sábado, 31 de março de 2012

INFERNAL - 3

PARTE 3 - Desespero

O jeito que ela se movia era como alguém que queria parecer tranquilo e confiante, mas não estava. O sorriso, embora bonito, era forçado, e os olhos dela procuravam, inquietos, como se buscasse um rosto familiar entre tantos estranhos.
Eu percebia aquilo ao observar Aurélia a distância, estudando seus movimentos.
O vestido dela revelava curvas realmente atraentes, mostrando a pele lisa das costas. Ela desviava das pessoas graciosamente, mas eu era o único que conseguia imaginar o ritmo das batidas do coração dela.
Ultimamente, minha capacidade de sentir as emoções alheias estava ficando mais afiada.
Quando Aurélia se virou e me viu, um estranho encarando-a por um milésimo de segundo antes que as pessoas entre nós me ocultasse, tive certeza de que ela sentiu um calafrio na espinha.
Você será minha...
- Félix?
Alguém me cutucou e me virei, surpreso. Não esperava encontrar nenhum conhecido naquela festinha de playboys. Era Estela.
Semicerrei os olhos.
- Ah, você.
Ela usava uma roupa que lembrava uma bailarina, com uma saia comprida demais para o meu gosto.
Não que uma garota anjo de doces olhos azuis como Estela chame minha atenção, independente do comprimento da saia.
- Não vi seu nome na lista de convidados. – Disse ela, me encarando com uma leve ruga na testa.
- Os muros não são altos o suficiente para deterem um delinquente juvenil. – Respondi, cruzando os braços.
Estela franziu os lábios finos, olhando por cima do meu ombro, na direção de Aurélia.
- Deixe-a, Félix. Por favor. Eu percebi como você a olha. Aurélia está se sentindo tão sozinha e perdida. Não é o seu tipo de garota...
- Meu tipo de garota – interrompi, secamente. – São as perdidas. Exatamente como ela.
- Você não sabe o que diz...
Peguei Estela pelo braço, aproximando meu rosto do dela, bruscamente.
- Eu sei o que você é e o que está tramando. – Sussurrei, ameaçador. – Fique longe do meu caminho. Eu já decidi o meu destino. Se tentar se intrometer, vai se arrepender.
Ela puxou o braço, mas sem nenhum medo no rosto.
- É você quem sabe, Félix. Nós poderíamos fazer uma ótima proposta para você. Trabalho em equipe, talvez.
- Não quero nada do que você e os seus podem me oferecer. – Rosnei.
Estela sorriu calmamente.
- É mesmo? Pense bem nas suas palavras.
A observei se afastando devagar, quase deslizando.
Malditos anjos imbecis.
E então eu vi uma coisa muito mais interessante: Aurélia, discutindo com o pai em um canto afastado. Aurélia, saindo bruscamente, com os lábios trêmulos e um discreto vestígio de lágrimas nos olhos, empurrando as pessoas para se libertar do aglomerado do salão de festas.
Quando ela alcançou o jardim e começou a correr, não hesitei nem um segundo. Aquela era a minha deixa.
Eu tinha quase certeza de que ela estava pensando em algo terrível. Aquela alma angustiada, cheia de mágoas que o dinheiro não podia consertar.
A segui, sorrateiramente, sorrindo nas sombras.
Ela corria por entre as árvores. O objetivo dela era o esquecido e profundo lago: correu até a ponta do píer escorregadio, a madeira cheia de lodo, a única parte da propriedade que não havia sido reformada.
Ela parou bem na beirada, as lágrimas caindo na água e formando pequenos círculos.
O vento estava bem frio. Com toda a certeza a água negra estaria gelada. Ela tremia dos pés a cabeça, e acabou dando um passo para trás.
Saí das sombras das árvores, faminto por todo aquele sofrimento, desejando ver uma tragédia se desenrolar diante de mim.
Ela percebeu minha aproximação, e se voltou, não assustada, mas com uma expressão presunçosa.
- Quem é você? – Perguntou.
A encarei, usando meu sorriso persuasivo que sempre funcionava com garotas.
- Isso não importa.
- Se você acha que pode me deter, está enganado. – Revidou ela, dando um passo para a beirada outra vez. – Não pode me impedir. Eu vou pular.
Cruzei os braços, sem me mover, aumentando o sorriso.
- Eu não vou atrapalhar. Pode pular. Vá em frente.
Dessa vez, a peguei desprevenida. Ela hesitou.
- Como é?
- Vamos, Aurélia. Pule.
Ela me deu as costas, e se voltou para o lago. Eu não disse que meu sorriso persuasivo sempre funcionava com garotas?
Dava quase para ouvir os pensamentos dela, dizendo adeus a esse mundo.

CONTINUA

2 comentários:

  1. nosssa muuuito bom, to curiosa a Aurélia vai pular ou não?
    nossa, a terceira postagem demorou tanto, fiquei preocupada entrava todos os dias mas nunca tinha uma nova postagem :( achei que tinha abandonado o blog
    mas se demorou teve seus motivos
    ansiosa aqui pela 4°, quero saber o que vai acontecer com a menina
    bjinhos

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  2. Oi! Desculpe pela demora...
    Realmente, não postei nada porque a escola anda me matando, estou tendo provas e trabalhos todo dia.... :(
    Mas não pretendo abandonar o blog, fique tranquila quanto a isso! Rsrsrs
    Está um pouco tarde, e estou com sono, mas em sua homenagem, Súh, lá vai o quarto capítulo...
    :D

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