segunda-feira, 15 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 4



4. Decisões

- Que diabos você está fazendo aqui? – Pergunto, dando um pulo para trás.
Electra gargalhou.
- Isso foi hilário! – Exclama, levantando-se da cama e espreguiçando-se como um gato. – Deveria ter visto a sua cara, Diabinho. Pensou mesmo que fosse a patricinha?
Cerro os punhos, irritado por ter sido enganado daquela forma.
- Sua vadia – digo. – Onde está Aurélia?
Electra olha o relógio da parede com um gesto vagaroso.
- Deve estar chegando.
- E o que você está fazendo aqui?
Ela se aproxima e começa a brincar com a gola da minha camisa.
- Eu precisava falar com você, Diabinho. E com ela também.
- Sobre? – Pergunto, erguendo a sobrancelha.
Os olhos de Electra se inflamaram, e eu percebi que ela não estava mais brincando.
- Sobre o dia em que você me rejeitou. Foi por causa dela?
Balanço a cabeça, irritado.
- Claro que não. Aurélia é apenas minha futura vítima. Você deveria saber disso.
- Então porque, Diabinho? – Sussurrou ela, passando uma unha pelo meu pescoço. – Acha que ela é melhor do que eu? Meu bem, eu tenho séculos de experiência. Nenhum homem, mortal ou não, havia me rejeitado antes de você.
Ergo novamente uma das sobrancelhas. Essa aí é mais rodada do que pratinho de micro-ondas.
- Fiquei curiosa – continuou ela. – O que essa garota faz de tão bom a ponto de você ter me recusado? Será que quando ela chegar eu poderia assistir aos dois?
Sorrio.
- Nem pensar. Você vai dar o fora. Talvez um dia chegue a sua vez com o Félix. – Digo, dando-lhe uma piscadela.
Senti a mão de Electra esquentar, e a pele dela chegou a ficar um pouco avermelhada.
As luzes do quarto se apagaram sozinhas.
Parecia que eu a havia provocado.
Opa.
- Seu Diabinho convencido – sussurra ela. – Esqueceu de que ainda é um simples mortal? Vou te ensinar a respeitar o poder de um demônio de verdade.
Antes de começar a contar o que aconteceu, deixe-me lembrar a você, que está lendo isso, do quanto aquela garota demônio estilo punk era fortinha. Na primeira vez que nos vimos, ela me ergueu com uma única mão e quase me enforcou.
Então não foi nenhum grande desafio para Electra me erguer e atirar no outro lado do quarto como se eu fosse um boneco de pano.
Bati a cabeça na parede e cai na cama com um gemido.
Ai, merda.
A louca voou para cima de mim, abrindo a minha camisa com as unhas.
- Vamos ver o que a sua namoradinha vai achar quando chegar e nos ver mandando bala na cama dela. – Sussurrou Electra.
Ao ouvir aquilo, tentei me livrar dela, mas meus braços não reagiam. Eu estava sob os poderes da vadia.
Ela encostou os lábios quentes no meu pescoço, e meu sangue começou a circular mais depressa.
Eu não podia negar que o toque dela era tentador, e fazia todo o meu corpo reagir. O pior era que a raiva que eu estava sentindo aumentava ainda mais o frenesi da situação.
Foi quando Aurélia entrou no quarto e ascendeu a luz.
- Félix? – Ela olhou de mim para Electra, surpresa. – Mas que putaria é essa?
Electra deixou que eu recuperasse meus movimentos e eu me levantei apressadamente.
- Não houve putaria nenhuma. – Digo. – Eu ainda estou com as calças.
- Por enquanto. – Disse Electra, levantando-se e amarrando o cabelo.
Olhei feio para ela. Não estava ajudando.
Aurélia respirou fundo e fechou a porta do quarto para que ninguém nos ouvisse.
- Ok. Quero saber o que tá pegando, ou chamo os seguranças. – Disse, decidida.
- Relaxa, linda – disse Electra, dirigindo-se para a janela. – O seu namorado não quis ir pra cama comigo. Parece que ele prefere você. E agora, reparando bem na sua pessoa... Ainda não entendo o por que.
