lugar tranqüilo em alguma das bancadas afastadas, vejo Carlos entrar na sala.
Meu coração dispara outra vez, e tento pensar em uma forma de me aproximar. Me lembro do que as garotas costumam fazer nos filmes adolescentes, e finjo esbarrar nele sem querer.
- Desculpe. – Digo. – Estou meio perdida. Eu sou nova. Na escola.
- Cuidado por onde anda, novata. – Diz ele, antes de se sentar com Vanessa na bancada do fundo da sala.
Ele deveria ter perguntado meu nome e me convidado para me sentar com ele, mas isso não acontece. Dou de ombros. Me dirijo para a mesma bancada em que Carlos, Vanessa e a outra garota estão sentados, mesmo sem ser convidada.
Uma garota loira me olha, com certo interesse.
- Então você é a garota nova?
- Sou. – Respondo.
- Foi dela que eu estava falando. – Sussurra Vanessa, com visível desagrado.
O professor de química começou uma explicação monótona e repetitiva e eu comecei a fazer anotações no meu caderno. De vez em quando, arriscava levantar os olhos para Carlos, mas ele parecia não me notar, mexendo no celular embaixo da bancada.
Vanessa e a outra garota sussurravam e davam risadinhas, me lançando alguns olhares que eu não soube interpretar.
- Carlos, será que o senhor poderia ler suas anotações sobre a aula para todos nós? – Diz o professor, interrompendo a aula e cruzando os braços sobre o peito. – Porque eu imagino que seja para isso que o senhor esteja usando o celular, não é mesmo?
Percebo o rosto de Carlos ficar vermelho, enquanto todos se voltam para observá-lo. Era a minha chance.
- Ah, é que...
Agilmente, passo meu caderno para ele, por baixo da bancada. Ele me lança um rápido olhar de dúvida, mas começa a ler as minhas anotações em voz alta, um pouco hesitante.
Percebo a postura do professor mudar, e noto certo constrangimento quando ele fala:
- É, muito bem. Estou impressionado.
Ele prosseguiu com a aula, e Carlos me devolveu o caderno, me lançando um sorriso de dentes perfeitamentes brancos e alinhados.
Sorri de volta, e continuei fazendo minhas anotações.
No final da aula, meu objetivo finalmente foi alcançado: Carlos veio falar comigo.
- Hey, obrigada. Você me tirou de uma enrascada.
- Não foi nada. – Digo, dando de ombros.
- Como você consegue se dar bem em uma matéria chata como química? É uma droga!
- Prática. – Respondo, sem conter um sorriso. – Tenho um ótimo material para estudos em casa. Meu pai é médico. – Hesito, e então resolvo arriscar. – Se quiser, podemos estudar juntos na minha casa qualquer dia desses...
Ele ergue as sobrancelhas, parecendo surpreso com a minha atitude.
- É. Quem sabe. Podemos combinar. – Diz, dando de ombros. – Ah, vai rolar uma festa bem maneira no sábado, na danceteria do centro. Posso arranjar convites pra você e pros seus amigos. Topa?
Respondo sem pensar:
- Tudo bem.
***
Quando falei sobre a festa, Vanessa e Sabina ficaram muito empolgadas. Segundo elas, a tal danceteria era “VIP”, o que significa que era muito difícil de conseguir convites.
Só Daniel pareceu não gostar da idéia, mas eu não entendi o motivo.
Na quarta-feira, passei por Carlos no corredor e ele piscou um olho quando me viu. Nenhum garoto nunca tinha piscado pra mim daquele jeito antes. Acho que foi um bom sinal.
Na quinta não o vi, o que me deixou estranhamente desanimada. Quando cheguei em casa, joguei a mochila no quarto, coloquei meu jaleco e fui para o laboratório.
Estava sentindo tanta falta de passar horas ali, com as mãos enluvadas mergulhadas em sangue, as ferramentas organizadas ao meu dispor... Mas desanimei assim que atravessei a porta.
Havia apenas um cadáver frio e duro sobre a mesa.
Nenhuma novidade.
Nenhuma vida.
Sempre foi assim, mas por algum motivo eu esperava encontrar alguma coisa diferente.
Escutei vozes. O médico e Tia Olga estavam discutindo dentro da “sala proibida”, o único compartimento do laboratório que eu não podia entrar.
- ...Sabe que está errado, que ela vai se sentir deslocada e, Deus que nos livre, acabar se descontrolando! – Escutei a voz de Tia Olga. - Por que continua com isso, insistindo nessa experiência fracassada, e deixando nossa pobre Laura correr o risco de se magoar? Nunca deveria ter deixado-a sair. Não ainda.
- Não posso mantê-la em cárcere privado, Olga. Ela logo será uma adulta. Esperamos demais para começar o processo de socialização.
- Mas porque de maneira tão súbita? – Indaga ela. – É muito arriscado.
- É assim que eu faço as coisas. – Responde o médico, em tom ríspido. – É o que me difrencia dos outros.
A porta se abriu e o médico pareceu um pouco abalado ao dar de cara comigo, mas logo voltou a sua carranca habitual.
- O que faz aí, plantada no meio do caminho?
- Quero operar. – Digo, de uma vez. – Faz tempo que não opero ninguém.
- Laura, querida – diz Tia Olga, aparecendo atrás do médico e fechando a porta. – Por que não opera aquele corpo, bem ali? Ainda está bom.
- Uma ova! – Reclamo. – Cansei dos cadáveres frios e duros que o doutor pega no cemitério. Quero objetos de estudo novos, cujo sangue não esteja coagulado e duro nas veias.
Os dois se entreolharam.
- Parece que alguém está numa fase difícil da adolescência. – Diz Tia Olga, com um sorrisinho. – Me lembro quando eu tinha a sua idade, Laurinha. Quando operar cadáveres já não bastava. Ia caçar novas cobaias quase todos os dias...
O médico a interrompe com um gesto brusco.
- O que está querendo dizer, Laura? Aquele corpo está perfeitamente conservado. Podemos abri-lo para fazer a autópsia, como sempre fazemos.
Olho para o cadáver na maca, sem emoção.
- Acho que não. Lembrei que preciso estudar matemática.
- Viu só? – Escuto o médico dizer, enquanto saio do laboratório. – Ela está concentrada nos estudos. Nem vem mais para o laboratório. Logo nem vai mais desejar passar o tempo aqui, ocupada com amigos, namorados e celulares, igual aos outros adolescentes.
Vou até o meu quarto, mas também não consigo me concentrar nos estudos. Me deitei na cama, mordendo o lápis.
Era em Carlos que eu pensava.
E em alguns momentos a figura do corpo da maca se confundia com a imagem dele, e eu o via ali deitado, seu bonito corpo nu estendido sobre a maca, completamente vulnerável.
E então eu abria seu abdômen musculoso com um bisturi, e o sangue quente escorria entre meus dedos. Carlos sorria para mim enquanto eu retirava cada um dos seus órgãos vitais. E eu sorria de volta.
Foi então que eu percebi. Deve ser assim.
Deve ser assim que as pessoas se sentem quando estão apaixonadas.

2 comentários:

  1. Amei ficou D+,suas histórias estão me surpreendendo cada vez mais.Simplesmente amei!

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  2. Obrigada, Ju!
    Fique de olho na série... Laura ainda guarda muitas surpresas, pode apostar!!!

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