domingo, 22 de abril de 2012

INFERNAL - 8


8.  GATO MALHADO

As consequências dos meus atos acabaram sendo menores do que eu esperava.
Assim que eu baixei meu canivete, as asas do anjo se desdobraram.
Essa é uma coisa engraçada sobre os anjos. Quando estão na Terra, podem ocultar as asas deles. O meu pai resolveu mostrar as dele como uma advertência, para me lembrar de quem ele era.
Grande porcaria.
Eu não me amedrontei. Mesmo sabendo que tinha provocado a ira dos céus, estava furioso demais para me importar.
Ele me encarou, enquanto o corte em seu rosto fechava e desaparecia em questão de segundos.
- Talvez seja tarde demais para você – disse ele, simplesmente. – Talvez já esteja dominado demais pelas trevas para que possa mudar de lado.
Eu sorri e ia perguntar se agora ele e sua turma de divindades iam me deixar em paz, mas minha mãe falou antes de mim.
- Claro que está! Ele é o meu filho, Augusto. Um demônio. Você não vai tirar dele o que tirou de mim.
Ela voltou!
Sua postura sarcástica e sensual tinha voltado, pelo menos.
- Félix pode escolher – foi a resposta do meu pai. – Mas é melhor que ele saiba que, se escolher ir para as trevas, terá que me enfrentar.
- Do mesmo jeito que estou fazendo agora? – Desafiei.
Ele estreitou os olhos.
- Dessa vez, deixarei sua afronta passar. Você é apenas um mortal oscilando entre as duas realidades. Mas, a partir do momento que escolher o caminho dos demônios, será a minha função te destruir.
Tá bem... Confesso que senti um arrepio.
Então era assim? Eu teria que lutar contra aquele anjo em um campo de batalha? Ok. Assim teria a oportunidade de me vingar, destruí-lo de uma vez. Ou morrer tentado...
- Recado dado. – Respondi, trincando os dentes.
Ele nos deu as costas, se afastando.

***
Entrei no meu quarto, chutando a cômoda e tudo o que eu encontrei pela frente.
Eu estava mais do que irado.
- Você vai ter que lutar, Félix! – Gritava minha mãe, do outro lado da porta. – Ele sabe que você não vai passar para o lado dele, nem dar corda para a garota que colocaram atrás de você, então vai tentar te destruir! Será sua chance de vencê-lo...
- Cale a boca, mãe! – Gritei. – E em vez de ficar me dando conselhos, porque não tenta não ficar babando por ele feito uma trouxa da próxima vez?
Eu ouvi um rosnado irritado e passei a tranca na porta. Resolvi pular a janela antes que ela pudesse abrir a porta e me alcançar com suas unhas de gárgula.
Aquela mulher podia ser minha mãe, mas também era um ex-demônio.
Eu sabia que ia pagar caro por aquele atrevimento.
E por enquanto, só queria me divertir.

***
Mas o que essa vadia está fazendo aqui?
Me perguntei, olhando frustrado para Estela, que saia da casa de Aurélia, indo para o portão. Pulei da árvore onde estava para o chão, sem fazer barulho.
Quando ela passou por mim, a puxei por um braço para onde eu estava, tampando sua boca para que não gritasse.
Ela arregalou os olhos de susto, e tentou lutar, mas se acalmou quando percebeu que era eu.
Reação errada.
- Meu Deus! Você quase me matou!
- O que você está fazendo aqui, Estela?
Ela me encarou.
- Aurélia me convidou! Sempre estudamos juntas. – Ela me olhou com um leve ar de superioridade. – Somos amigas. Ela confia em mim. Eu vou salvá-la.
Dei um riso seco, que mais parecia um rosnado.
- Não se eu chegar primeiro.
Estela suspirou.
- Félix, já te disse para não interferir... Ou meu irmão vai dar um jeito em você. Eu te dei uma chance de entrar pro nosso lado...
Ah! Anjos ridículos...
- Nem pensar. – Interrompi. – Estou muito bem como estou. Meus planos para Aurélia são melhores que o seu, garanto.
Ela me encarou.
- É mesmo? Já que você se recusa a ceder, vou ter que tomar uma atitude.
Estela tomou fôlego, e começou a gritar pelos seguranças.
- Cala a boca! – Berrei, tentando tampar a boca dela.
E a desgraçada me mordeu!
- Filha da...!
Ok. Não tive outra escolha.
Invoquei meus poderes de demônio ao máximo, a prendi contra a árvore e a calei com um beijo.
Nem se atreva a pensar que estou cedendo!
O gosto puro dela não me agrada.
Mas eu precisava calar a boca dessa menina, não é?
Meus poderes de demônio causaram uma sensação de adrenalina nela, como se estivesse em uma montanha russa.
Por isso todas as garotas amam Félix Brian Maya.
Quando a soltei, Estela estava tontinha, sem fôlego.
Não esperava por essa, não é, santinha?
- Félix...
- Shh... – A encarei de perto, mesmo tendo horror daqueles olhos azuis. – Vá para casa, Estela.
Ela me deu as costas, meio zonza.
Que anjo fraco colocaram atrás de mim!
Aquele pessoal lá de cima as vezes parece que não pensa.

