sábado, 13 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 3


3. Pai

- Cara... Você perdeu totalmente o juízo?! – gritou Aurélia, beirando a histeria.
Suspirei, tentando recuperar a calma, mas minhas mãos ainda tremiam.
- Você está na defensiva – eu disse. – Porque foi pega no flagra se engraçando com o mauricinho aí.
Aurélia me encarou com ódio.
- Qual é o seu problema? Ele é filho do meu professor de Geografia. Eu ia me livrar de ficar em recuperação se desse um pouco de corda pra ele! – Aurélia me deu um tapa no braço, irritada. – Félix, o que você tem na cabeça? Não pode entrar na minha escola e socar o filho do meu professor!
Olhei com desprezo para o cara, estirado no chão.
- Parece que eu posso, sim. – Respondo, desafiadoramente. – E só vou perguntar uma vez: onde você esteve ontem?
Aurélia me encarou, incrédula.
- Eu não te devo satisfação nenhuma!
A segurei pelos braços, de saco cheio daquela história.
- Não brinque comigo! Onde você estava?
Ela me encarou, e baixou um pouco a guarda.
- Seus olhos estão vermelhos. – Sussurrou ela.
Senti Aurélia se retraindo, e, reunindo todo o meu autocontrole, a soltei devagar.
- Desculpe. – Eu disse, por fim. – É que eu não consigo me controlar ao ver outro cara perto de você. Ainda mais, quando... – Faço uma pausa dramática. – Quando estou com tantas saudades.
Ela me olhou, ainda desconfiada.
- É melhor você ir embora, Félix. Antes que ele recupere a consciência. Ou alguém chegue.
- Você vem comigo? – Pergunto, tentando olhá-la de um jeito inocente.
- Não posso. Vai.
Eu não podia simplesmente cair fora.
Aurélia se retraia quando eu agia de forma agressiva, e eu havia perdido o controle. Mas precisava reconquistar a confiança dela dando uma de menino carente e apaixonado.
Me aproximei e segurei o rosto dela, devagar.
- Lila... – Comecei, com um suspiro. – Você é a coisa mais importante do mundo pra mim. Eu me odeio toda vez que faço mal a você...
Mas ela recuou.
- Como, Félix? Você é um demônio. Não espere que eu acredite nisso.
Aurélia me deu as costas e saiu da sala de aula.
Outra vez a raiva me dominou.
Raiva de mim mesmo.
Eu estava pondo tudo a perder, bem agora, que estava tão perto de conseguir o que queria.
Como Aurélia poderia ser minha oferenda se ela não confiasse cegamente em mim?
Merda.
Pulei a janela e o muro do colégio sem olhar para os lados, e assim que me vi na rua ascendi um cigarro.
Na moral, não entendo essa garota.
Quando a conheci, Aurélia era só mais uma menina mimada e rebelde, vazia e desesperada.
E ela ainda tinha muitos vazios que precisavam ser preenchidos.
E eu os preenchia: com bebidas, luxúria e uma falsa sensação de felicidade. De brincar com fogo.
Afinal, depois de alguns incidentes, ela sabia que eu não sou apenas um garoto como outro qualquer. Ela viu meu pai, sabe que ele é um anjo.
E também havia percebido que, obviamente, de anjo eu não tenho nada.
Só que apenas hoje eu tive certeza: Aurélia pensa que eu sou um demônio.
Ela ainda não sabe que passarei por uma transição dentro de menos de um mês.
E nem que, para isso, sua alma vai ser condenada pela eternidade.

