quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ROSAS MORTAS


Não escolho a direção na qual caminho.
Normalmente, vou para onde sou solicitada, querendo ou não. Funciono como um ímã. Quem me solicita? Muitas vezes são as próprias pessoas, mas às vezes é apenas o destino, o acaso, ou algum desastre natural. E essa história que contarei agora começou com o último caso.
Mas antes, deixe que eu me apresente: eu sou a Morte. Um dia ainda nos encontraremos pessoalmente, pode apostar.
Era o começo de um novo ano. Aqueles primeiros meses azuis, que passam como um borrão diante de nossos próprios olhos. Então, fui chamada, solicitada urgentemente, em um país pobre da América Central.
Haiti. Era esse o nome. Já havia carregado almas naquele país, claro, assim como já levei comigo almas de todos os lugares do mundo. Mas nem toda a minha existência como carregadora de almas poderia fazer com que eu não me afligisse com tudo o que se passou.
Primeiro, o tremor. Não um pequeno tremor, mas o rugido de um monstro devorador sob nossos pés. Depois, a poeira que subiu até as nuvens. E, finalmente, a pior parte: os gritos. Dor, pavor, desespero.
Não se preocupe com os mortos. Deixe isso comigo. Garanto que eles estão bem, com suas almas cheias de luz sendo delicadamente erguidas em meus braços. É com os vivos que você e eu temos que nos preocupar.
Foram os vivos que conseguiram tocar meu coração negro. Eles corriam de um lado para o outro, sem nenhuma orientação. Uma mulher passou por mim. Tinha os cabelos brancos, mas não pela idade, e sim pelo pó dos prédios que foram ao chão. Ela gritava algo, com braços erguidos para o céu. No início, não compreendi o que dizia, pois sua voz estava trêmula e embargada pelo choro.
Mas não demorei muito para perceber o que ela dizia, repetidas vezes:
- Por quê?
Boa pergunta. Por quê?
Por que aqui, em um país que já sofre tanto com a fome e a miséria? Por que tantas coisas terríveis nas costas de um único povo? Por que agora? Por que com crianças? Qual é o motivo? De quem é a culpa?
As más línguas irão dizer que foi alguma espécie de castigo divino. Não acredite, por favor. Eu não posso lhe explicar os segredos que sei sobre Deus, mas essa ideia está completamente fora de cogitação.
Além das pessoas desesperadas que corriam pelas ruas, escavando destroços e gritando, ainda havia os feridos. Oh, céus! Os feridos!
Presos entre as ruínas, estavam entre mim e a vida. Essas são as cenas que eu não gosto de ver, não mesmo.
A vida segue ao lado da Morte, dizem sempre. Então por que todos têm tanto medo de mim? Você nasce, cresce e morre, oras! Não pode escapar disso. Ninguém pode.
Mas, coisa que eu nunca compreendi, foi porque tantas pessoas que tem tudo na vida, tantas chances de viver uma boa história enquanto pode, antes de cair em meus braços, acabam com tudo, suicidam-se, terminando seu tempo na terra, que para mim parece tão curto!
E outros, que já não tem mais nada em torno de si, nenhum motivo para ter esperanças, nenhum consolo, lutam até o fim pelo milagre de viver, esforçando-se por cada segundo para continuar respirando. É isto que eu vejo agora. Pobres coitados!
Uma lágrima escorre pelo meu rosto. E a Morte só chora diante dos maiores sofrimentos do mundo.
A verdade é que nunca vi sentido nas atitudes humanas. Se você pode ter uma boa vida, por que se entregar a mim tão cedo? E, se você está sentindo tanta dor, tanto desalento, para que prolongar isso continuando a viver?
São coisas que realmente não compreendo.
Um homem sujo e maltrapilho andou em minha direção, sem me ver. Carregava o corpo de uma jovem e bonita mulher.
- Minha esposa! – Exclamava ele. – Minha esposa está morta!
A dor dele parecia vir até mim, atingindo-me como um golpe físico. Queria pousar minha mão no ombro daquele homem, e dizer-lhe que sua querida esposa estava muito melhor agora, que eu a carregara quase amorosamente, aninhada em meus braços, como fiz com tantas outras almas naquele mesmo dia.
