terça-feira, 9 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 2

2.Satisfações

- Você lembra de mim? – Perguntou Electra, se aproximando e passando uma das mãos no meu ombro.
- Difícil esquecer. – Respondi, sem emoção.
Ela usava o cabelo cacheado agora, quase angelical – um contraste irônico com os olhos violentamente vermelhos.
Por algum motivo, ela me deixava nervoso.
E isso não me agradava.
- Você malha? Não tem o corpo de um garoto de quinze anos.
Fiz que não com a cabeça.
- Onde estão minhas coisas? – Perguntei.
- Ali. – Respondeu ela, apontando para o closet com o queixo.
Me encaminhei para lá e fui abrindo as caixas de papelão, colocando minhas roupas na mochila o mais depressa possível.
- Onde está a minha mãe? – Perguntei.
- Eveline deve estar com o novo namorado dela. – Respondeu Electra, examinando a própria silhueta no espelho. – Ela me deixou ficar aqui por um tempo. Disse que você não se importaria em ceder o seu quarto para uma amiga da família.
- E desde quando você é nossa amiga? – Perguntei, rispidamente. – Demônios não têm amigos.
Electra sorriu.
- Ah, mas sua mãe e eu fizemos um pacto. Nada como um pacto para unir duas mulheres.
Também sorri.
- Só que eu não tenho nada com isso, loura. Até mais.
Eu ia passar direto por ela, mas Electra bloqueou meu caminho rapidamente, quase colando o próprio corpo no meu.
Esse é o problema das gostosas.
Se acham muito.
- Eu quero você, Félix. – Disse ela, séria dessa vez. – E não estou brincando. Vejo um grande potencial em você, mesmo tão jovem daria um ótimo parceiro.
Ergui uma sobrancelha.
- E quem disse que eu quero você como parceira? – Desafiei.
Electra voltou a sorrir.
- Seu grande imbecil. Não sabe nada do mundo, não é mesmo? Não faz ideia do que um demônio de trezentos anos é capaz de fazer, não é?
Entendi o que ela quis dizer.
O corpo de Electra pareceu se incendiar. A temperatura no quarto aumentou e a pele dela se iluminou, como se refletisse labaredas.
Caramba.
Eu já tinha ouvido falar do poder sensual de uma mulher demônio, mas ver aquilo com os próprios olhos superava qualquer expectativa.
Electra passou a mão pelo meu peito, e o meu corpo todo pareceu ferver em resposta ao toque dela.
- Você nunca esteve com um de nós, não é? – Perguntou ela, aproximando os lábios do meu pescoço.
- Não. – Respondi, antes de beijá-la.
Nossos corpos pareceram se incendiar em conjunto.
Foi irado.
Não era desejo: era luxúria pura.
Electra se retorceu em meus braços, arranhando minha nuca com as unhas compridas, mordendo meus lábios.
E então eu fiz a maior babaquice da minha vida.

***
- Você o que?! – Perguntou Derek, perplexo.
Virei mais um copo de tequila antes de falar, ou perderia a coragem de repetir o que eu havia acabado de dizer.
- Eu não fui pra cama com a loira gostosa. – Respondi, me sentindo um lixo. – Ela estava na minha mão, e eu caí fora.
- Porque, cara? – Derek não conseguia acreditar. – Justo você, pegador?
- Si lá! Eu caí fora. Não peguei a loira.
Ele não sabia dos detalhes, claro. Eu não havia contado a Derek que Electra era um demônio. Ele nem imaginava que eu me tornaria um demônio um dia.
- Está se sentindo um gay, né? – Perguntou ele, dando outra golada na garrafa de cerveja.
- Muito gay. – Respondi, dando um soco no balcão.
O trailer ficou em silêncio por alguns minutos.
Suspirei, apoiando o rosto em uma das mãos.
Droga.
Porque não fiquei com Electra?
Ela é loira, gostosa e um demônio. Estava mais do que a fim de mim. E ela faz parte do meu mundo, ao contrário dos humanos que me cercam.
- Hei, cara – começou Derek, quebrando o silêncio. – Talvez você não tenha pego a loira porque... Sei lá... Você já está saindo com Aurélia há algum tempo, né? De repente você sentiu que não era a coisa certa a fazer.
Olhei para Derek.
Não era possível.
Ele só podia estar me zoando. Eu? Félix Brian Maya, fiel a uma garota? Que ridículo.
Mas ele parecia estar sendo sincero.
- Aumentou a dose de maconha, cara? – Perguntei, irritado. – Acha que Aurélia significa alguma coisa pra mim? Ela é só mais uma.
- Nunca vi uma das suas umas durar tanto tempo. – Alfinetou Derek. – Você dorme com a mesma garota todos os dias há mais de quatro meses. Dá até pra dizer que ela é sua namorada, Félix!
- Que porra! – Gritei, impaciente. – Ela não é minha namorada. Ninguém me controla, ok? Vou morrer sendo livre da loucura possessiva das mulheres. Estou com Aurélia porque ela é boa, mas isso logo acaba. Estou enjoando dela.
Só mais um mês, pensei. E acabou.
Aurélia, na verdade, é meu passaporte para o mundo dos infernais. E, claro, vou aproveitar o máximo possível enquanto esse jogo durar.
- Tá legal! – Diz Derek, rindo da minha expressão. – Se ela não é sua namorada, vamos ficar aqui jogando vídeo game hoje. Não vá vê-la como toda noite.
- Certo. – Digo, dando de ombros.
- E – continuou ele. – Não vai poder avisá-la. Nada de ligar ou mandar mensagens. Você vai simplesmente dar um bolo hoje.
O encaro, estreitando os olhos.
Filho da mãe.
- Tá ok. – Respondo, sem me mostrar afetado. – Não devo satisfação nenhuma pra ela.
Derek continuou com um sorrisinho idiota na cara, me observando.
O ignorei.
Talvez fosse até bom que Aurélia percebesse que ela não me controla, e se mancasse um pouco.

