terça-feira, 1 de maio de 2012

INFERNAL - 11



11. Nas Garras do Demônio

 Demônios vêm, demônios vão.
Conheci alguns durante minha vida, a maioria amigos da minha mãe.
Sempre invejava a maneira que descreviam as maldades que haviam feito, os anjos que haviam destruído, e percebia o quanto se divertiam por aí.
Olhei com calma a cena no celeiro.
Não era possível. Meus olhos deviam estar me enganado.
Aurélia estava jogando pôquer com quatro demônios, enquanto Estela e o irmão dela estavam amarrados e amordaçados em um canto.
- Hei! – Exclamei. – Que porcaria está havendo por aqui?
- Félix! – Aurélia se levantou, mas um olhar severo de um dos demônios sentado na mesa a fez se sentar de novo.
Encarei os membros daquele grupo bizarro.
Os demônios, três caras e uma garota, se vestiam como uma gang punk ou algo do gênero. Reconheci um deles.
- Apolo – suspirei, encarando-o.
Ele levantou os olhos das cartas que estavam sobre a mesa, e colocou o charuto de lado.
- Fala aí, Félix. Como está Eveline?
- Mais louca que nunca por causa dos assuntos do tribunal. – Eu disse, puxando uma cadeira.
Ele riu, e todos eles continuaram a jogar despreocupadamente.
- Você conhece eles? – Pergunta Aurélia, perplexa.
- Só o Apolo. – Respondo, ascendendo um cigarro e imaginando qual seria o meu próximo passo. – Hei, os anjos estavam sem apoio? – Pergunto, olhando para Estela e o outro cara.
Todos se voltaram para mim no mesmo instante.
- Anjos? – Perguntou a garota. Ela tinha o cabelo loiro muito claro e usava uns cinco quilos de maquiagem, além da roupa roxa e do coturno. Deveria apresentá-la ao Derek, pra sacanear. – Há anjos em Fatalville?
Ergui a sobrancelha.
- Aqueles dois ali atrás?
Os demônios gargalharam.
- A menina e o pivete? Dois otários, mas de anjos não têm nada. – Respondeu um dos demônios, que usava o cabelo espetado.
Apolo riu.
- Ah, Félix! Se deixou enganar por causa dos olhos azuis deles, os cabelinhos loiros?
Me ergui, me encaminhando até Estela e arrancando a mordaça dela.
- Qual é a sua, garota?
- Felix! – Ela me olhou, apavorada. – Eu e o meu irmão trouxemos Aurélia até aqui. Tínhamos um plano. Íamos fingir que ela foi sequestrada e depois salvá-la, mas esses caras apareceram e...
- Cala a boca. – Eu disse, dando as costas a ela, irritado.
O irmão dela, um cara do terceiro ano que eu não me lembro o nome, arregalou os nojentos olhos azuis e murmurou alguma coisa por baixo da mordaça. Ignorei. Nessa história ele é um personagem sem fala.
Os demônios ainda estavam rindo às minhas custas, e eu comecei a ficar realmente irado. Como eu pude ser tão cego? Estela se fazia de santa e tinha olhos azuis. Só isso. Ela conseguiu enganar até a mim com aquela aparência de pura.
O tempo todo ela só queria o dinheiro de Aurélia. Ela e o irmão dela planejaram isso, e ela chegou a me convidar para participar da jogada.
Conclusão: era mesmo só mais uma nerd apaixonada por mim. Novidade!
Me voltei apara a mesa de pôquer, onde todos jogavam novamente, menos Aurélia, que me encarava.
- Félix... Que papo é esse?
Cruzei os braços, sem dizer nada.
- Hei, garota, é a sua vez! Jogue logo! – Disse o terceiro demônio, um cara ruivo e magricela.
Aurélia revirou os olhos e colocou uma carta qualquer na mesa.
- Vou levar Aurélia comigo. – Eu disse, calmamente.
Eles pareceram não ouvir, até que Apolo se virou para mim, soltando a fumaça preta do charuto.
- Nem vem, Félix. Nós a pegamos. Depois que o pai dela entregar a grana, vamos nos mandar. Ela é divertida demais para ficar em Fatalville.
O cara de cabelo espetado sorriu.
- Acha que só você se sente atraído pelo desespero dela? Ela é irresistível para qualquer demônio.
Eu sorri.
- Pode ser. Mas eu vou levá-la e ponto final.
Como eles me ignoraram, passei pela mesa e ergui Aurélia pelo braço, puxando-a comigo.
Apolo suspirou e se levantou.