***
Dei um jeito de subir até a janela  acesa do terceiro andar, e acertei em cheio: era o quarto de Aurélia.
Ela estava sentada na cama, lendo um livro, a TV ligada em um volume baixo.
Fiquei observando-a por alguns segundos, rindo por dentro do cabelo roxo que ela usava agora. Tinha ficado legal.
Dei uma batida de leve no vidro da janela.
Ela levantou os olhos, e ficou congelada de susto ao me ver. Sorri, e ela lentamente levantou da cama e foi até a janela, abrindo-a.
- Você é louco mesmo! Quer morrer, Félix?
Pulei silenciosamente para dentro do quarto aconchegante.
- Hoje não.
Ela me olhou torto.
Percebi que ela usava uma camisola preta surpreendentemente sensual, deixando bastante pele à vista. E logo tratou de cobrir isso com um roupão azul claro.
Considerei isso uma afronta pessoal.
- Então... Porque você está aqui? – Perguntou ela, cruzando os braços.
- Eu queria me desculpar pelo meu comportamento de hoje. – Comecei tentando soar sincero. – Você é livre para andar com quem quiser. É que não gosto da Estela.
- Porque?
Dei um suspiro triste, bastante convincente.
- Aurélia... Você é uma garota mimada, convencida... Mas ao mesmo tempo... Você é tudo! Tão divertida, tão livre...e viva! Eu não queria que você caísse no mundinho das garotas convencionais e superficiais de Fatalville.
Ela me encarou em silêncio por um breve momento.
- Ah, Félix...
Ela me abraçou, e eu sorri pelas costas dela.
Esse é o truque.
Quando bancar o durão não conquista a garota, se faça de coitado. Eu sou irresistível, então funciona sempre, de um jeito ou de outro.
- Hei, Lila... Continue a ser sempre do jeito que é. Não mude nunca.
- Não pretendo mudar. – Respondeu ela, se afastando e piscando um olho castanho.
Olhei ao redor.
O quarto dela não tinha cartazes de caveira nem coleções de bonecas Barbie. Era equilibrado.
Apanhei o livro que estava na cama.
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Jorge Amado.
- Isso não é pra criança?
Aurélia deu de ombros, se sentando em uma poltrona.
- Eu lia quando era criança, mas a linguagem e as metáforas são mais para adultos. E também tem muitas críticas sociais.
- É sobre o que? – Perguntei.
- Sobre um gato durão, que todos achavam que era mal, e o romance dele com uma alegre andorinha, que se recusava a vê-lo como todos os outros.
- E ele a devora? – Pergunto, me sentando na ponta da cama.
- Não. Ele se sacrifica por ela.
- Que idiotice! – Digo, deixando o livro de lado. – É mesmo para crianças.
Aurélia ri.
- Eu gosto. É bonito acreditar que ainda existam amores sem interesses.
Eu a encarei, sem dizer nada.
Fiz um sinal para que se aproximasse. Ela sorriu sem pudor, e praticamente se atirou nos meus braços.
Garota levada.
A beijei gentilmente, mas Aurélia é radical até mesmo nos beijos. Realmente foi interessante quando ela mordiscou meu lábio inferior.
Não usei meus poderes para dominá-la, mas sim para vasculhar sua mente, descobrir o que ela sentia, o que queria...
E então senti uma presença ruim na casa.
Interrompi o beijo, tentando localizá-la.
- O que foi? - Perguntou Aurélia, se recompondo.
- Seu pai está em casa? – Perguntei.
- Está – Respondeu ela, revirando os olhos. – Ele e uma piriguete que ele trouxe não sei de onde. Um dia ele ainda vai se arrepender de ficar trazendo essas piranhas pra casa!
Aquilo me deu uma ideia divertida.
Me levantei, abrindo a janela.
- Vem. Vamos espionar um pouco!
Aurélia me olhou, incrédula.
- Como é? Esquece, Félix.
A encarei.
- Ah, por favor, Andorinha – murmurei. – Venha com o seu Gato Malhado.
Ela cruzou os braços, mas estava sorrindo.
Eu já sabia que ela ia ceder.

CONTINUA

5 comentários:

  1. Muito obrigada pela visita, amo muito suas histórias e contos, você tem um talento enorme para escrever, parabéns tenho certeza que você ainda irá lançar um livro que fará muito sucesso, bjs

    ResponderExcluir
  2. Amei, estou acompanhando e já votei que estou viciaaada ! Também gosto de escrever, mas prefiro pequenas histórias... Se você puder, dê uma olhadinha no meu blog, veja se você curte algumas histórias minhas, obg.

    ResponderExcluir
  3. Estou amando muito,fico louca esperando cada capitulo...
    Felix é d+

    ResponderExcluir
  4. Ah, muito obrigada, meninas! ;)

    ResponderExcluir