quinta-feira, 3 de maio de 2012

INFERNAL - 12


12. Pressão

Os três anjos cegaram os demônios com a luz que traziam. Até eu me encolhi.
Não prestei muita atenção no que aconteceu. Só sabia que um deles era o meu pai. Aquela briga não era minha, não me interessava.
Só fui até Aurélia e a puxei para fora do celeiro com dificuldade, já que ela estava totalmente besta com o desenrolar das coisas lá dentro.
Chovia pra cachorro, mas insisti em arrastá-la para longe daquela pequena batalha.
Os anjos estavam brandindo espadas celestiais. Isso é pra se achar, né? Eram as únicas armas que podiam “matar” um demônio. Digo isso entre aspas porque demônios são imortais.
Morrer na terra significa voltar às origens, lá pra baixo, se é que você me entende. E demora um pouco para que você consiga reaparecer por aqui para se vingar. Às vezes leva séculos.
Para a minha surpresa, Aurélia não fez perguntas enquanto eu a arrastava para fora da fazenda. Talvez houvesse entendido que eu não iria explicar nada. Ou tivesse ficado louca de pedra depois do que viu.
Nem eu posso culpá-la, vai.
- Podemos chamar um táxi? – Perguntou ela, encharcada dos pés a cabeça, tirando uma mecha de cabelo roxo ensopado do rosto.
- Esquece, garota. – Respondi. – Você está saindo com um cara duro.
Ela sorriu, e eu a convenci a subir nas minhas costas, só para fazê-la implorar para que eu parasse de pular nas poças de lama e girá-la, enquanto eu gargalhava até ficar sem ar.
Parei bruscamente quando percebi que o meu pai estava parado poucos metros à frente. Dessa vez ele usava apenas jeans e camisa polo azul, como um cara normal.
Isso, claro, se não fossem mencionados os cinco metros de plumas brancas em suas costas.
Meu sorriso sumiu.
- O que quer? – perguntei.
Pela primeira vez, meu pai sorriu aprovadoramente pra mim. Então minha ficha caiu: ele achava que eu o tinha chamado para salvar Aurélia dos outros demônios.
- Espere aí! – Eu disse, soltando Aurélia e a deixando cair na lama. Ela me xingou, mas não dei bola. – Não é o que você está pensando, falou? Você faz o seu trabalho e eu faço o meu. E quando eu puder, vou tirar vantagem disso.
Ele apenas assentiu, sem se alterar.
- Você escolhe o seu caminho, Félix. Mas arrisco dizer que isso está tomando um rumo diferente daquilo que eu imaginava...
- Dane-se. – Respondi, sempre na defensiva.
- E você está certo, sempre pode me chamar. – Continuou ele, sem se deixar abalar pelo meu “dane-se”.
- Ah, claro que vou chamar quando eu estiver a fim! – Respondi, trincando os dentes. - Isso é o mínimo. Você nunca me pagou uma pensão, pai.
Me virei para Aurélia, que ainda estava no chão, olhando boquiaberta para o meu querido pai, cuja camisa molhada grudava no corpo.
- Vamos, Lila. – Eu disse, puxando-a do chão.
Percebi as asas do anjo se abrindo, e ele alcançou voo, na direção do céu que se abria. Aurélia ficou olhando. Eu não. Só lamentei não carregar mais comigo o meu estilingue de matar passarinhos.
- Seu pai? – Perguntou ela, incrédula.
- Surpresa? – Indaguei, puxando-a para o meu lado e abraçando-a enquanto caminhávamos.
Isso foi um gesto possessivo, claro.
Ela se enganou pensando que eu queria protegê-la.
- Você fala pouco sobre a sua família. – Comentou ela.
- Ou talvez você fale muito sobre a sua. – Argumentei. – O que vamos fazer agora? A chuva está parando.
- Sei lá. Tenho que avisar o meu pai que estou viva. E que ainda tenho as duas orelhas.
Eu sorri, ascendendo um cigarro com um isqueiro.
- Boa. Tenho que avisar minha mãe que atirei em um amigo dela.
- Hei, Félix?
- O que?
- Os seus olhos... estão azuis.
Dei de ombros, olhando para a estrada a minha frente.
- Eu sei, garota. Eu sei. Só não se acostume...

