domingo, 28 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO - 9


9. Já não sei quem sou

Escutei os passos do médico atrás de mim, mas não me virei.
Senti o olhar dele por sobre o meu ombro, olhando os ossos queimados e as cinzas dentro da fornalha.
- Limpe tudo. – Disse ele, e o ouvi se afastar na direção da “sala proibida”.
Me voltei, sentindo minha cabeça ferver.
- Não! – Grito.
Ele me olha com a testa franzida.
- O que, menina?
- Eu disse não. – Repito, firme. – Me diga, doutor... Eu sou um monstro?
Ele me olha dos pés a cabeça.
- Não sei aonde você quer chegar. – Responde o médico, enfim. – Não tenho tempo para isso, menina, agora trate de deixar a fornalha do jeito que estava antes: limpa.
Ele me deu as costas novamente.
Balancei a cabeça, fora do sério.
Dessa vez ele iria me escutar.
- Limpe você! – Grito, atirando um béquer cheio de iodo na direção dele.
Ele se volta novamente.
- Mas o que...?
Não dou tempo a ele de continuar.
Atiro a bandeja de bisturis no chão, derrubo uma prateleira inteira de frascos e chuto uma estante de tubos de ensaio antes que ele consiga chegar até mim.
- Garota louca! – Berra ele, apertando meus braços e me arrastando para fora do laboratório. – O que você pensa que está fazendo?
Ele me joga no corredor e eu caio, me apoiando na parede.
- Tentando ser normal! – Revido. – Tentando não ser uma aberração! Você sabia o tempo todo, não é? E mesmo assim nunca me disse...
- Dizer o que? – Explode ele. – O que você gostaria que eu tivesse dito?
- Algo do tipo: Laura, nós matamos e retalhamos pessoas quase todos os dias, e isso é uma doença, não é normal!
O médico dá um riso seco.
- Era isso? Vai me dizer que você não sabia que a maioria das pessoas desmaiaria ao entrar nesse laboratório? Que poderíamos ser presos?
Coloco as mãos sobre os ouvidos.
- Não sei! – Grito. - Não quero ouvir mais nada! Não sei mais nada! Por que gostamos de fazer isso? Que tipo de monstro nós somos?
O médico apenas continuou me olhando torto.
- Vá embora. – Diz ele, depois de uma pausa. – Seu lugar não é mais aqui.
- O quê? – Pergunto, descrente, tirando as mãos do ouvido em um movimento lento.
- Desapareça daqui! – Grita ele.
- Foi você que me trouxe pra cá! – Respondo. – Foi você que me tornou esse monstro!
- Ninguém se torna um monstro como nós. – Diz ele, com a expressão sombria. – Nascemos assim. Eu, você, Tia Olga...
- Onde ela está? – Pergunto, lembrando-me dela de repente.
- Viajando. – Responde o médico. – Mas você nunca mais vai vê-la. Você vai embora. Vai desaparecer dessa casa e nunca mais voltar.
Me levanto, sentindo a raiva em cada partícula do meu ser.
- Não tenho para onde ir. – Sussurro.
- Isso não é problema meu. – Responde ele, em um tom que eu sabia ser inútil contestar. – Pegue o que for seu e suma.
Nessa hora não agüentei mais.
Corri para o banheiro, batendo a porta atrás de mim, e vomitei.
Foi horrível, mas quando terminei, me senti melhor.
Lavei minha boca na pia, me livrando também do sangue agora seco que ainda estava em meus dedos.
Me olhei no espelho atentamente, tentando recuperara a calma.
Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e respirei fundo.
Abri a porta do banheiro devagar e vi a luz do meu quarto acessa no fim do corredor.
Fui caminhando devagar até lá, meu coração voltando ao ritmo de sempre...
Parei na porta do quarto, observando o guarda roupa e a escrivaninha que eu ocupei por seis anos totalmente vazios.
O médico se volta para mim e atira uma mala aos meus pés.
- Leve. – Diz ele.
Hesito, encarando-o.
Ele revira os olhos.
- Tudo bem! – Diz, abrindo a carteira e me estendendo um maço de notas. – Agora suma. Não quero ver mais nem sombra sua nessa casa. Se ouvir alguém mencionar o nome Dr. Rezende em algum lugar, finja que nunca escutou antes.
Pego o dinheiro e coloco no bolso do casaco sem ao menos contar. Seguro firme a mala e me dirijo para a porta da frente, fechando-a atrás de mim.
Antes de alcançar o portão, ouço a porta se abrir novamente.
- Hei! – Grita o médico.
Me viro.
- Leve esse gato com você.
Ele solta o gato no quintal, fechando a porta outra vez.
Fico alguns minutos ali parada, observando a casa.
Não tive vontade de chorar – eu nunca, nunca chorava, no máximo vomitava.
Aquela era uma casa onde passei seis anos e agora eu não era bem-vinda ali. Simples. Não era mais a minha casa – nunca foi – era apenas a casa de um médico que eu esperava nunca mais ver.
O gato miou e se enroscou na minha bota, pedindo comida.
Dei um pequeno chute nele para que se afastasse e sai pelo portão.
Se o médico não queria o gato, eu, muito menos.
Começou a garoar.
Pensei em pegar um ônibus, mas tive outra idéia.
Antes de ir para sabe Deus onde, eu tinha uma promessa para cumprir.