- Olha aqui, sua piranha...! – Começou Aurélia.
Mas Electra já havia saltado pela janela silenciosamente.
Suspirei aliviado.
Me voltei para Aurélia.
- Hei, Lila... – Comecei, segurando o braço dela.
- Me larga, Félix! – Disse ela, afastando-se. – Some daqui. Não quero te ver.
Droga.
Ora de bancar o sensível.
- Eu vim até aqui para fazer as pazes com você, garota. – Digo, sentando-me na poltrona do quarto. – Estávamos tão bem duas semanas atrás, planejando nossa viagem. O que aconteceu?
Aurélia revirou os olhos.
- Aconteceu que você teve um ataque de ciúmes ridículo e socou o filho do meu professor. Você acha que é meu dono?
- Ao, contrário. Foi você quem me dominou! – Digo. Essa foi boa. – Estou aqui quase aos seus pés...
- Pare de encenar! – Gritou Aurélia, perdendo o controle. – Acha que eu não percebo quando você está fingindo? Pelo menos uma vez na vida tente não me fazer de trouxa, ok?
Beleza.
Minha máscara caiu.
Aurélia não acreditava mais nas minhas cenas.
Me levanto.
- Certo. Serei sincero, então. – Fiquei cara a cara com ela e a segurei pelos ombros, olhando fundo naqueles olhos castanhos. – Seis meses atrás, eu pegava uma garota por dia. Era um galinha. Não valia nada. E achava que nunca ia me amarrar pra valer em ninguém. Daí eu te conheci. Com esse jeito louco, rebelde, toda descoladinha. E rolou! Aurélia... Você é incrível. Ótima companheira para beber, cabular aula e nada se compara às noites que passamos juntos. Nos últimos tempos, achei até estranho o fato de não conseguir nem olhar para outra garota...
Aurélia ri, me interrompendo.
- Não seja hipócrita, tá legal? Acabei de pegar você se agarrando com a loira esquisita na minha cama! Na minha cama, Félix!
Balancei a cabeça, nervoso.
- Não foi bem assim. Ela estava irritada porque não dei bola pra ela há alguns dias quando ela me abordou. E apareceu aqui para se vingar. É sério! Aquela louca quase me estuprou!
Aurélia ri outra vez, com um pouco de humor agora.
- Você não se lembra dela? – Continuo. – Naquele dia, no celeiro? Ela estava com os demônios que te sequestraram.
Aurélia fica séria novamente.
- Sabia que a conhecia de algum lugar! Porque ela cacheou o cabelo? Ficou ridículo...
Me aproximo novamente, e a abraço pela cintura.
- Eu senti sua falta, Lila. – Sussurro. – Por favor, não me mande embora. Me perdoe.
Ela colocou as mãos na minhas costas, me abraçando também.
- Ah, Félix...
Não a deixo terminar e a beijo.
Não era como beijar um demônio, daquele jeito tão ardente, mas era quase melhor. Aurélia beijava bem. Também fazia algumas outras coisas muito bem.
- Espera – Aurélia me empurrou, devagar, mas firme. – Desculpe, Félix. Não dá.
Por algum motivo, os olhos dela estavam cheios de água.
Me lembrei do motivo para ter ido até lá tão alarmado, e senti um frio terrível no estômago.
Estava com medo de perguntar... Droga.
- O que foi?
- Eu quero terminar – disse ela, cruzando os braços, decidida. – Quero terminar esse nosso lance, namoro, seja o que for...
A olho, surpreso.
 - Eu gosto pra caramba de você – continua ela. - Mas não é bom pra mim essa vida cheia de contratempos, demônios no meu quarto, você fazendo cenas...
Reviro os olhos.
- Já pedi desculpas, tá legal?
- Mas você é sempre assim, Félix. – Diz ela. – Em um momento está normal, no outro fica furioso e grita comigo, depois se arrepende e vem cheio de declarações bonitinhas... Não dá para prever o que você vai fazer. Não quero isso pra mim. – Ela fez uma longa pausa, depois, lentamente, colocou as mãos sobre a barriga. – Nem para o meu filho.
Gelei.
