domingo, 7 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 1

1.Em Casa

O despertador pareceu soar mais alto e mais cedo do que o normal.
Coloquei a cabeça embaixo do travesseiro, tentando abafar o chamado insuportável.
Escutei Aurélia bocejando, depois ela desligou o despertador idiota. Então passou os dedos no meu cabelo, caçando o meu rosto por baixo da almofada.
- Hei, garoto. – Sussurrou ela. – Está na hora.
Abandonei o travesseiro e a encarei, ainda sonolento. Os sonhos na noite passada haviam atrapalhado meu sono. PQP.
- Você poderia dizer que está doente. – Proponho. – E que não vai poder ir ao colégio. Daí dormimos mais um pouquinho, e depois faço tudo o que você quiser, deusa.
Ela sorriu, mas balançou a cabeça negativamente.
- Félix, seu cachorrão... Pode esquecer. Fiquei “doente” ontem, lembra? Agora vai. Dê o fora antes que peguem você.
Fiquei deitado por mais alguns minutos enquanto Aurélia começava a se arrumar para o colégio, começando com o uniforme mais ou menos conservador.
Agora ela estudava em um colégio particular só de garotas, enquanto eu raramente aparecia na escola da quebrada.
O pai dela nem sonhava que passávamos quase todas as noites juntos nos últimos meses: eu chegava bem tarde e entrava pela janela, e na manhã seguinte saia bem cedo, antes que a arrumadeira entrasse no quarto e tivesse um infarto.
Mas hoje eu estava me sentindo exausto.
Gostaria de poder dormir por pelo menos mais uma hora. Mas se eu saísse e fosse para o trailer que divido com o babaca do Derek para tentar cochilar, não ia conseguir.
Irritado, coloquei os jeans e a jaqueta, e escovei os dentes enquanto Aurélia colocava os sapatos.
- Não fique bravinho, meu camarada. – Disse ela, colocando as mãos na cintura e me encarando. - Lembre-se de que logo estaremos nas Ilhas Gêmeas, só eu e você.
Essa lembrança me fez dar um sorriso sacana.
Aurélia fazia aniversário algumas semanas antes de mim, no dia 12 de Outubro.
Ela pediu de presente para o pai uma viagem para as Ilhas Gêmeas, completamente sozinha, durante uma semana inteirinha.
O que o coroa não imagina é que eu estarei lá.
E durante essa semana poderei realmente aproveitar a companhia de minha querida Lila, se é que me entendem.
E, claro, será como uma despedida para o relacionamento mais longo que já tive com uma garota: seis meses.
Não que ela saiba que, dentro de um pouco menos de um mês, não estará mais nesse mundo...
Mas nisso vou pensar depois.
- Não vejo a hora de estarmos completamente sozinhos. – Sussurro, antes de beijá-la.
O resultado foi que Aurélia acabou tendo que me empurrar para que eu fosse embora.
Tenho que admitir que temos uma química impressionante.
Ela me deixa em chamas.
Aurélia não alimenta apenas meu lado garoto, mas também meu lado demônio.
Será mesmo uma pena quando eu tiver que me livrar dela.
***

Depois de pular o muro da casa de Aurélia e ganhar a rua, decidi procurar Derek para cabularmos aula ou sei lá, ir aos lugares de sempre: bares, becos, praças...
Topo até ir com ele procurar o chinês contrabandista que fornece camisetas de rock piratas, que ele vende na escola pelo dobro do preço.
As minas (metidas a) roqueirinhas piram.
Mas antes de ir para o trailer com cheiro de fritura que eu estava dividindo com Derek nos últimos tempos, resolvi fazer uma visitinha à louca que até pouco tempo eu chamava de mãe.
Sério, na última vez que nos vimos, eu a chamei de “mãe” e Eveline surtou.
Disse que agora era muito nova para ter um filho de quase 16 anos.
Só porque voltou a ser um demônio poderoso com aparência mais jovem. Ridículo.
O mais ridículo é que, para conseguir isso, ela fez um pacto. E quem você acha que vai ter que livrá-la da condenação eterna ao inferno, se tornando um demônio aos 16? Acertou.
Citando um herói mexicano: se aproveitam de minha nobreza.
Bati na porta da minha própria casa, onde eu agora raramente dava as caras.
Nenhuma resposta.
Girei a maçaneta e entrei.
Estava tudo exatamente como sempre foi, tirando o cheiro de enxofre no ar e as janelas fechadas.
Também havia novas manchas no carpete: sangue, bebidas e outras que era melhor nem tentar descobrir a origem.
- Eveline? – Chamei.
Nada.
Deveria ter virado a noite em algum cassino em Las Vegas. Vai saber.
Fui para a cozinha, abri a geladeira e peguei uma lata de Smirnoff. Meu café da manhã oficial.
Depois resolvi aproveitar que estava por ali para pegar algumas roupas. Derek se apoderou da maioria das minhas camisetas, e eu precisava de mais pares de meias.
A surpresa veio quando entrei no meu quarto.
Estava tudo totalmente transformado.
A cama, a cômoda e o guarda-roupa de verniz escuro continuavam lá. Mas agora o carpete era rosa choque ao invés de azul marinho.
Os lençóis na cama bagunçada eram roxos com renda preta, havia pôsteres das The Runaways e da Lady Gaga nas paredes, e no teto havia uma frase pichada com tinta pink: “Espaço de uma Fugitiva Monstruosa.”
Haviam esmaltes, sapatos, bolsas e peças de roupa espalhadas pelo chão.
Ainda surpreso, peguei um dos sapatos caídos no chão. Tamanho 35.
Com toda certeza não eram da minha mãe.
Abri a primeira gaveta da cômoda, onde eu guardava minhas meias, mas só encontrei lingerie com lantejoulas e estampa de caveira.
Caramba...
Bem diferentes das peças de renda francesa que Aurélia usava.
Segurei uma das calcinhas entre os dedos, distraído.
Será que minha caótica mãe havia vendido a casa?
- Posso ajudar em alguma coisa? – Disse uma voz levemente familiar atrás de mim.
Me virei.
- Você. – Eu disse, surpreso.
Ela estava parada na porta do quarto, me observando, usando apenas um short convenientemente curto e um sutiã estampado, que identifiquei como conjunto da calcinha que eu segurava.
Tinha uma taça de vinho em uma das mãos.
Sorri, surpreso e nervoso ao mesmo tempo.
Electra ergueu a taça, como se estivesse propondo um brinde.
É. Eveline, também conhecida como minha mãe, deve estar mesmo louca de pedra.
Deixou que a demônio-loira-punk, que quase me estrangulou uma vez, morasse no meu quarto.

CONTINUA

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