sábado, 10 de setembro de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO - 10


10. O Pior Monstro

Fiquei encarando Tia Olga, sem reação.
- Se apresse, minha filha!
Eu não deveria desobedecê-la, mas me lembrava perfeitamente das palavras do médico: vá embora, desapareça, nunca mais volte, suma...
- Laura Beth Rezende: - Ralhou ela, diante da minha hesitação. – Você tem que vir comigo AGORA!
Que saída eu tinha?
Corri até o quarto de Daniel, que ainda dormia, dei um beijo leve na testa dele, coloquei meu casaco, peguei a mala e segui Tia Olga pela rua gelada.
A manhã era feita de nuvens negras, e o sol ainda estava nascendo.
Paramos na frente da casa do médico, e Tia Olga me empurrou portão adentro.
Percebi que ela não pretendia entrar.
- A senhora...?
- Negócios, minha garotinha. – Disse ela, com um suspiro. – Mas não perca seu tempo: vá até lá e faça o que tem que fazer!
Sei que é inútil discutir.
Eu podia me rebelar contra o médico, mas jamais contra Tia Olga.
Abri devagarzinho a porta da sala, e, para minha surpresa, o médico estava lá, com a TV ligada, fumando um charuto.
 Esperei que ele me mandasse embora, mas o olhar dele passou direto por mim, como se não me enxergasse.
- Dr. Rezende? – Perguntei, entrando, mesmo prevendo que seria expulsa aos pontapés.
Ele me encarou.
- Laura?
Lembrou do meu nome. Raridade.
Me aproximei e percebi que os olhos dele estavam vermelhos, resultado do acúmulo de cansaço das noites mal dormidas.
- Dr. Rezende... – Sussurro, sentindo uma espécie de intuição, e não era nada agradável. – O que o senhor fez?
Ele leva o charuto até os lábios em um movimento vago antes de me encarar novamente.
- Laura... Eu criei um monstro.
Tampo minha boca com as mãos, arregalando os olhos. Não podia ser verdade...
- Sim, eu criei! – Diz ele, cerrando os punhos. – Depois de tantos anos nesse maldito experimento secreto...
Abaixo minhas mãos devagar.
Olho para a caixa de charutos.
- Posso fumar um?
O médico dá de ombros.
Pego um dos charutos da caixa e ascendo com um fósforo. Me arrependo logo em seguida, enojada com a fumaça que me faz engasgar, e deixo o charuto de lado.
- Onde está? – Pergunto.
O médico franze a testa.
- No laboratório. Não vá até lá, Laura...
- Você criou a vida dentro daquelas paredes – digo, me sentindo distante. – Ao invés de trazer morte, como sempre fizemos...
O médico suspirou.
- E como eu me arrependo... Ah, só queria alguém que compreendesse. Que estivesse ao meu lado pelo resto da vida. Alguém que se interessasse pelo meu trabalho, e que não viajasse tantas vezes como Tia Olga...
Sinto uma coisa estranha dentro de mim. Bem ali, perto do coração.
- Mas... e eu? – Pergunto.
O médico me olha quase com tristeza.
Estranho.
Nunca tinha visto qualquer expressão no rosto dele a não ser de irritação ou indiferença.
- Você foi embora. – Acusou ele.
- Hei! Você me expulsou, lembra?
Ele dá de ombros.
- Por que você se rebelou, Laura. Eu não podia obrigá-la a continuar aqui, se acreditava mesmo que o que fazemos é monstruoso.
- Não somos monstros. – Digo. – E aquilo... Bem, foi só uma crise de abstinência adolescente. Acho que eu estou crescendo, pai.
- Do que você me chamou?
- De pai. – Respondo, simplesmente. – Eu sou sua filha. Mereço essa posição mais do que a coisa que está no laboratório. O único monstro da história é ela.
 O médico fechou os olhos.
- O que eu faço agora, Laura?
Beijei a mão dele.
Não foi tão ruim tocar a mão do médico, mas acho melhor não repetir o gesto. Ainda é estranha essa coisa de toque humano, menos quando se trata de Daniel, claro.
Delicadamente, pego a navalha no bolso do jaleco dele.
- Eu posso cuidar de tudo. – Sussurro. – Confie em mim.
Ele continuou de olhos fechados, sem nenhuma reação.
Me encaminhei com passos lentos para o laboratório.
Quando parei, na porta, suspendendo a respiração, pude distinguir pequenos ruídos dentro do laboratório.
Abri a porta e me deparei com o Monstro.
Ela era mais alta que eu, magra, morena.
Na verdade, o cabelo escuro era uma espécie de peruca costurada á cabeça, e a pele, costura de vários tons que cheiravam a formol. Parecia uma espécie de colcha de retalhos humana.
Ela mancava um pouco quando caminhou na minha direção.
- Espera aí: essas são minhas roupas? – Indago, reconhecendo o jeans desbotado e minha camiseta vermelha favorita. – Você vai pagar por isso...
Ela parou, diante de mim, seu rosto costurado de boneca sem expressão.
Olhei nos olhos daquele Monstro horrendo, segurando a navalha.
- Você, Monstro – começo, avançando um passo.
Ela recuou. Isso me fez sorrir.
- Acha mesmo que pode roubar meu lugar, roubar meu pai? – Digo, avançando ainda mais enquanto ela recua. – Ninguém pode me subestimar. Nem você, ou a Dona Inácia, ou Carlos...
Avancei com a navalha, sentindo raiva de verdade.
Não me lembro muito bem do que aconteceu.
Só sei que, quando me dei conta, estava coberta de sangue da cabeça aos pés.
Havia acabado com o Monstro, e estava muito, muito feliz.

***
As coisas melhoraram bastante ultimamente.
Em casa, o médico e eu continuamos nossa rotina, só que conversamos um pouco mais do que antes. E eu o chamo de pai quando não estamos discutindo.
Tia Olga ainda viaja “a negócios” e se tranca no porão.
Na escola, está se tornando mais fácil aturar o professor Primata.
É claro que todo mundo ainda comenta sobre o misterioso desaparecimento de Carlos desde o dia da festa. Mas eu estou numa boa. Ninguém nos viu saindo juntos.
E, claro, Daniel e eu estamos “namorando”, como diz Jaqueline e Sabina. Não sei se é isso mesmo, mas ele toca suas músicas pra mim e quase sempre nos beijamos, o que é muito bom.
Uma vez o convenci a me ajudar no laboratório, a dissecar sapos, apenas, e foi engraçado: ele passou mal duas vezes e quase desmaiou.
De qualquer forma, ele não ficou zangado comigo nem nada do gênero. Nos damos perfeitamente bem.
Ah, e o gato voltou a morar comigo.
E não é um gato, como descobri recentemente: é uma gata.
Dei um nome para ela: Adelaide.
Afinal, eu nada seria sem aquela inocente amiga de infância, que me ajudou a descobrir o caminho que eu desejava seguir...

FIM

4 comentários:

  1. O final ficou legal,mas ñ sei pq acho q ñ foi um final,parece q tem continuação.Mas mesmo assim ficou legal.
    Beijokasss..
    E até a próxima...

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  2. parabens todos q li ate agoraeu simplesmente amei.

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  3. Muito boa a história, você escreve histórias maravilhosas Giovanna, parabéns garota!!!!!!!!!!

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  4. ameii sua história e tambem o teu blog muito bom mesmo ^^

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