sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO - 8



8. Monstruosa

Olhei no espelho e quase não reconheci minha imagem.
Aquela garota não parecia comigo.
Acenei com a mão direita para conferir.
Sim, era o meu reflexo.
As ondas perfeitas e brilhosas de cabelo ruivo, a pele lisa e luminosa, os olhos grandes contornados, aquela boca vermelha... Estranho, muito estranho. Sem contar o vestido, os sapatos de salto (que Jaqueline me havia ensinado a usar quase a força)...
Outra versão de Laura Beth Rezende.
Sabina e Jaqueline haviam me transformado daquele jeito especialmente para a festa.
Eu disse a elas que passaria em casa para avisar meu “pai” que iria chegar mais tarde, mas na verdade eu estava checando se o laboratório estava limpo e a fornalha preparada.
O médico saiu apressado da “sala proibida”, mas parou quando me viu.
Por um primeiro momento, acho que ele não me reconheceu.
Depois, seus olhos se estreitaram.
- Ainda bem que não é mais tão magra.
Vindo dele, aquele comentário era um grande elogio.
- Obrigada. – Digo. – Volto em mais ou menos duas horas, e vou trazer um cara comigo. Deixe a fornalha livre.
Ele resmungou alguma coisa e seguiu seu caminho.
Dei de ombros.

***

Eu pensava que o colégio onde eu estudava era uma confusão.
Mas com toda a certeza não chegava aos pés daquela festa.
Coisa horrorosa.
A música era ensurdecedora, aquelas luzes da pista, adolescentes loucos se agarrando... Minha vontade era sair correndo daquele ambiente aglomerado.
Sabina e Jaqueline claramente não sentiam o mesmo, já que estavam em algum lugar no meio da multidão, ambas se remexendo no ritmo daquela barulheira de doidos.
E eu só continuava ali... Por causa de Carlos.
Assim que vi sua figura robusta surgir no meio da confusão, fui até ele, quase em desespero.
Ele sorriu ao me ver.
- Você está diferente. Está bonita...
Primeiro, olhei ao redor.
Ninguém nos observava.
Depois, comecei a puxá-lo pela mão. Ele não resistiu.
- Preciso que venha comigo. – Digo.
Ele sorri mais ainda enquanto eu o puxava para fora daquele caos.
- Aonde vamos? – Pergunta.
- A um lugar especial. – Digo, sorrindo também. – Você vai gostar. Nunca levei ninguém lá...

