terça-feira, 17 de abril de 2012

INFERNAL - 6



6. VODKA

- E agora você vai ficar de castigo. – Zombei, encostado no quadro de avisos.
Aurélia levou o canudo até a boca e bebeu um gole de Schweppes antes de responder.
- Digamos que o meu pai estava pedindo por isso. – Disse ela, me encarando. – E você também.
Cruzei os braços.
- Eu?
- Você disse o que todo mundo pensa, Félix. Que eu sou uma garota rica e certinha, do jeito que o meu pai quer. Mas não. Ele não me controla. Ninguém me controla.
Dei um meio sorriso, observando o movimento na cantina. Qualquer cara que pudesse estar interessado nela já havia perdido as esperanças ao ver a senhorita sofisticada conversando comigo.
Isso me fez dar um sorriso completo.
- Qual é a graça? –Perguntou ela.
A encarei, usando meu encanto de demônio.
- Você disse que ninguém te controla, e eu sou um cara controlador.  Talvez a gente se dê bem.

***
- Minha mãe morreu quando eu era pequena. Eu não tenho nem uma foto dela. – Dizia Aurélia, enquanto caminhávamos. – E meu pai me criou como uma boneca. Meus penteados, os vestidos. E depois ele começou a me deixar sozinha com os empregados para sair com vadias que tem a metade da idade dele...
Paramos, nos sentando na sombra de uma árvore do parque.
- Porque está me contando tudo isso? – Perguntei.
Ela deu de ombros.
- Sei lá. Tédio, acho. Não tem muito papo quando se está cabulando aula.
Olhei para o prédio da escola no horizonte. A ideia foi minha, claro, mas não imaginei que ela toparia tão fácil.
- E os seus pais? – Perguntou ela.
- Minha mãe é advogada. E meu pai deu no pé quando ela estava grávida. Não conheço o cara.
- Viu? Temos alguma coisa em comum. Sou órfã de mãe e você órfão de pai.
- Rá. Duvido que você odeie a sua mãe com todas as forças. Ela não caiu fora antes de você nascer.
 Aurélia me encarou.
- O ódio não torna as coisas mais fáceis, Félix.
Dei um sorriso amargo.
- Mas isso torna – eu disse, tirando uma garrafa de vodka da mochila e tomando um gole. – Está servida?
Aurélia sorriu e puxou a garrafa da minha mão, esvaziando um quarto de bebida e depois limpando a boca com as costas da mão.
- Uau. – Murmurei, com uma sobrancelha erguida.
- Faz um tempinho que eu não bebo. – Disse ela. – Meu pai começou a desconfiar que o estoque do bar estava diminuindo. Demitiu um empregado no mês passado.
- E você não se sentiu culpada? – Perguntei, testando-a.
Ela riu.
- Porque sentiria? Antes ele do que eu!
Dessa vez ela me impressionou.
Eu confesso.
Cabular aula e beber eram características que, embora pouco esperadas, podiam se adequar ao perfil de uma menina mimada que tentava pirraçar o pai.
Mas aquela falta de consciência, aquela maldade... Foi de merecer meu respeito.
Corromper aquela garota ia ser mais divertido do que eu pensei.
Afinal, condenar uma alma no meu rito de iniciação de demônio significaria arrastar uma alma humana para o caminho do mal, fazer coisas tão ruins crescerem dentro dela, que essa alma ficaria fora do alcance da salvação dos anjos.
- Você muitas vezes não sabe onde se mete, Aurélia Gaia Santoro.
- Ora, ora... Onde aprendeu meu nome completo?
- Isso não é segredo pra ninguém que tenha Facebook. E já que tocamos no assunto, não gosto do seu nome. É meio antiquado.
Ela riu.
- Concordo. Meu pai acha que “Aurélia” é sofisticado. Eu gosto, mas acho que tem vogais demais. – Ela fez uma pequena pausa. – Minha mãe me chamava de Lila. É uma das poucas coisas que o meu pai me contou sobre ela.
- Lila... – Eu disse, sentindo a palavra em minha boca. – É meigo demais. Mas é mais fácil do que Aurélia.
- Muito mais. – Concordou ela, pedindo com um gesto a garrafa de vodka.
***
Quando o sinal do final das aulas tocou, despejando alunos para fora do prédio, nos levantamos.
- Bem, é melhor eu ir. – Disse Aurélia, ajeitando a saia de linho cinza que era muito longa, para o meu gosto. – Alguém tem que contar ao meu pai que ele tem uma filha de cabelos roxos agora.
- Você usou suco de uva ou de beterraba para conseguir esse tom? – Perguntei, zombando.
- Um pouco dos dois. – Respondeu ela, sorrindo de volta.
Rapaz... Ela estava no papo.
Me inclinei para beijá-la antes que ela pudesse me deter, mas fomo interrompidos.
- Aurélia! Temos um trabalho de Economia pra quinta!
Me virei, sentindo meus olhos se inflamarem. Era Estela, o anjo. Ela acenou sorrindo para Aurélia, e me de um breve olhar de advertência.
Automaticamente, segurei o braço de Aurélia.
- O que foi, Félix?
A encarei.
- Você conhece a Estela?
-É... Ela é legal. A única pessoa que foi simpática comigo nessa escola e que não parece querer o meu dinheiro... Ai, me solta!
Apertei mais ainda o braço dela, encarando-a ainda mais de perto e sussurrando:
- Não quero você perto dela, ouviu bem?
Aurélia me encarou, incrédula.
- Qual é o seu problema, cara? Me solta!
A soltei bruscamente, me xingando mentalmente por perder o controle assim.
Ela pegou a mochila e me deu as costas, depois de acrescentar:
- Ás vezes você me assusta, Félix.

