quarta-feira, 13 de junho de 2012

DIÁRIO DE UMA BAD GIRL (5ª Temp.) - 3


Terça-feira, 12 de Junho de 2012

“Diário”:

Eu não sei descrever o que anda acontecendo.
Pra começar, descobri que há outro morador na casa que eu invadi. Na noite em que cheguei, ouvi passos no andar de cima, e depois nas escadas.
Observei o vulto caminhar na minha direção, e rosnei quando ele chegou perto, em posição de ataque. Mas ele me deixou confusa.
Primeiro, porque não tinha o cheiro de um ser humano comum, nem de um vampiro, e nem cheiro selvagem de lobo. Segundo, porque ele não pareceu nem um pouco assustado ao me ver.
- A etiqueta manda que peçamos permissão para entrar em casa alheias. – Começou ele, tirando um fiapo minúsculo da blusa cinza de capuz que usava. Depois me encarou. – É o mínimo que uma pessoa civilizada pode fazer.
Não entendi aonde ele queria chegar, então exibi as presas, ameaçadora.
Ele franziu o cenho.
- Mocinha, em minha casa não se chega a lugar algum com esse tipo de selvageria. Então, se não quiser ser convidada a se retirar, sugiro que aja como gente, não como bicho. – Ele fez uma pausa. - Eu sou Michael.
Ele deu um passo na direção da pouca luz.
Era moreno e jovem, talvez mais novo do que eu, e um pouco mais alto. Mas havia alguma coisa nele que fazia meu estômago se retorcer. Como se meus instintos estivessem avisando que ele era mais semelhante a mim do que eu poderia imaginar, mesmo não sendo um vampiro.
Então eu entendi.
Ele era um meio sangue.
Olhei para a mão de Michael, que ele estendia na minha direção. Sem pensar no que estava fazendo, a apertei de leve.
- Stacy. – Sussurrei, já desacostumada a me apresentar.
Ele me olhou curiosamente, andando ao meu redor.
Eu nem respirava.
- Ora, ora... Então os mitos são verdadeiros. Você é um dos mortos, não é?
Não respondi, e ele não esperou que eu falasse.
- Mas olhe para você... Realmente parece uma morta. Tem sangue seco no seu queixo, sabia? E nas suas roupas. E as unhas estão sujas e quebradas. Não parece uma dama.
Dei de ombros.
Não me importava com a minha aparência. Eu sabia que podia aparecer em espelhos porque no banheiro da minha antiga cela havia um, mas eu nunca prestei muita atenção no meu reflexo. Para que?
A menina de olhos verdes (Helena? Madalena? Não me lembro agora...) sempre me levava roupas. As que eu vestia no momento eram dela, mas estavam sujas e a calça havia rasgado nos joelhos.
 Michael pareceu ler meus pensamentos, e deu um sorriso branco. Me perguntei como alguém tão limpo podia viver naquela casa imunda.
- Você tem o mesmo problema da maioria dos mortos, Stacy. São selvagens demais para se importar com algo além de sangue.
- E algo além de sangue importa? – Perguntei, encarando-o.
Michael riu.
- Ora, minha cara. Somos vampiros. Se não mantivermos nossa classe, como mostraremos nosso poder?
- Eu sou uma vampira. – Respondi. – Você não passa de um meio sangue.
Ele me encarou, sem sorrir dessa vez.
- O que te faz pensar que o fato de eu ser um meio sangue me torna mais fraco do que você? – Disse, se aproximando.
Eu me segurei para não recuar. Não tinha medo dele, mas meus instintos me alertavam outra vez.
Não brinque com ele.
- Eu também bebo sangue – continuou ele, se afastando. – E tenho instintos e reflexos. Vejo e escuto mais do que um humano. E posso sair no sol. E a água benta não me queima. O que você tem que eu não tenho?
Outra vez, não respondi. Eu era mais forte que ele, mas não podia negar que sair no sol sem sentir dor era uma grande vantagem.
Michael voltou a sorrir, observando minha expressão.
- Suba por aquela escada. – Ordenou ele. – Vire a esquerda e abra a segunda porta. Lá tem um quarto com banheiro. Se lave e vista roupas limpas.
Eu queria ir. Não por estar ansiosa para tomar um banho ou quisesse mudar de roupas, mas precisava me afastar dele para poder pensar melhor.
- Para que tudo isso? – Perguntei.
Michael juntou as mãos diante de si.
- Você está com sorte, Stacy. Vai aprender com o mestre. Suas aulas de etiqueta para vampiros começam agora.