***
A casa, como sempre, estava silenciosa.
- É aqui que você mora? – Pergunta Carlo, olhando ao redor.
- É... – Respondo, distraída.
Segui pelo corredor mal iluminado com ele logo atrás de mim.
Sem dizer nada, ele me segurou pela cintura e me deu um beijo na boca.
Foi muito estranho.
Quase repulsivo.
O empurrei o mais delicadamente possível.
- O que foi, gata? – Perguntou ele, relutante em me soltar.
- Só um minuto. – Digo, abrindo a porta do laboratório. – Vou conferir se não tem ninguém que vá nos incomodar.
Entro no laboratório e checo: não havia ninguém.
O médico deveria estar no porão ou então havia saído... Não estava na “sala proibida”.
Ligo a fornalha e a elevo à temperatura máxima.
Era uma espécie de saleta toda de metal, um forno gigante com uma vidraça na porta, que também era de metal.
Percebo que estou trêmula, meio nervosa.
Mas feliz.
- Carlos, venha até aqui... – Chamo, sentindo meu coração saltar.
Eu havia esperado tanto por esse momento...
Ele entra no laboratório, onde apenas algumas luzes estavam acesas, olhando ao redor.
- Nossa... – Comenta ele. – Esse lugar é enorme. Seu pai é mesmo médico?
- Ele não é meu pai. Mas sim, é médico.
Ele dá de ombros e vem até mim.
Posso sentir seu coração bater...
As veias, as artérias...
Carlos passa a mão no meu rosto.
- O que acha de me mostrar, sei lá... O seu quarto?
Balanço a cabeça, sem deixar de sorrir.
- Não, Carlos. – Seguro a mão dele, procurando sentir a pulsação com os dedos. – Temos muitas coisas para fazer aqui.
Ele ia argumentar, mas seus olhos encontraram alguma coisa que o deteve.
- Espera... O que é aquilo?
Me viro para a direção que ele indicava.
- Um objeto de estudo. – Respondo, dando de ombros. – Só um corpo. Morto. Duro. Não é vivo e quente como você.
Percebo que a cor do rosto dele sumiu um pouco.
Ele vai até a maca e faz menção de levantar o lençol que cobria o corpo, mas se segura.
Observo atentamente seus movimentos, inclusive quando ele recua e esbarra no interruptor.
O laboratório se ilumina, e acompanho seu olhar horrorizado vendo os órgãos nas prateleiras, as ferramentas, os bisturis, as macas...
- Santo Deus, o que é tudo isso?! – Sussurra ele.
O pavor de seus olhos me conquista.
- Minha vida... – Digo. – Minha arte, minha dedicação. Meu passatempo...
- Isso é... Nojento! – Grita ele.
- Não. – Respondo, em tom de censura. – É lindo. É fascinante, excitante... E esta noite quero compartilhar tudo com você.
Olho para ele, sorrindo e suspirando.
- O que você está dizendo?
- Ah, Carlos... – Digo. – Eu me apaixonei por você. E chegou a hora de você retribuir o sentimento, de você se entregar...
Eu ansiava por aquele momento.
- Quer que eu abra pessoas mortas com você? – Indaga ele, visivelmente nauseado.
Dou uma gargalhada.
- O que? Claro que não! Você não tem essa prática, querido. Hoje – começo, me aproximando lentamente. – Hoje você vai se entregar, me deixar amar e explorar cada parte do seu ser...
O pânico na expressão dele...
- Não! Isso é monstruoso! Você é monstruosa! Saia de perto de mim.
Meu sorriso desaparece.
Como assim, monstruosa?
Eu estava oferecendo a ele uma honra, uma coisa que nenhuma garota faria por ele, jamais...
Olho nos olhos dele.
- Você está estragando tudo... Eu escolhi as melhores ferramentas, preparei a fornalha... E é assim que você me paga?
Ele agora me olhava como se eu fosse uma aberração.
- O que? Eu, estragando tudo? – Percebi irritação e pavor em sua voz. – Sabe o que eu queria, Laura? Ser o primeiro cara da escola a deitar com a garota nova estranha e gostosinha! Era tudo o que eu queria! Mas você é um monstro... Uma louca!
Respiro fundo, tentando absorver aquelas palavras.
Idiota.
Não me importo com o que você quer.
O que importa é o que eu quero...
- Todas essas coisas podres, nojentas... – Continuava ele, alterado. – É uma doença! Você precisa de tratamento, sua psicopata!
Fixei meus olhos na garganta dele.
Havia um nervo que saltava toda vez que ele gritava.
Matar...
O desejo partiu de mim e fez minha mão agarrar um dos bisturis na mesa, sem nem mesmo olhar.
Ele não teve tempo de reagir.
O bisturi foi direto para a garganta dele.
- Não era para ser assim... – Sussurro.
Senti o sangue quente de Carlos escorrer até a minha mão, enquanto seus olhos se esbugalhavam e ele gritava.
Segurando o bisturi com uma mão, abri a porta da fornalha com a outra: foi fácil empurrá-lo.
Fechei a porta com força e fiquei observando-o queimar através da janela de vidro.
Primeiro sua pele lisa e bronzeada se encheu de bolhas, depois começou a pretejar. Em alguns minutos, só restavam cinzas do cara que até ontem era o garoto mais popular da escola.
Foi prazeroso de assistir.
Mas nada saiu como eu planejei: acabou rápido demais.
Queria ter aberto aquele peitoral com um bisturi adequado, mergulhar meus braços no sangue, retirar órgão por órgão daquele corpo em perfeita forma...
Levei a mão ensangüentada até o rosto, aspirando o cheiro de ferrugem do sangue, que ainda estava quente.
Eu estava assim, devaneando com o sangue fresco nas mãos, quando o médico chegou.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Queridos leitores,
    Perdoem minha demora...
    Vou tentar ser mais pontual com a série, e logo logo teremos a 3ª Temporada do DIÁRIO DE UMA BAD GIRL...
    Mas vou pedir um pouco de paciência, pois no momento estou trabalhando no meu livro!
    Assim que eu terminar, postarei as informações sobre ele. Tenho certeza de que vocês vão curtir!!!
    Obrigada pela atenção de vocês, e amo de paixão suas visitas e comentários: me fazem sentir bem, me dão novo estímulo, e fazem o LOVE BLOOD crescer cada dia mais!!!
    Valeu, "galera", pelo apoio...
    Vocês são minha eterna TURMA FATALVILLE!
    Até o próximo post...

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  2. Gostei muito da serie Diário de uma bad girl
    como também estou gostando dessa serie A menina, o medico e o monstro, tipo; da um certo medo da menina, da forma como ela pensa, mas a serie acaba se tornando muito envolvente e super interesante
    estou louca para ler a próxima parte
    bjãoo

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  3. Amei todas as series q li,comecei a te seguir no recanto,e garanto q vou continuar em todos os sites!Amo suas histórias!Até a proxíma!!!
    beijokasssss...

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