terça-feira, 10 de abril de 2012

INFERNAL - 5


5.  DESAFIOS

- Félix?
Como eu já esperava, minha mãe estava no jardim dos fundos, cavando um buraco de sete palmos.
Me aproximei, com uma lata de energético na mão, observando-a.
O cabelo arruivado estava se soltando do coque elegante, o terninho cinza de advogada manchado de suor, e os saltos dos sapatos haviam afundado na terra.
Ri.
- Quem era ele? – Perguntei, divertindo-me vendo-a cavar.
- Culpado, e não conseguiriam provar o contrário.
Desde que minha mãe havia sido abandonada pelo meu pai (aquele anjo FDP) se dedicava a carreira de advogada. Ela fazia o possível e o impossível para manter criminosos fora da cadeia.
Isso mesmo que você acabou de ler.
Ela só pegava casos de caras culpados de crimes terríveis e quase sempre coseguia manipular o júri e as provas para que eles continuassem em liberdade. Brilhante.
Eu seguiria os passos dela se política não fosse um assunto que eu considero tão banal, e já bastante corrompido.
Quando minha genial mãe via que não conseguiria inocentar seu cliente, ela dava um fim nele.
O atraia até nossa casa sem que ninguém visse, o envenenava e enterrava no quintal. Aquele último era o quinto cadáver desde que morávamos aqui, se não me falha a memória.
- Qual o caso? – Perguntei, amassando a latinha de energético depois de esvaziá-la.
- Ciúmes – minha mãe me encarou ao pronunciar aquela palavra, com visível prazer. – Matou a esposa a facadas. Moravam em um trailer. Vizinhos como testemunha. Encontraram a faca no carro e temos o amante da mulher como testemunha. Impossível de inocentar. Quando ele não aparecer no julgamento amanhã, irão pensar que fugiu e iniciarão uma busca.
Ela terminou de cavar, e a ajudei a enterrar o homem. Aquele babaca era bem pesado.
Depois que entramos, ela se serviu de uma xícara de café e eu comecei a falar.
- Lembra da garota de quem eu falei? – Perguntei, como quem não queria nada.
- A mimada recém-chegada. – Respondeu ela, sorrindo. – Claro que lembro.
- Está em minhas mãos. – Sussurrei.
Antes que ela pudesse afagar meu cabelo e subir para encher a banheira de hidromassagem, dei a notícia ruim:
- Mas a garota anjo também está interessada nela. Quer salvá-la.
Os olhos da minha mãe se inflamaram.
Vermelhos, muito vermelhos, enquanto seus dedos começaram a ficar brancos ao redor da xícara de café, até que esta se espatifasse.
Mas eu não tinha mais três anos de idade para ficar assustado com a máscara de zangada da mamãe demônio.
- Félix Brian Maya – começou ela, andando devagar na minha direção. – O que eu te ensinei todos esses anos? Repita. Quero ouvir.
Revirei os olhos.
- Nós somos demônios. Odiamos os anjos e nunca deixaremos que se aproximem de nós.
Ela cruzou os braços, diante de mim.
- Isso mesmo. Eu consegui te proteger daqueles inúteis por quinze anos e seis meses, mas agora você terá que se cuidar. É com você. Não deixe que os anjos estraguem os seus planos, Félix. Você não quer acabar como eu.
- Eu já entendi. – resmunguei. – Coloque um piercing, faça uma tatuagem, mas jamais chegue em casa com um par de asas. Recado dado, mãe.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Não acredito que consigam com que você mude de lado, garoto. Me puxou. Jamais conseguiria ser um anjo. Seu lado negro é maior. Mas cuidado com essa garota, Félix. Sério. Os celestiais às vezes são muito espertos.
Lhe dei um meio sorriso.
- Mas os infernais são muito mais.

***

No dia seguinte, meu alvo não foi à escola.
Então não tive outra saída a não ser ir até a sua casa.
Com um crachá falso de uma floricultura, fingi ser um simples entregador.
Aurélia foi me atender após o chamado da empregada, e ficou bem assustada ao dar de cara comigo.
Vestia azul outra vez, e parecia que aquela garota não sabia fazer nenhum penteado além da traça de sempre.
- O que deseja? – Ela estava nervosa.
- Entrega para a madame.
Aurélia hesitou, mas acabou pegando as flores exóticas que eu trazia (umas rosas importadas que haviam custado uma nota preta).
Ela não se impressionou com o cartão (Dizia “Em comemoração a vida, e que a morte não se aproxime tão em breve”) e me encarou depois de colocar as flores de lado.
- Bem, obrigada pelas flores...
- Félix.
- Isso. Mas não preciso do seu sarcasmo.
- Não foi sarcasmo, querida. É a minha maneira de dizer “bem-vinda a Fatalville”.
Ela sorriu e se sentou no sofá.
- Bom, eu gostei daqui. – Ela fez uma pausa. – Sente-se.
- Já estou de saída. – Respondi. – Mas cuidado com essa cidade. Ela é pra pessoas que não têm medo de desafios.
Me virei e sai, sorrindo pra mim mesmo.
Se eu conhecia Aurélia pelo menos um pouquinho, logo teria uma resposta para aquela provocação.
E quando cheguei à escola no dia seguinte, rindo do meu patético amigo Derek, que tentava convidar uma garota que não usasse maquiagem preta que lembrasse um guaxinim para sair, tive a minha resposta.
Aurélia estava lá, com o cabelo pintado de roxo e uma sobrancelha erguida.
- Então... Quem tem medo de desafios agora?

CONTINUA

4 comentários:

  1. Tô gostando dessa nova série, muito boa mesmo!!!
    Já terminei a minha do V.X., agora é só ir pra segunda temporada.

    http://planetavx.blogspot.com.br/

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  2. Valeu, gente!
    :D
    E Michael, vou te mandar um e-mail sobre o seu blog e sobre o Concurso do Diário. ;)

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  3. Bem interessantes os contos! Venho acompanhando recentemente o blog (me tornei seguidor). Vi também seus contos mais antigos e notei uma melhora constante (o que para nós, escritores, é fantástico!)

    Eu e um colega iniciamos nosso blog esse ano, onde divulgamos histórias no mundo no qual lançaremos nosso livro no futuro. Acessa www.aferat.com

    Espero que aprecie nosso conto atual, AFERAT: A Princesa da Neve =)

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