***
Eu observava Michael na mesa de pôquer, do outro lado da rua deserta, repassando mentalmente todos os conselhos que ele me dera nos últimos dias.
O restaurante de luxo era cheio de “vitrines”, e eu podia vê-lo circular entre as pessoas, sorrindo e conquistando-as com poucas palavras. Ele havia substituído o moletom cinza habitual por uma roupa mais formal e provavelmente desconfortável.
Eu usava jaqueta e calças novas, e um sapato de salto nada prático.
Mas ele não me deixou entrar com ele.
Disse que se eu me descontrolasse, arruinaria tudo. Eu deveria apenas observar e aprender.
Mas aquilo tudo já estava me cansando.
Estava claro como ele enganava os humanos ricos e sorridentes, usando suas habilidades para trapacear no jogo e seduzi-los com palavras doces.
Mesmo assim, eu estava longe demais para escutar o que ele dizia. Então era fácil enjoar de assistir aquilo.
Michael dizia que aquilo era caçar com classe.
Para mim, era embolação.
No fim, ele escolheria um casal para acompanhar até o carro, onde os pegaríamos. Mas quanto tempo demoraria?
- Stacy!
Todos os meus músculos se paralisaram, e me voltei.
Era o Caçador.
Arreganhei as presas, mas ele se atirou na minha direção. Cheguei até a pensar que ele enterraria uma estaca no meu peito, mas apenas me abraçou.
Aquilo era ainda mais desconfortável que uma estaca, acho.
- Ah, Stacy... Graças a Deus! Como eu fiquei preocupado... Achei que tinha te perdido para sempre!
A garganta dele estava perto demais para ser ignorada.
Abri os lábios e senti o calor das veias dele pulsando, a sede me queimando por dentro. Precisava matá-lo, e agora. Não importava o que Michael me disse sobre ser discreta, ou se alguém iria ver.
Encostei minha boca no pescoço dele...

Posso sentir o coração dele bater. O desejo de posse se torna irresistível. Quero que Ross pertença a mim e a mais ninguém.
Passo os lábios pelo seu pescoço, ávida. As mãos dele deslizam do meu cabelo para a minha cintura. Minha vontade de tê-lo se torna incontrolável.

...E eu não consegui mordê-lo.
Diário idiota. Por algum motivo aquele trecho me veio a cabeça. Eu ainda não entendia o que significava a atração que eu descrevia antes.
A única coisa do Caçador que eu poderia desejar era o sangue, mas mesmo assim eu hesitei.
O que há de errado agora?
Aquele momento de confusão me fez perder a oportunidade de atacá-lo.
Ele se afastou e me encarou, segurando-me pelos braços.
- Venha comigo. – Disse ele. Não era exatamente um pedido. – Nada de celas dessa vez. Juro. Eu só quero que você fique segura, ok?
Me afastei bruscamente.
- Segura? Com um caçador? Eu não preciso de proteção. Se você imaginasse a vontade que eu estou sentindo de matá-lo nesse exato momento...
Então a expressão dele mudou. A atitude dele mudou, como eu nunca havia visto antes.
Ele ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.
- Então, mate Stacy Ricce. Eu exijo. – Ele piscou um olho. – Você sabe que não vai conseguir. Pode ser uma vampira morta, até irracional. Mas quando sentir o gosto do meu sangue vai lembrar... De coisas.
Balancei a cabeça.
- Você já era.
Ele se aproximou, com ar de desafio.
- Eu duvido. – Sussurrou ele. – Toda vez que você chegar perto de mim, Stacy, seu lado monstro vai perder para o seu lado mulher. Você tem medo do que eu posso te fazer sentir. E eu te digo: não tema, se entregue.
Aquele Caçador achava que podia despertar desejos humanos em mim? Essa era boa!
Gargalhei.
- Vá circulando, Caçador. – Eu disse, cruzando os braços. – Eu já tenho meus planos para essa noite. Não estrague.
- Sério? Eu ia te levar ao cinema. É dia dos Namorados, Stacy.
Que papo era aquele?
Ele ia jogar charme, ao invés de me ameaçar ou insistir para que fosse com ele? Por acaso aquele Caçador tinha a audácia de achar que eu não era de nada?
Dei as costas a ele e me dirigi para o restaurante, abrindo a porta de vidro com um estrondo. Agarrei a primeira pessoa que encontrei: um garçom.
Cravei meus dentes na garganta dele e suguei com força.
Ele gritou, e o restaurante inteiro se tornou um caos. Mas meus olhos estavam fixados no caçador, que me encarava do outro lado da rua, com a mandíbula cerrada.
Eu senti um fio de sangue quente escorrer pelo meu queixo, e em seguida arremessei o garçom contra a vidraça, quebrando-a.
O corpo inerte rolou pela rua, parando aos pés do Caçador, que continuou a me encarar.
Não sei por quanto tempo ficaríamos nos encarando, enquanto havia choro, correria e gritaria ao meu redor.
Só sei que Michael me puxou violentamente pelo braço.
- O que você fez, sua selvagem estúpida? Vamos sair daqui antes que eu mate você!
Ele me arrastou na direção da porta dos fundos, e eu me deixei levar.
Afinal, foi uma ótima noite. Eu tinha me alimentado, e deixado claro para o Caçador o que aconteceria com ele se cruzasse meu caminho de novo.

CONTINUA

4 comentários:

  1. adorei o capítulo. já estava sentindo saudades de ler o diário de uma bad girl.

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  2. adorei, quero muito ler o próximo capitulo

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  3. leitora nova amando seu blog, é simplesmente perfeitoooo!

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