Mas não adiantaria nada. Ele não poderia me escutar. Mas um dia chegará a vez dele, e então irá compreender perfeitamente.
Havia muito choro e gente escavando nos entulhos, procurando sobreviventes e só encontrando corpos esmagados.
- Desistam. – Sussurrei para o vento. – Desistam da vida, essa tirana injusta. Me deem suas mãos. Sou a Morte, e nunca serei injusta com vocês. Isso é tudo o que posso prometer.
Avisto novamente a mulher de cabelos esbranquiçados. Não está mais ajoelhada gritando furiosa para o céu. Está escavando pelos destroços de uma escola. Ferindo os dedos entre as pedras de concreto e mostrando mais força do que aparenta ao afastar blocos e mais blocos, determinada.
Percebo, pelos movimentos de seus lábios, que ela estava murmurando algo. Uma prece. Uma oração diferente de outras que eu já vi.
Ela acreditava em Deus... E em si mesma.
E, deslumbrada, vi aquela mulher guerreira tirar um menino debaixo do entulho. Era magricela e tossia muito, mas não tinha nenhum ferimento.
Depois vieram três garotinhas, mais dois meninos, e mais uma porção de crianças magras, abatidas, assustadas... Mas vivas.
E, por fim, pegou em seus braços uma menina de olhos grandes e pele morena, que a mulher abraçou com força. E, para o meu espanto, os lábios daquela mulher que parecia tão dura se abriram em um dos sorrisos mais puros que meus olhos velhos já haviam contemplado.
A garotinha tossiu duas vezes, mas também abriu um sorriso com seus dentinhos de leite.
- Eu sabia que você viria, mamãe. – Disse a criança, dando um beijo na face da mãe. – Eu sabia e guardei isso para você!
A pequena ergue a mão direita, onde, amassadas e já sem perfume, sob uma fina camada de pó de concreto, estão duas rosas mortas, que um dia foram vermelhas e viçosas.
- Meu bebê! – Dizia a mulher, ao segurar a criancinha como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. – Meu bebê está salvo! Obrigada, Deus! Obrigada!
Oh, ironia do destino! A mulher que antes acusava as forças celestes de sua dor, e tão furiosamente a questionava, agora agradecia ao bom Deus, como se fosse a maior das afortunadas.
E, olhando para aquelas pessoas, algumas chorando suas perdas, outras abraçando seus filhos, outras escavando com esperança e dor misturadas no coração, um fato sobre o qual muito tempo venho refletindo parece clarear em minha mente.
A Morte, sem dúvida, é mais fácil do que a vida. Isso não é segredo. Mas os seres humanos não querem o mais fácil. Eles querem a felicidade, a vitória.
Por maiores que sejam os obstáculos que a vida lhes apresente, o importante é vencê-los para continuar a viver, e então, só quando tiverem realizado suas maiores conquistas em suas vidas, é que aceitarão a Morte sem se queixarem.
Parece que nunca existirá uma dificuldade em seus caminhos que eles não sejam capazes de vencer. Não quando estão determinados de verdade.
Lutem, então, se querem tanto vencer.
Mas eu repito: algum dia ainda nos encontraremos. Encarem isso como a única certeza de suas vidas.
Lançando um olhar de despedida ao cenário destruído, apenas tenho a percepção do sol a se por, e o céu fica triste e lindamente rosado. Já estou sendo solicitada em outros lugares no mundo. Ainda voltarei ao Haiti, pois o meu trabalho exige que eu esteja em todas as partes do mundo.
Mas, por enquanto, lhe lanço um adeus até o próximo.
E, vagarosamente, recolho as rosas mortas caídas no chão, que uma menina e sua mãe deixaram para trás.
Aspiro seu odor. Elas têm o meu cheiro, o cheiro da Morte.
As guardarei como uma lembrança.

***
Homenagem a todas as vítimas da catástrofe que atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro de 2010. Minhas mais profundas condolências. 
Que todos os Deuses as guiem para o recomeço. 
 

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