***
 Acordei com o sol batendo na minha cara e a cabeça explodindo.
Muita tequila na véspera. Droga.
Peguei o celular para ver que horas eram e vi que havia uma mensagem de Aurélia.
Sorri.
Rá. Deve estar toda furiosa, querendo saber porque eu não dei as caras.

Félix,
Esqci geral q vc costuma chegar as dez. o.O
Cheguei mega tarde ontem e nem lembrei de avisar.
Foi mal. Espero q vc naum tenha ido a toa até a minha janela aushaushaushaush.
Nos falamos dpois. Bjos.
Putz.
Porque eu estava tão azarado ultimamente?
- E aí, playboy? – Cutucou Derek, chutando o colchão onde eu estava deitado. – Foi a gata quem te deu um bolo, não é?
- Você fuçou no meu celular, fedorento? – Rosnei.
- Li a mensagem enquanto você babava. – Disse ele, mordendo um sanduíche de salame que estava na geladeira há dois séculos.
Me levantei e comecei a me vestir.
- Vai pra aula hoje, moleque?
- Não. – Respondi, ainda incomodado com a dor de cabeça. – Vou procurar a Srta. Santoro. Quero saber que papo é esse de chegar mega tarde em casa.
Derek gargalhou com a boca cheia de pão e salame velho.
- Ui! Achei que ela não era sua namorada, meu chapa!
Coloquei meus óculos escuros e o encarei.
- Se liga, vacilão. Eu não devo explicações a ela, mas ela precisa da minha permissão pra fazer qualquer coisa, morou?
Derek assentiu.
- Ela é sua mina.
- Minha mina! – Respondi, batendo a porta do trailer.

***
Falando sério, precisam melhorar a segurança nesse país.
Pular o muro do colégio particular foi tão fácil quanto pular o muro da casa dos Santoro.
Um colégio só para meninas... Legal, muito legal. Só garotas por toda parte. Porque eu não estudo num desses?
Tá legal, deixa pra lá.
Procurei por uma cabeça de cabelos roxos no pátio, mas nada. Comecei a andar, tentando não chamar muita atenção.
Não adiantou muito: parecia que eu usava uma placa pisca-pisca escrito MACHO NA ÁREA.
Era melhor que eu encontrasse Aurélia antes que um zelador caolho me expulsasse com vassouradas.
Contornei o prédio, e estava quase desistindo quando ouvi uma risada conhecida.
Parei para olhar por uma das janelas abertas do prédio rústico e vi Aurélia, de pernas cruzadas sobre a mesa, conversando com um cara em uma sala de aula vazia.
- Não brinca! – Exclamou ela. – E funcionou? Você conseguiu entrar no camarim da Furgie?
Ele riu.
Tinha um estilo mauricinho efeminado. Parecia até que estava usando as roupas de algum vocalista de banda pop para pré adolescentes. Faça-me o favor...
- Pior que funcionou. – Respondeu ele, com um sorriso exageradamente branco. – Olhe aqui a foto.
Ele tirou o celular do bolso e se aproximou de Aurélia para mostrar. Ela riu, olhando para a tela, e ele então passou a mão no cabelo dela.
Como se ela fosse dele, e não minha.
Senti meus olhos esquentarem.
- No próximo show vou te levar. – Disse ele, piscando um olho. – Você vai ficar amarradona, Lila.
- Ok. – Respondeu ela, sorrindo.
Como é? Somente eu posso chamar Aurélia de Lila, seu ridículo.
Ele se aproximou ainda mais dela.
- E depois... Talvez possa se amarrar em mim, gata.
Tenha dó... Que tipo de cantada era essa?
Mas quando ele colocou a mão sobre uma das pernas dela, senti a raiva ferver meu sangue.
Pulei a janela, fazendo barulho.
 - Ah, você vai ficar amarrado sozinho, meu irmão! – Gritei, segurando-o pela gola da camisa.
- Félix! – Exclamou Aurélia, assustada. – O que está fazendo aqui?
- Quem diabos você é? – Perguntou o cara.
- Eu sou o pior diabo que você poderia encontrar nesse momento... Isso é pra você aprender a ficar longe da minha garota, tá ligado?!
Com isso, dei um murro caprichado no rosto dele.
Mas acho que foi um pouco demais.
O cara apagou.

CONTINUA

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