sábado, 13 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO - 6


6.  Apaixonada

Eles eram bem vestidos, sorridentes e foram cercados assim que entraram no refeitório.
A mesa perto da janela parecia estar reservada para aquele trio de beldades juvenis.
Senti uma coisa estranha, um arrepio na espinha.
Eu conhecia aquelas figuras dos filmes adolescentes que passavam de madrugada: os alunos populares. Duas garotas e um garoto.
Uma das garotas era Vanessa, a “patricinha” que eu tive o desprazer de conhecer no primeiro dia de aula.
A outra exibia cabelos loiros quase brancos e eu acho que nunca vi antes.
Assim como, com toda a certeza, nunca vi o rapaz.
- Quem são? – pergunto para Sabina, sem deixar de observar os três.
Ela faz um estalo mal humorado com a língua.
- Os descolados da escola. Não perca o seu tempo com eles. Vanessa, Kayla e Carlos não se misturam com pessoas como nós, ou seja, que possuem um cérebro.
Assenti vagamente.
Carlos...
Não era muito alto, mas era forte, bronzeado... Um físico ideal.
Imaginei aquele corpo saudável e perfeito inerte em uma maca, os órgãos em ótimo estado sendo retirados, cada tecido sendo estudado e as fibras daquela pele morena na frieza do microscópio...
Não pude evitar um suspiro.
Estava cansada dos corpos velhos e doentes dos mendigos e drogados, e mais cansada ainda dos cadáveres com cheiro forte de formol roubados do cemitério.
Queria estudar algo novo, imaculado...
- Cuidado, amiga, vai babar! – Brinca Jaqueline, me dando uma piscadela. – Mas a culpa não é sua: Carlos é mesmo o maior gato que já pintou por aqui.
Daniel revira os olhos.
- Por favor... O que ele tem que eu não tenho?
Jaqueline e Sabina riram.
- Deixa eu ver... – Começa Jaque. – Ombros de nadador, peitoral musculoso...
- Pele bronzeada – continua Sabina. – Braços fortes, charme que seduz as garotas... O que você acha, Laura?
Olho atentamente para Daniel, séria.
- Você é mais alto, portanto tem ossos mais longos. É bem magro, pele clara... Me parece ser um típico adolescente sedentário. Carlos deve praticar mais esportes, e provavelmente se alimenta e se hidrata melhor. Bem... De qualquer forma, não há como comparar: o metabolismo de vocês é completamente diferente.
Os três olharam para mim e resolveram não dizer nada.
Daniel colocou a mão no meu ombro e me guiou na direção dos corredores.
- Você me assusta, Laura.
As meninas começaram um novo assunto, enquanto eu me dirigia para o laboratório de química.
Coloquei meu jaleco branco sem nenhuma emoção.
Em casa eu também usava jaleco.
O laboratório da escola era decepcionante: apenas muitos tubos de ensaio e reagentes simples em prateleiras e bancadas.
Que tédio.
Outros alunos chegaram, e enquanto eu procurava um lugar tranqüilo em alguma das bancadas afastadas, trombei com alguém.
Carlos, o atleta popular.
- Cuidado por onde anda, novata. – Diz ele, antes de se sentar com Vanessa e Kayla na bancada do fundo da sala.
Me dirijo para a mesma bancada, e me sento diante de Carlos sem pedir permissão.
Kayla, a loira, me olha com certo interesse.
- Então você é a garota nova?
- Posso ser. – Respondo.
- Foi dela que eu estava falando. – Sussurra Vanessa, com visível desagrado.
O assistente de laboratório, um sujeito bem atrapalhado, entrou na sala para nos passar os relatórios.
O antigo professor de química, Prof. Peterson, havia morrido há algum tempo, por causa de uma parada cardíaca e ainda não havia um substituto. Já haviam me contado.
O assistente estava bem atrapalhado, e me senti obrigada a ajudá-lo.
- Se você misturar essas duas substâncias, vai resultar em um composto tóxico e altamente inflamável. – Eu disse, no meio da aula.
Ele, então, conferiu o conteúdo de um dos frascos e percebeu que eu estava certa.
Tive que dar vários conselhos como esse no decorrer da aula, e percebi que os outros alunos ficaram bem inquietos. Eu também fiquei. Afinal, esse cara tinha alguma idéia do que estava fazendo?
No final da aula, Kayla me alcançou no corredor.
- Laura! Espere um pouco. – Disse, com um sorriso enorme. – Resolvemos convidar você para almoçar com a gente hoje. Na mesa dos descolados, heim?
Vanessa vinha logo atrás, carrancuda.
- Me sinto muito honrada. – Digo, com uma leve mesura. – Mas já tenho planos.
Kayla deu de ombros e se afastou, e escutei Vanessa comentar:
- Você pirou? Ela não é uma de nós. É uma esquisitona!