***
A pequena discoteca jovem Galera da Música não era difícil de localizar.
Muito mais tranqüila e vazia que a boate das festas “vips”, era um ambiente até que bastante agradável.
Pedi um café preto forte e bem quente e encostei-me a uma mesa, quando um homem subiu no palco e anunciou:
 - Agora teremos mais uma música da banda estreante Radicalize para fechar a noite com a canção Não sei quem sou. É com vocês, galera.
   Vi Daniel subir no pequeno palco segurando o violão, acompanhando de mais dois garotos: um gordinho que foi pra trás da bateria e um outro de cabelo estranho, que começou a tocar teclado.
Os olhos dele pareceram se iluminar quando encontraram os meus.
Ele começou a cantar, e a voz dele entrava na minha cabeça, me fazia despertar para uma nova realidade.


Alguém pode me dizer
O que houve por aqui
Se chorar eu já não quis
E por mais uma noite não pude sorrir

Olho a minha volta
Tanta gente, tipos e modas
Como pode ser
Que eu ainda me sinta tão só?

Perdido em mim mesmo
Coração tão pesado
O espelho em cacos
Por que já não sei quem sou

O tempo girando
Meu mundo parando
Desenhos rabiscados
Por que já não sei quem sou

Revendo velhas fotos
Relendo velhas cartas
Não entendo o motivo
Da alegria de ontem ter sumido

E encontro seus olhos
Nesse mar de trevas
Que se tronou minha vida
O que eu faço para ter você?

Perdido em mim mesmo
Coração tão pesado
O espelho em cacos
Porque já não sei quem sou

O tempo girando
Meu mundo parando
Desenhos rabiscados
Por que já não sei quem sou

Me ajude a achar
A luz, a saída
Da enorme confusão dos meus dias

Se meus sonhos não são meus
Minhas idéias não são minhas
Qual é o meu caminho?
Qual é o meu destino?

Perdido em mim mesmo
Coração tão pesado
O espelho em cacos
Porque já não sei quem sou

O tempo girando
Meu mundo parando
Desenhos rabiscados
Por que já não sei quem sou

  Quando a música terminou, todos os presentes na discoteca aplaudiram animados.
Mas eu não.
Estava petrificada.
Nunca, na minha vida inteira, alguém tinha dito exatamente o que eu sentia, cada palavra daquela música parecia sair de dentro de mim.
Daniel desceu do palco, após apertar as mãos dos outros caras da banda, e veio na minha direção.
- Laura, você veio!
Fiz que sim com a cabeça.
- Sabina e Jaque passaram aqui mais cedo e disseram que não te encontraram... Mas que bom que você apareceu.
- Fui pra casa... Resolver uns problemas. – Digo, depois suspiro. – A música... Ah, Daniel, toque de novo, por favor!
Ele riu.
- Amanhã vamos tocar outra vez. – Diz ele, satisfeito. - Eu diria que o pessoal curtiu bastante. Hei, aqui já vai fechar. Vamos? Tá tarde. Seu pai vai ficar preocupado se você não voltar logo pra casa...
Ele segurou minha mão, e eu deixei.
Estranho.
Normalmente eu repelia e evitava qualquer toque humano.
Mas a mão quente de Daniel segurando a minha não era uma sensação tão ruim.
- Não posso ir pra casa. – Respondo, com um suspiro. – Fui expulsa.
Ele ergue uma sobrancelha.
- Tá brincando, né?
Como resposta, me levanto e indico a mala.
- Só passei para te ver tocar. Vou embora da cidade.
Ele pareceu perplexo.
- Como assim? Se próprio pai te expulsou?
- Ele não é meu pai. – Digo. – Era apenas um tutor. E eu quero ir. Não posso mais... – Suspirei. – Me disseram que eu sou um monstro. E sou mesmo. E a culpa é dele, do médico.
Daniel parecia ainda mais espantado.
- Que papo é esse? Laura, você não é um monstro. É uma garota legal, diferente, bonita...
- Ah, pare com isso! – Peço, revirando os olhos. – Você não me conhece, Daniel. Se soubesse quem eu sou de verdade, não iria gostar de mim.
Ele balança a cabeça.
- Lógico que não! Laura... Eu posso não te conhecer bem, mas já conheço o suficiente para me... Para gostar de você.
Olho para ele e percebo que ele estava sem graça.
Saímos para a rua, por que a discoteca estava fechando.
Parei na calçada, e ficamos nos encarando.
- Obrigada. – Digo, sem saber o que dizer.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou-a novamente.
Ele desviou os olhos azuis para o lado.
- Tem uma coisa... – Começo, um pouco insegura. – Tem uma coisa que eu quero te pedir. – Digo, sem dar tempo a ele de responder. – Me deixe ir com você? Para a sua casa?
Ele pareceu surpreso.
- Minha casa? Bem, acho que sim. Minha mãe não está. E você não tem pra onde ir então... Então, claro! Pelo menos até que as coisas se resolvam. Digo, você é minha amiga...
O abracei.
Fiz isso sem parar pra pensar, do contrário, não faria.
Ele foi pego de surpresa, mas logo senti seus braços nas minhas costas.
- Vamos – sussurrou ele.

