terça-feira, 1 de maio de 2012

INFERNAL - 10


10. Na "Fazendinha" 

Não havia policiais, seguranças ou qualquer criatura desse ou do outro mundo que pudesse me deter.
Entrei na casa de Aurélia e chutei a porta do escritório do pai dela, que conversava com o chefe de polícia.
Ambos se levantaram e me encararam.
- Você – eu disse, apontando para o chefe. – Saia.
Ele girou a ponta do bigode e me encarou com superioridade.
- O que quer aqui, moleque?
Novamente, meus olhos esquentaram, e eu tirei os óculos escuros. A expressão do policial mudou.
- Não me aborreça. Saia antes que eu chute sua bunda gorda até o outro lado da cidade.
Ele olhou para o Sr. Santoro, mas acabou saindo e fechando a porta. Covardão. O chefe da Polícia de Fatalville era um corrupto sempre medroso e facilmente subornável, que já tinha visto muita coisa sinistra na cidade para se meter onde não devia. Mas ele não sabia nada sobre mim. Tinha apenas o azar de conhecer minha mãe.
O pai de Aurélia me encarou.
- Quem é você?
- Félix, o demônio. – Respondi, encarando-o. – Namorado da sua filha.
Ele detestou essa última parte. Eu também. Namoro é lenga-lenga demais ao meu ver, e não há garota nesse mundo que me amarre. Mas dizer “peguete da sua filha” não parecia ser a melhor forma de começar aquele papo.
- Sabe onde Aurélia está?
- Não. Mas agora eu vou falar e o senhor vai me escutar. – Comecei. – Eu posso não ter grana, me vestir como chefe de uma gang e ser o tipo de sujeito que o senhor quer longe da sua filha. Mas garanto que sou o único que pode encontrar Aurélia.
Ele franziu o cenho, alisando o cabelo grisalho. Com certeza achava que eu estava metido nessa.
- Quanto você quer?
Revirei os olhos.
- Qual é! Eu disse que não sou rico, mas também não estou pedindo esmola. Também não sei com certeza onde Aurélia está, mas tenho sérias suspeitas. – Fiz uma pausa. – Ouça, senhor: as pessoas que estão com a sua filha não vão machucá-la, na real. Mas tenha certeza de que nunca mais irá vê-la se não agir rápido. Eu preciso que me diga tudo o que sabe.
Eu não estava mentindo.
Na minha cabeça, estava tudo bem claro: ontem, depois de ter assustado Aurélia daquele jeito, ela deve ter se sentido mais desesperada que nunca.
E então os anjos apareceram.
E agora, nesse exato momento, devem estar tentando convencê-la a seguir um caminho de luz, encontrar paz de espírito e se afastar de mim.
E, como ela jamais conseguiria se afastar de mim por muito tempo, eles vão levá-la para longe de Fatalville, para que se torne mais uma alma salva, uma freira ou qualquer outra coisa deprimente assim.
- Bom... Houve um acidente na minha casa ontem à noite. E quando procurei Aurélia, não a encontrei. Então recebi um telefonema, e um homem pediu muito dinheiro em um prazo de 24 horas para que eu tivesse minha filha de novo. É só.
Para que os anjos queriam dinheiro?
Já sei. Eles iam precisar de verba.
Iam levar Aurélia para África ou outro lugar parecido, onde ela veria pessoas na miséria, se tornaria solidária e passaria o resto dos seus dias tentando fazer do mundo um lugar melhor! Típico. Talvez acabassem levando o pai dela junto, família unida e feliz! Aff...
- Ok. – Eu digo, encarando-o. – Só preciso de uma coisa: uma arma.
- Como? Só pode estar brincando!
- Não. Eu não brinco, Sr. Santoro. Sei que o senhor tem uma arma guardada em algum lugar nesse escritório. – Se liga no meu blefe! – Me entregue e trarei sua filha.
Não demorou muito para convencê-lo.
Realmente, o velho tinha uma pistola bacana.
A levei comigo, bem carregada.

***

Quando minha mãe comprou nossa casa, cuidou para que fosse a única da rua, chegando a comprar também alguns lotes de terra ao redor, para garantir que não teríamos nenhum vizinho barulhento e fuxiqueiro que nos visse enterrando cadáveres no quintal.
No mesmo bairro onde eu moro há algumas propriedades parecidas, inclusive a pequena fazenda onde Estela mora. Segui para lá em um passo apressado. É uma droga ter quinze anos e nenhum carro disponível.
Tentei levar a caminhada numa boa, com um cigarro, fones de ouvido e a voz da Joan Jett. Mas eu estava tenso. Não sabia quantos anjos eram. Se estavam mesmo na casa da Estela. E como exatamente eu tiraria Aurélia do poder deles.
Meu pai estaria lá?
Ah, que se explodam.
Não tenho medo de anjos.
No fundo, só servem para enfeitar árvores de Natal. E eu odeio o Natal e panetones.
Pulei a porteira branca da “Fazendinha”, como era chamada. Bati forte nas portas e rodeei a casa duas vezes, mas não havia ninguém.
Inferno!
Antes de xingar o mundo todo, notei o celeiro do outro lado do campo. Ótimo. Anjos, feno e galinhas soltando penas. Tudo farinha do mesmo saco.
Corri para lá.
Quando me aproximei, comecei a ouvir vozes... Ah, sim.
Parabéns, Félix Brian Maya. Acertou na mosca.
Você é o cara.
Me preparei para uma entrada triunfal, chutando a porta do celeiro e fazendo cara de pouco caso.
Mas, para o meu azar, fiquei um pouco surpreso, então minha expressão deve ter arruinado a cena.
Aurélia estava lá, como eu imaginava.
Mas não cercada por anjos.
Cercada por demônios.

CONTINUA

4 comentários:

  1. nossa o Fêlix é muito lindo, muito perfeito, acho que tenho uma quedinha, quase quedona ne?!

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  2. Cercada por demônios! Nossa, agora me pegou... Estou perdidinha na história. Mas ainda estou amando!!!!!! Esperando ansiosamente a continuação.

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  3. Aushaushaushaushaush
    Incrível como o Félix seduz as meninas... =)
    Aguardem, o próximo capítulo já está no forno!

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  4. Ameiii, eu tenho um tombo pelo Felix
    Mas fiquei bem surpresa com esse capitulo, ficou ótimo

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