- Total! – Concordou Kayla. – Mas você quer alguém para fazer nossos relatórios de química ou não?
Relatórios de química!
Ah, eu quero fazer um, com os “populares”.
E como quero, penso, me voltando para Carlos, que se aproximava.
- Como pode se dar bem em uma matéria chata como química? É uma droga!
- Prática. – Respondo, sem conter um sorriso cheio de segundas intenções. – Tenho um material de apoio interessante em casa. Você adoraria conhecer.
Ele ergue a sobrancelha, interpretando meu sorriso de outra forma.
- Quem sabe... – Diz, dando de ombros. – Ah, vai rolar uma festa bem maneira no sábado, na danceteria do centro. Posso arranjar convites pra você e pros seus amigos. Topa?
Respondo sem pensar:
- Ok.
***
Quando falei sobre a festa, Vanessa e Sabina simplesmente piraram. A tal danceteria era bem “vip” e só ricos e descolados entravam.
Só Daniel não gostou da idéia, e inventou uma desculpa qualquer.
Na quarta-feira tive aula de inglês e não me sai muito bem.
A professora só sabia me olhar feio e murmurar um “Hmm... Francamente!” a cada dez minutos.
Na quinta cheguei em casa, joguei a mochila no quarto (acho que acertei o gato sem querer, pois escutei um miado abafado) coloquei meu jaleco e fui para o laboratório.
Estava sentindo tanta falta de passar horas ali, com as mãos enluvadas mergulhadas em sangue, as ferramentas ao meu dispor para abrir os corpos ainda vivos, quentes, paralisados por doses altas de anestesia...
Mas desanimei assim que atravessei a porta.
Havia apenas um cadáver frio e duro sobre a mesa.
Nenhuma novidade.
Nenhuma vida.
Escutei vozes. O médico e Tia Olga estavam discutindo dentro da “sala proibida”, o único compartimento do laboratório que eu nunca entrei.
- ...Sabe que está errado, que ela vai se sentir deslocada e, Deus que nos livre, acabar se revelando! – escutei a voz de Tia Olga. - Por que continua com isso, insistindo nessa experiência fracassada, e deixando nossa pobre Laura de lado?
- A menina sabe se virar! – O tom do médico era ríspido. – E a senhora nem ninguém mais tem haver com essa experiência. Por isso afastei a menina: não quero ser incomodado!
A porta se abriu e o médico pareceu um pouco abalado ao dar de cara comigo, mas logo voltou a sua carranca habitual.
- O que faz aí, plantada no meio do caminho?
- Quero operar. – Digo, de uma vez. – Faz tempo que não operamos ninguém.
- Ah, é mesmo? E os olhos daquela moça?
Minha mente é invadida por boas lembranças.
Aquela foi uma das melhores cirurgias que o médico e eu já fizemos. A garota que estava insatisfeita por ter que usar óculos!
Oras, resolvemos ajudá-la.
A amarramos em uma maca e arrancamos os olhos míopes com uma pinça. Depois, colocamos olhos de um cadáver que encontramos nas órbitas da moça.
Ela sobreviveu, e ficou muito satisfeita.
Pena que logo a levaram para um hospício.
A pobrezinha não batia bem...
Sacudi a cabeça, ainda querendo comprar briga com o médico.
- Dr. Rezende, isso já faz dois meses!
- Laura, querida – diz Tia Olga, vindo atrás do médico e fechando a porta. – Por que não opera aquele corpo, bem ali? Ainda está bom.
- Uma ova! – Reclamo. – Cansei de cadáveres frios e duros que o doutor pega no cemitério. Quero objetos de estudo vivos, quentes, e que cujo sangue não esteja quase seco...
Os dois se entreolharam.
- Parece que alguém está numa fase difícil da adolescência. – Diz Tia Olga, com um sorrisinho. – Me lembro quando eu tinha a sua idade, Laurinha. Quando operar cadáveres já não bastava. Ia caçar novas cobaias quase todos os dias.
O médico faz uma careta.
- Estou ocupado. De agora em diante, você mesma arranje seus objetos de estudo. Mas “ai” da senhorita se colocar a polícia na nossa cola ou não se livrar dos restos depois. Seja discreta!
- Certo, então. – Digo, disfarçando minha alegria. – Deixe a fornalha pronta para sábado de madrugada.
Saio do laboratório quase aos pulos.
Conto as horas para que o sábado chegue logo, e não paro de pensar em Carlos.
É, acho que isso é estar apaixonada.

CONTINUA

2 comentários:

  1. Amei ficou D+,suas histórias estão me surpreendendo cada vez mais.Simplesmente amei!

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  2. Obrigada, Ju!
    Fique de olho na série... Laura ainda guarda muitas surpresas, pode apostar!!!

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