***
Cheguei em casa antes da minha mãe, coisa rara.
Enquanto eu percorria os canais inúteis da TV a cabo, alguém tocou a campanhinha.
Me preparei para levar os biscoitos que uma menina sem teto sempre ia buscar.
Não me orgulho disso.
E detesto admitir que também tenho um lado “anjo”, que sente vontade de ajudar as pessoas e fazer o bem.
É um defeito para corrigir.
É apenas parte do gene do meu pai, que vai desaparecer quando eu for um demônio completo.
Combinei com a garota que eu lhe daria biscoitos e sanduíches todos os dias se ela os usasse para fazer inveja para as outras crianças mendigas.
Mas quando abri a porta, não era a menina.
Era um homem que eu reconheci na hora, apesar de nunca tê-lo visto.
Primeiro, porque ele era detestavelmente parecido comigo, apesar dos olhos azuis e cabelo mais claro. Segundo, porque minha mãe já havia me avisado sobre a possibilidade daquela visita, então não fiquei muito surpreso.
- Oi, pai. – Eu disse, estreitando os olhos e cruzando os braços. – Como estão as coisas lá em cima?

CONTINUA

6 comentários:

  1. essas serie esta cada vez melhor ,estou amando,espero anciosa cada parte.
    bjinhos
    http://mirrorofthefeelings.blogspot.com.br/

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  2. "Como estão as coisas lá em cima?" heheha eu ri dessa frase. Sinal de que o caldo vai ferver no próximo capítulo.

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  3. nossa ta muito show! muito perfeita eu quero muito ler o próximo capitulo! e a serie Diário de uma Bad Girl? quando voce vai continuar?

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  4. #Curiosa pela próxima parte
    a serie ta muuuito boa
    e em cada postagem me apaixono mais pelo Felix

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  5. Obrigada a todos pelos comentários!
    Fico muito feliz por estarem gostando da série, é muito gratificante pra mim.
    Prometo me empenhar cada vez mais, para atender as expecativas dos leitores, o que pode ser um desafio, mas deixo o nosso querido Félix agir por si só, e veremos o que acontece... :D

    Quanto a série DIÁRIO DE UMA BAD GIRL, ainda não tenho uma previsão concreta para a sua continuidade, mas espero começar a publicá-la assim que INFERNAL for encerrada.

    Um grande abraço a todos!

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