***
A casa de Daniel era muito diferente da casa do médico.
Pra começar, não tinha pó.
Era organizada e cheirosa.
Tirei as botas que estavam machucando meus pés e me aconcheguei no sofá que Daniel havia forrado pra mim.
A sala era iluminada apenas por um abajur.
Ele veio até mim com seu violão, depois de muita insistência da minha parte para que ele tocasse.
- Está confortável? – Pergunta ele, antes de se sentar ao meu lado.
- Muito. – Respondo, ansiosa por ouvir as melodias outra vez.
Assim, ele tocou pra mim.
Primeiro Não sei quem sou, e depois Minha Garota.
Quando ele terminou, colocou o violão de lado e me encarou.
- Você vai ficar bem, Laura?
Fiz que sim, já com planos na cabeça.
Daniel gostava de mim, eu sabia.
Pensei um pouco no que pretendia fazer. Eu havia feito a mesma coisa com Carlos, mas não havia sido bom.
Mas Daniel era diferente...
Talvez fosse uma coisa boa.
Me inclinei, devagar, sentindo a respiração dele na minha pele.
- Laura... – Sussurrou ele, sem se afastar.
Encostei meus lábios nos dele devagar, e ele correspondeu.
E foi mesmo diferente.
Esse beijo não foi estranho ou nojento.
Foi bom.
Ele se afastou de repente.
- Não sei se isso está certo... – Diz ele, parecendo perturbado. – Você é minha amiga.
Suspiro.
- Está tudo bem. – Respondo, fazendo uma pausa. – Eu sei que você gosta de mim. Então pode me levar para um laboratório, se quiser, apesar de duvidar que você tenha um...
- O que? – Pergunta ele, confuso.
Dou de ombros.
- Esqueça. – Digo. – Acho que você não gosta de se expressar estudando anatomia.
Ele ri, ainda um pouco confuso.
- Não mesmo. Me expresso com a minha música.
Olho para ele.
- Então... Você pode usar os seus sentimentos por mim na música?
Ele sorri, corando ligeiramente.
- Eu já uso, Laura. Quem você acha que me inspirou nos últimos dias? Quem você acha que é a Minha Garota?
Sorrio de volta, compreendendo.
Conversamos mais um pouco, até que Daniel me deu um beijo na testa e foi para o quarto, me desejando uma boa noite.

***
Acordei com batidas na porta.
Provavelmente, Daniel ainda estava dormindo.
Abri a porta e dei de cara com Tia Olga.
- Laura! – Diz ela, quase em desespero. – Finalmente te achei! Venha rápido, querida! Você tem que impedir o Dr. Rezende, ou estaremos todos perdidos!

CONTINUA

2 comentários:

  1. ADOREIII,
    parabéns Giovanna a serie é ótimaa como todas as outras
    estou simplesmente viciada nesse blog, todos os dias eu visito para conferir se a novas postagens

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  2. Ficou ótima como sempre!Amo todas as suas histórias!Até a próxima postagem!
    BEIJOKASSSS...

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