sábado, 21 de abril de 2012

INFERNAL - 7


7.  SACRILÉGIO

Ele me olhou com uma expressão serena, o que me irritou ainda mais. Olhos azuis. A cor dos hipócritas.
- Vejo que você já esperava por mim. – Comentou ele, me encarando. – Vai me convidar para entrar?
Me encostei no batente da porta, bloqueando a passagem.
- Não. Eu tô bem aqui.
Ele deu de ombros, parecendo confortável ali mesmo.
Balancei a cabeça reprovadoramente, semicerrando os olhos. Anjo ridículo, com aquele terno cinza e gravata de seda azul, pensando que é o cara, um favoritinho de Deus.
- Bem, Félix... Você logo terá dezesseis anos, a idade em que terá que escolher o seu caminho.
- Conta uma que eu não sei! – Digo.
Ele franziu o cenho.
- Acredite, você não sabe de muita coisa. Tudo o que você conhece sobre a luz e as trevas é o que sua mãe lhe disse. E Eveline é uma mulher amargurada, Félix. Tudo o que ela diz...
- É a mais pura verdade. – Respondi, raivoso.
A ira circulou até o meu cérebro, fervendo meu sangue. Como ele se atrevia a mencionar o nome da minha mãe, depois de tudo o que havia feito com ela?  Otário.
- Você a abandonou – continuei. – A deixou grávida e sozinha, sem ninguém no mundo. E agora vem até aqui, e se atreve a tentar me colocar contra ela? Que bom que você tem essa boiolice de anjo para te esconder. Porque um homem que faz isso não é macho, tá ligado? É um covarde. Um perdedor.
Ele ergueu uma sobrancelha, e ficou mais clara que nunca a nossa semelhança física. Aff...
- Antes que você possa se exaltar, saiba que não vim até aqui para colocá-lo contra Eveline. Só acho que deveria escutar os dois lados da história.
- Por onde você quer começar? Pelo Jardim do Éden? – Eu ri, trincando os dentes. – Se começar com esse papo, meu caro, vou bater essa porta no seu nariz. Faço isso em todas as manhãs de domingo, quando as testemunhas de Jeová batem aqui.
Ele sustentou meu olhar.
- Houve falhas na sua educação.
- Quem é você para opinar? Não participou dela.
Ele suspirou.
- Como eu já disse, está mais do que na hora de você entender os dois lados da história, ao invés de se prender à ótica da sua mãe e tomar partido das dores dela.
- E devo tomar partido das dores dos anjos, imagino? – Perguntei, sarcástico.
Ele balançou a cabeça, parecendo estar ficando cansado daquele papo, quando ouvi a voz da minha mãe.
- Augusto? – ele se virou, e eu vi minha mãe se aproximar, derrubando uma sacola de papel no chão, de onde rolaram vários tomates.
Ela o olhou, paralisada.
Eu nunca tinha visto minha mãe assim, sem nenhum ar de sarcasmo ou superioridade. Eu não tinha ficado surpreso ao ver meu pai ali, então porque ela estava?
- Eveline... – Eu não podia ver o rosto dele, mas deduzi que ele também estava surpreso. – Depois de tantos anos...
Os dois se aproximaram, devagar.
E quando eles estavam cara a cara, esquecidos da minha presença, foi que eu saquei: ela ainda o amava.
Foi como um soco no estômago.
Depois de tudo o que ele havia feito, apesar de todo o ódio, minha mãe ainda amava o meu pai. Minha raiva aumentou ainda mais.
- Se afaste dela! – Gritei, antes que pudesse me conter.
Mas eles me ignoraram.
 - Você é exatamente como eu me lembro. – Murmurou ela. – E eu? Agora eu sou uma mortal. Sem poderes, fraca. Tenho que pintar a raiz do cabelo se não quiser fios brancos crescendo.
Que porcaria de drama era aquele?
- Eveline... Você sabe que eu não tive escolha...
Não aguentei e dei um passo a frente, puxando-o pelo ombro para que me encarasse.
- Escute aqui, não se atreva a jogar essa historinha pra cima dela! Seja macho, meu. Porque não me enfrenta?
Ele franziu a testa novamente.
- Sua coragem não te torna mais forte, filho. Você ainda não tem poderes suficientes para me enfrentar.
Meus olhos esquentaram como brasa, e eu sabia que estavam ficando vermelhos.
- Engano seu, pai.
Saquei o canivete que sempre levava no bolso, e em um movimento que o anjo não esperava, fiz um corte fino e profundo no rosto dele.
Ele recuou, e quando o sangue dele pingou no chão, um relâmpago cortou o céu.
Mano, estou ferrado.
Eu havia acabado de cometer o maior dos sacrilégios contra um anjo poderoso. Derramar sangue divino? Sentença de morte.
É melhor o demônio aqui dizer adeus a todas as suas fãs... Nos vemos no inferno, minhas caras.

CONTINUA

2 comentários:

  1. nossa meu Deus!!! como você consegue escrever coisas tão perfeitas?! to muito curiosa para ler a próxima parte!

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  2. Ameiii
    Nossa esse capitulo realmente me surpreendeu,ficou muuuito bom
    A serie esta ficando cada vez melhor
    parabéns

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