***
A semana que se seguiu foi esquisita.
Não vi Aurélia.
Sempre que eu ia a casa dela, encontrava a luz do quarto apagada e ela não estava.
Tentei ligar algumas vezes, mas ela não me atendia.
Comecei a sentir medo. De verdade.
Depois de ter segurado a barra todo esse tempo, será que eu iria perder a minha vítima, faltando tão pouco para o meu aniversário?
Eu andava enchendo a cara todo dia.
Passava as noites em claro, fumando e pensando na vida, e depois dormia o dia todo. Era raro que eu comesse alguma coisa.
Até que um dia Derek me deu uma sacudida.
- Se liga, cara – começou ele, me acordando com um chute. Sem dizer nada, me jogou um energético. – Acorda. Vai tomar um banho e dar uma aparada nessa barba rala ridícula. Na moral, Félix. Você tá um horror.
Dei um gole no energético, que me deu náusea.
- Dá um tempo, fedorento. – Respondi, me sentando no colchão. – Virou minha mãe, agora?
- Eu sou o fedorento? Cara! Nem as moscas aguentam mais ficar perto de você, faça-me o favor! Você tá se destruindo por causa daquela garota.
- Por causa da garota! – Gargalhei. O dia em que Aurélia puder me destruir será quando o inferno congelar.
- É, sim. – Teimou Derek. – Agora vai pro chuveiro e depois trate de ir fazer as pazes com ela. Vou receber uma gata aqui hoje e você tem que cair fora.
- Ok, ok! – Digo, pegando a toalha e me encaminhando para o banheiro. – Dessa vez você venceu, mas só porque eu ainda estou um pouco bêbado.
Tomei uma chuveirada e depois me vesti. Fiz a barba e escovei os dentes. Passei até o perfume favorito de Aurélia. Era melhor que ela estivesse em casa.
Se estivesse, era tiro e queda: hoje eu a teria de volta aos meus pés. E amanhã viajaremos juntos para as Ilhas Gêmeas para nossa fabulosa semana de despedida.
E se não estivesse, eu esperaria que ela chegasse.
E então a mataria.
Estou falando sério.
Ninguém me faz de idiota.
Se ela não quer se entregar e morrer daqui a algumas semanas, morre hoje.
Eu estava terminando de arrumar o cabelo com gel quando Derek bateu na porta do banheiro.
- Félix... Tem um homem lá fora querendo falar com você.
Um homem?
Coloquei o celular e a carteira no bolso e fui ver quem era.
Meu pai.
Acho que, no fundo, eu já sabia.
Usava camisa polo branca e calças cinzentas, no mesmo estilo de sempre.
- Está adiantado. – Disse eu, passando direto por ele e seguindo pela calçada. – Só vai ter que me matar daqui duas semanas e meia.
- Não vim aqui para isso, Félix. – Disse ele, no irritante tom autoritário, começando a caminhar ao meu lado. – Quero falar com você sobre a jovem Aurélia Santoro.
Parei.
Me voltei para ele, sentindo minha fúria se inflamar.
- O que você sabe sobre ela? – Perguntei.
- Sei o quanto aquela garota já sofreu, e o quanto ela gosta de você. – Respondeu ele, pausadamente. – E também sei que você pretende arruiná-la para sempre.
- E daí? – Desafiei. – É o que os da minha espécie fazem, anjo.
Ele suspirou, me encarando com os olhos azuis.
- Não fale como se fosse um deles, Félix.
- Não sou como você. – Retruquei.
- Mas também não é um deles. – Continuou. – Eu sei que Eveline te educou para escolher o caminho dos demônios, mas veja como ela está agora. Quem se tornou. Eu diria que ela não está sendo mais presente do que eu fui por todos esses anos.
Fervi. Como ele se atrevia?
- Sei me cuidar agora – respondi, com os dentes trincados. – Não sou mais um feto como na época em que você nos deixou, papai.
Outra vez, ele suspirou.
- Mas estou tentando me reaproximar de você. Já tentei antes, mas Eveline nunca deixou. E agora você fará uma coisa mil vezes mais terrível com aquela moça.
Sacudi a cabeça, decidido a não deixar que ele me confundisse.
- É uma situação completamente diferente. Ah, e Aurélia não está grávida.
- Quem garante? – Perguntou ele, com uma sobrancelha erguida.
Gelei por dentro.
Seria possível?
Ai, droga...