Senti o chão sumir.
Então era verdade...
- Félix, calma. – Disse Aurélia, assustada. – Você está pálido. Acho melhor você sentar.
- Você está grávida? – Sussurrei para não gritar. – Quando ia me contar?
- Eu não tenho certeza ainda. – Disse ela. – Minhas regras não vieram, e o teste que eu comprei na farmácia deu positivo. Ainda assim, vi na internet que existe 10% de chances do teste estar errado, então vou ver minha médica semana que vem para confirmar.
- Então tem 90% de chances de você estar grávida?! – Exclamei, em pânico.
Aurélia cruzou os braços.
- Félix, relaxa, ok? Não precisa surtar. Você engravidou a garota certa, cara. Dessa vez escapou.
- Como assim? – Pergunto, perplexo.
- Nenhum de nós pretendia colocar uma criança no mundo. – Começa Aurélia. – Mas se eu estiver mesmo grávida, vou ter o bebê. Não vai me atrapalhar em nada. A vantagem de ser rica é que não preciso estudar nem trabalhar para ganhar a vida. Meu pai vai ficar zangado, mas depois vai esquecer enquanto cuida dos negócios. E eu vou pra Grécia ou, sei lá, para a Austrália cuidar do meu filho.
Ela estava falando de forma tão decidida. E eu estava tão... Apavorado. Me senti uma droga.
- Porque nós precisamos criá-lo tão longe? – Perguntei, ainda desnorteado. Nem sabia direito o que estava falando.
Em duas semanas serei um demônio, porra.
Como vou para a Grécia cuidar de uma mulher grávida?
- Nós, não, Félix. – Corrige Aurélia, com um suspiro.
Ela se senta na cama, diante de mim, cruzando as pernas.
- Félix, relaxa... Eu liberto você de qualquer responsabilidade. Não quero que se case comigo, nem que pague pensão ou dê o seu nome para o nosso filho. Eu vou ter o bebê sozinha.
- O que? – Pergunto, arregalando os olhos.
Quantos choques eu ainda tomaria naquela noite?
- Olhe pra você! – Diz Aurélia, quase sorrindo. – É um malandrão. Vive enchendo a cara. E tem essas confusões todas com demônios. Como poderia ser pai, Félix? Continue a ser livre. Viva a sua vida e eu vivo a minha, sem ressentimentos.
Me levantei.
- Não pode estar falando sério! Mas e você? Se vê como mãe, Aurélia?
- Ainda não. – Admitiu ela. – Mas eu cansei de viver para chocar os outros. E se eu tiver um filho... Terei alguém que eu possa amar sem medo de me magoar... Alguém completamente meu. Não vai ser fácil, mas garanto que posso pagar as melhores babás.
Ela me deu uma piscadela.
Eu ainda não conseguia aceitar aquilo.
- Não pode fazer isso... – Comecei, andando de um lado para o outro. – E como pode estar tão tranquila?
- Hoje em dia adolescentes têm bebês o tempo todo. Muitas delas não tem nem metade da minha fortuna. E elas se viram. Porque eu não conseguiria me virar?
Olhei para ela.
E encontrei o que estava procurando.
Ela estava mudada.
De garota mimada passara para uma mulher madura, que planejava ser mãe, e sozinha. Isso em seis meses, diante dos meus olhos.
E só agora eu me tocava.
Que porra.
Aurélia não servia como sacrifício mais.
Apesar dos medos, da solidão, da confusão ela não era mais aquela alma fútil e desesperada.
Sem perceber, eu não havia feito um trabalho de demônio na vida dela.
Havia feito o trabalho de um anjo.

CONTINUA

5 comentários:

  1. OMG!!! O que foi isso?? Tá muito lokooo!!!

    ResponderExcluir
  2. Giovanna mais uma vez arrassando!Amei as sacanas ironicas!Aguardo ansiosamente!


    Abraços
    raffaelpetter.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. omg!!!!! que perfeito!! ela tem que ficar com ela! ele tem que virar um demônio! omg!!!

    ResponderExcluir
  4. Valeu, gente! ;D
    E obrigada pelas visitas!

    ResponderExcluir