***
Entrei em casa e me livrei do jeans e do casaco no hall. Eu estava ensopado até os ossos. A casa estava escura.
Testei o interruptor: sem energia.
Que ótimo. Sem TV.
- Mãe? – Chamei.
Tinha uma fraca luminosidade vindo da sala, provavelmente a lareira acesa.
Quando atravessei o corredor, senti um cheiro sugestivo: enxofre. Aí tem coisa.
Uma mulher saiu da sala, parando diante de mim. Só que não era a minha mãe. Era a loira punk. Pelo jeito ela tinha escapado dos anjos.
- Oi, Félix – disse ela, em um tom casual.
Como se não tivesse tentado me estrangular na última vez que nos vimos. Acho que isso estava no livro de etiqueta dos endiabrados.
- E aí? – Respondi, erguendo o queixo.
Ela me olhou por um momento, talvez surpresa por me ver só de cueca samba canção e regata preta molhada.
- Você tinha razão. – Ela sorriu e me entregou um cartão suspeito. A cartolina estava quente ao toque. – Me liga.
Vi Electra (era esse o nome no cartão) sair pela porta da frente, e depois entrei na sala.
Minha mãe estava sentada em uma cadeira, olhando pela janela o dia nublado lá fora, e eu só podia vê-la de costas. Ainda vestia a roupa social que usava no tribunal. De novo aquele cheiro de enxofre...
- Hei, mãe...
- Félix – disse ela, se virando devagar. – Eu tenho uma surpresa.
No começo, não percebi a mudança. Mas depois que ela se aproximou do fogo, fiquei chocado.
- Caramba! – Exclamei.
Parecia que a minha mãe tinha rejuvenescido uns vinte anos. A pele estava lisa, sem nenhuma manchinha ou ruga, o cabelo estava parecendo ter saído de uma propaganda de xampu e os olhos dela tinham um brilho vermelho intenso e terrível.
Ela sorriu, e sem dizer nada, se abaixou perto da lareira, pegando nas mãos um punhado de fogo. O fogo dançou nas mãos e braços dela, sem fazer nenhuma queimadura.
- Eu voltei! – Exclamou ela, com chamas no corpo e cabelo.
- Como você conseguiu seus poderes de volta? –Indaguei, quase engasgando.
- Electra. Um demônio poderoso. Bastou algumas gotas de sangue...
- Como é?! – Gritei. – Você fez um pacto?
Ah, não.
Aquilo estava muito errado.
Minha mãe sempre me ensinou: quando um humano faz um pacto com um demônio, a alma dele queima para sempre no inferno depois do prazo que foi estimulado. E depois de ter perdido os poderes, minha mãe era considerada humana.
Como ela pode ter feito isso?
- Relaxe, filho. – Disse ela, apagando a chama e se erguendo. – Eu sei o que estou fazendo. Daqui cinco meses e pouco você será um demônio. Vai poder me livrar dessa. – Ela sorriu, passando por mim. Chegou a afagar o meu cabelo. – Vou fazer aquela torta que você gosta.
A vi ir para a cozinha.
Ela estava até cantando alguma coisa de uma década distante.
Ah, beleza.
Minha mãe compromete a alma dela para poder ter os poderes infernais outra vez e pedir a conta no tribunal, e fica nas minhas costas ter que salvá-la de queimar pra sempre.
Brilhante, Eveline.
Então agora eu não tenho escolha?
Ótimo.
Só que Félix Brian Maya não gosta de ser pressionado.
Isso não vai ser bom.
Não vai ser nada bom mesmo...

CONTINUA

Um comentário:

  1. ficou muuito legal
    tipo achei que ele iria virar um anjo, mas...

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