Depois que brigamos, ela nunca mais quis me ver. Não retornou minhas ligações.
Será que eu...
Será que eu vou ser pai?
Não, impossível. Eu sei me cuidar.
Disse isso a ele, recuperando minha autoconfiança.
- Pense bem. – Disse ele, dando de ombros. – Naquela noite ela chegou tarde em casa porque estava procurando uma farmácia aberta. Para comprar testes de gravidez.
Me senti petrificado.
- Calma, aí... Como é que você sabe disso?
Os olhos azuis faiscaram.
- Porque eu estava na farmácia, comprando remédios para uma senhora. Um anjo protege os seus.
Fiquei calado.
Meu cérebro estava a mil por hora.
- E então, garoto? – Perguntou ele, cruzando os braços. – Entendo que você me julgue, mas acha mesmo certo agir como eu? Vamos conversar sobre isso.
Ele pôs uma mão no meu ombro.
O toque dele era leve.
Me fazia sentir paz, alívio e calma.
Quando percebeu isso, a genética materna reagiu. Sangue quente me subiu a cabeça, e eu me afastei bruscamente.
- Ora, vá se danar! – Gritei.
Corri rua abaixo.
Um conflito enorme se formava dentro de mim.
Aurélia ia ter um bebê? Meu filho?
Claro que não, Aurélia comprou testes de gravidez, e daí? Poderia ser para alguma amiga. Ou neurose dela. Garotas vivem com essa neura.
Ou talvez o maldito anjo houvesse inventado aquela história toda só para me cutucar.
Afinal, Aurélia parecia estar tão despreocupada, tão nem aí...
Ou será que estava escondendo alguma coisa?
E então...
Se ela estivesse esperando o meu filho, o que eu faria? Poderia mesmo sacrificar os dois? Fazer ainda pior do que o meu próprio pai fizera comigo?
Nunca pensei em ter filhos um dia.
Muito menos com uma humana.
Eu não presto. Sou mal. Um demônio. Quase.
Não deveria nem me importar. Essa criança nem nasceria.
Ou sua alma também queimaria?
Meu filho. Carne da minha carne.
Isso me tornaria ainda pior do que o meu pai.
E eu não o perdoava por tudo o que fez.
Como me perdoaria?
Quando parei em frente ao muro da casa dos Santoro, percebi que havia lágrimas nos meus olhos.
Apressei em secá-las, irritado comigo mesmo.
Que bobagem, Félix.
Quando pulei o muro, percebi que a luz do quarto de Aurélia estava acesa.
Entre lá e resolva isso.
Demorei alguns minutos para escalar a parede pela calha e entrar pela janela silenciosamente.
Aurélia estava deitada na cama, escondida pelo edredom, como de costume. Não se mexeu quando eu entrei. Talvez houvesse adormecido. Havia um livro caído ao lado dela.
Senti uma coisa estranha no peito.
Como se fosse um grande alívio encontrá-la.
Suspirei, me deitando ao lado dela na cama.
A abracei.
- Não sabe quanta falta você me fez. – Sussurrei.
Devagar, puxei o edredom para poder beijá-la.
Foi aí que eu tive uma desagradável surpresa.
Não era Aurélia.
Era Electra.

CONTINUA

9 comentários:

  1. Olá é um prazer comentar em seu blog! A estória esta perfeita, especialmente no modo como vc usa tecnica de primeira pessoa.Ymbm escrevo e a maioria do que escrevo é em primeira pessoa.Quero dizer que me tornei um fã seu.

    Tmbm tenho um blog onde escrevo contos e series :

    raffaelpetter.blogspot.com

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    1. Ah, muito obrigada, Raffael!
      Será um grande prazer retribuir a visita e conhecer seu blog! ;D

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  2. E aí, o que acham? XD
    Está pra vir o Félix Júnior?
    Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. AAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! ELA NÃO!!!! será que ele vai ser pai??????? omg!!!

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  5. Uau, to adorando esse retorno da serie.
    Um filho. Por essa eu nao esperava. Show, Giovanna!

    planetavx.blogspot.com

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  6. Obrigada, pessoal!
    E fiquem ligados, surpresas vêm aí! XD

    Um grande abraço para todos!

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