- Garoto, eu gosto pra caramba da tua mãe. Mas se você começar a folgar, vou ter que te dar um trato. Agora devolve a menina e vaza.
Bocejei, dando as costas a eles e levando Aurélia para a direção da porta.
- Pode tentar me dar um trato, então.
Ouvi os outros três demônios se levantando atrás de mim. Aurélia tremia feito uma vara verde ao meu lado, e quando estávamos a apenas três passos da porta, escutei o “click” do gatilho.
O mais depressa que meus reflexos permitiam, empurrei Aurélia para trás de um monte de feno e atirei com a arma do pai dela, acertando Apolo no braço.
Eu os havia pego de surpresa, mas agora ia ter que encarar quatro demônios furiosos. Bravo pra mim.
Acertei Apolo outra vez, e o cara ruivo veio na minha direção, me empurrando contra a parede do celeiro.
O chutei com força, e com certo esforço consegui me livrar, mas ele fez com que a minha arma voasse longe.
O cara de cabelo espetado começou a atirar, e eu me joguei atrás do feno, junto com Aurélia.
Estela gritava.
- Eles acertaram a Estela? – Perguntou Aurélia.
- E quem se importa? – Indaguei, tenso.
- Eu me importo. Não quero ser a próxima. – Sussurrou ela.
Pararam de atirar, e eu me levantei devagar.
O ruivo e o outro me encaravam, com olhos vermelhos. Apolo tinham caído em algum lugar, e não havia sinal da mulher.
- Ok, pessoal! Estamos do mesmo lado, lembra? Amigos demônios! – Eu exclamei, tentando ganhar tempo.
Era uma idiotice, de fato. Um demônio não tem amigos.
- Você não é um demônio, cara. – Diz o ruivo. – Pelo menos, ainda não.
- Não acha que eu vou virar um anjo, né? Fala sério! Olha pra mim! – Eu disse, chegando a sorrir.
O ruivo meio que assentiu, mas o do cabelo espetado ainda segurava a arma.
- Não me interessa o que ele é. Encrencou com a gente, mano.
- Escute bem, mano. Minha mãe pode não ser mais um demônio, mas Eveline Maya ainda é um nome respeitado lá embaixo. E meu pai tem um par de asas. Se me acontecer alguma coisa, os dois irão atrás de vocês. Chato, né?
Era uma mentira deslavada.
Não a parte da minha mãe, mas o meu pai... Se eu morresse seria no mínimo um alívio para ele.
Mas... Espere aí.
Eu ainda tinha uma carta na manga.
Eu era filho da droga de um anjo, não era? Meus poderes sozinhos jamais deteriam esses demônios, mas eu conheço alguém que pode.
- Nem pense nisso! – Disse a mulher, aparecendo do nada ao meu lado.
Ela me ergueu meio metro do chão pelo pescoço, com uma mão só.
Caramba! Essa vadia não é fraca, não!
Então era isso.
Eu ia morrer enforcado e minha última visão seria o decote cavado da demônio punk?
- Hei, gatinha – sussurrei, me esforçando para respirar. – Me dá seu telefone primeiro. Te ligo do inferno.
Ela gargalhou, os olhos vermelhos. Começou a apertar ainda mais minha garganta...
Já era. Droga.
Eu estava quase fechando os olhos, quando houve um barulho estrondoso, e de repente eu estava no chão.
Aurélia correu para o meu lado.
Olhei ao redor, zonzo.
Havia um enorme buraco no teto do celeiro, por onde a chuva entrava.
Um relâmpago lançou um clarão momentâneo, iluminando três vultos diante de nós, desdobrando as enormes asas brancas.
Sorri, levantando as sobrancelhas.
Os anjos haviam chegado.

CONTINUA

4 comentários:

  1. Muuuito Muuuito bom mesmo
    Ameiiii
    Nunca imaginava que isso aconteceria, e muito menos que os anjos chegariam
    A cada capitulo fico mais surpresa
    estou curiosíssima pelo que vai acontecer com a Aurélia e o Félix, e se ele vai virar ou não um Demônio
    Surtando aqui pela próxima postagem

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  2. Ah...
    Valeu, Súh!
    Segura o coração!
    Aushaushaushaushaushaush

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  3. ele vai querer virar um anjo? muita curiosidade!

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  4. Vai saber, né...
    Nem eu sei o que o Félix quer dessa vida!
    Rsrsrsrsrsrs

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