domingo, 11 de março de 2012

INFERNAL - 2

PARTE 2 - Repulsa

É incrível como tudo é o fim do mundo para os adolescentes: Uma nota vermelha, um fora, um castigo no dia de uma festa...
Imagine então se esse bando de idiotas estivessem no meu lugar: quinze anos e meio, a apenas seis meses de ter o que você mais quer (no meu caso, virar um demônio) e ter seu sucesso ameaçado por um infeliz de um anjo, que aparece do nada para atrapalhar sua vida.
E eu fui um idiota por não ter percebido antes.
Enquanto eu estava ocupado demais infernizando as vidas alheias e de olho na pobre alma infeliz da garota nova, a garota que eu deveria temer estava mais perto do que eu imaginava.
Estela era da minha sala de Educação Artística. Ela é doce, gentil, faz caridade e é sempre boa com todos. E ultimamente andava de olho nos meus passos.
Eu já deveria ter desconfiado. Não era mais uma nerd que tinha uma queda por mim. Estela é um anjo.
Deu pra perceber no momento em que esbarrei nela no corredor: A leveza, o sorriso, os olhos azuis...
Azul é uma cor perigosa para um demônio.
Me afastei dela rapidamente, murmurando um “foi mal”.
Entrei no banheiro masculino, me inclinando diante do espelho e arquejando.
Os anjos não vão me convencer a passar pro lado deles. Não vão.
Podem colocar todo o exército da salvação na minha cola. Eu serei um Demônio com D maiúsculo.
Gosto de maldade, de diversão.
E gosto mais ainda de vinganças.
Acendi um cigarro, tentando me controlar. Eu deveria estar entrando na aula de Espanhol agora, mas não me importava.
Não posso deixar que um simples anjo me perturbe assim. Tudo bem, fui pego de surpresa, mas acabou.
E, foi só pensar no fato de que, depois que eu fizesse dezesseis anos e optasse pelas trevas, teria que me apaixonar por Estela, que fiquei numa boa.
Em primeiro lugar, não me apaixono.
Garotas podem ser sedutoras, divertidas, algumas são até excitantes. Mas todas cansam. Com um tempo, perdem a graça.
  Não vou ser cruel e dizer que Estela é asquerosa, mas não fazia meu tipo. Magra demais. Certinha demais.
Cinquenta minutos depois, desci para a quadra, pronto para aturar a aula de Educação Física, seguro de mim mesmo outra vez.

***

- Esse treinador ainda vai me matar, cara – reclamou Derek, depois de meia dúzia de flexões mal feitas.
- Não sei, não – eu disse, sorrindo, de braços cruzados. – Você está melhorando, Derek. Conseguiu se erguer do chão dessa vez. Mas do jeito que você é mole, vai ter que tomar bomba para ficar tolerável para alguma garota que não tenha uma caveira tatuada no ombro.
Ele arrancou a bandana da cabeça, usando-a para se abanar.
- Você é um sortudo filho da mãe, Félix. – Disse ele, arfando e virando a garrafa de água mineral na cabeça. – Como é que você faz para não ter que participar das aulas?
Revirei os olhos.
- Eu simplesmente falsifiquei um atestado médico e agora tenho sopro no coração.
- Que droga é essa?
- Não importa. Só sei que assim não preciso suar que nem você toda quinta-feira.
Derek me xingou entre dentes, voltando as flexões, e me voltei para o outro lado da quadra, onde algumas garotas de outra turma jogavam vôlei.
Ela estava lá. A garota de cabelo roxo.
Agora falava ao celular, sentada na arquibancada, em um moletom discreto.
Me aproximei discretamente, o suficiente para escutar a conversa.
- Tem que dar tudo certo – dizia ela, em tom autoritário. – É minha primeira festa aqui. Quero fazer algo divertido e com classe.
Então a garota que eu havia marcado como futura vítima ia dar uma festa? Interessante.
- Aurélia! – Gritou a professora, e a menina guardou o celular na bolsa, revirando os olhos e indo até a quadra, passando reto por mim sem me dirigir um único olhar.
Aurélia.
Bom, em primeiro lugar você vai parar de se preocupar em ser aceita quando um estranho e sedutor rapaz surgir para atormentá-la. Em seguida, vai ser totalmente conquistada pelo charme dele.
E, por último, você vai sucumbir as trevas daqui a seis meses, no meu ritual de iniciação.
Anote minhas palavras.

CONTINUA

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