domingo, 21 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 5




5. Conversa

- Fale alguma coisa, Félix! – Me pediu ela.
Suspirei e me sentei ao lado dela na cama.
- O que quer que eu diga? Você me salvou de uma. Como eu iria pagar pensão sem trabalho e morando em um trailer caindo aos pedaços?
Aurélia também suspirou.
- Bom, é melhor nos despedirmos agora. Amanhã tenho que acordar cedo. Vou passar uns dias nas Ilhas Gêmeas para esfriar a cabeça. – Ela me deu uma piscadela.
Amanhã é o aniversário de Aurélia. 16 anos.
Ela é seis dias mais velha do que eu.
Lhe dou um beijo na bochecha.
- É uma pena. – Digo. – Eu ia te dar seu presente de aniversário em forma de satisfação sexual.
Ela ri.
- Fica para a próxima.
A olho.
Ela está completamente segura e serena, deixando claro que não precisa de mim.
- Hei... Só uma pergunta. – Começo. – Quando nosso filho perguntar sobre o pai, o que vai dizer?
- Que ele era o cara. – Responde Aurélia, apertando minha mão entre as dela. – Bonitão, malandro e temperamental.
- Diga a ele que tem uma mãe muito gostosa. – Peço, sorrindo. – Provavelmente a única que usa cabelo roxo.
Aurélia ri outra vez.
- Vou dizer.
Lhe dou um selinho antes de pular a janela, aparentemente de boa.
Mas dilacerado por dentro.

***

Acordei na porta de um bar, com uma cambada de moleques com uniforme de escola, entre seis e nove anos, em volta de mim, todos me olhando, curiosos.
Ótimo, Félix. Dormiu em uma calçada. Bêbado. Cheirando como um gambá. Com crianças catarrentas observando.
- Hei, meninos – digo, me levantando. – Nunca engravidem sua vítima de oferenda ao Diabo. Ou você se ferra.
Fui para o trailer.
Derek estava tomando café com uma garota da escola, os dois rindo demais. Ela usava apenas uma camisa dele por cima da roupa íntima, e parecia se divertir comendo cereal velho.
Notei, espantado, que o trailer estava quase limpo.
Derek havia realmente se preparado para receber a mina.
- Hei, camarada! Já de volta? – Pergunta ele. – Essa é a Jéssica.
- Oi. – Diz a garota, me olhando espantada.
Passo por eles e me fecho no banheiro para tomar uma ducha, ciente da minha cara encardida de quem dormiu na rua.
Escutei Derek se despedindo da garota, e ele pareceu preocupado comigo quando entrei na sala.
- Cara... Você estava imundo! Achei que fosse dormir com a princesinha ontem.
O encaro, sério.
- Aurélia está grávida.
Derek arregala os olhos.
- Puta que pariu... Sério?
- Acha que eu estou brincando? – Pergunto, irritado e cansado.
- Putz, cara... Agora ferrou! Marcou bobeira, não foi?
- A gente sempre se cuidou. – Digo, cerrando os punhos. – Não sei o que deu errado.
Derek me olhou com visível pena.
- E aí... O pai dela já sabe? Vocês vão ter que casar, meu chapa?
Balanço a cabeça negativamente.
- Não. Ela disse que é rica e não precisa de ajuda. Terminou nosso lance e quer criar o bebê sozinha. Não quer pensão, nem casamento... Não me quer na vida dela.
Derek me encarou, boquiaberto. Depois sorriu.
- Caraca! Mano, você é o cara mais sortudo da face da terra! Se safou legal!
Só então ele percebeu minha cara de velório.
- Discordo de você. – Eu disse, com um suspiro.
- Poxa, Félix... Você estava mesmo amarradão nela, não estava?
Faço que não com a cabeça.
Não era isso.
Eu não estava sentido por causa de Aurélia.
Era por causa do tempo perdido.
Teria que encontrar outra alma humana para condenar ao inferno em seis dias, e ia dar um trabalho lascado. Só isso.
- Confesse que ficou amarrado! – Insiste Derek. – Até os mestres como você caem nessa às vezes.
- Ok, ok – digo. – Eu gostava dela. Satisfeito?
- Você não disse nada pra ela?
- Como assim?
- Sei lá... Ter um filho não é moleza. Mas você não se ofereceu pra ajudar, ou visitar o júnior de vez em quando?
Estreito os olhos.
- Ora... Cale a droga da sua boca! – Digo, saindo do trailer e batendo a porta.
Derek abre a porta atrás de mim.
- Hey! Fica frio, brother! Eu só queria ajudar! – Gritou ele.
- Que parte não ficou clara pra você? – Pergunto, me virando. – Ela não precisa de mim. Me deu o fora, cara! Eu levei um fora!
Começo a andar, nervoso.
Ascendo um cigarro. Só havia uma pessoa que poderia me ajudar.

***

- Mãe! – Chamo, batendo na porta. – Por favor, esteja em casa...
Escuto os passos dela do outro lado, e ela abre a porta com um sorriso de lado.
- Félix! – Exclama, me dando um beijo estalado na bochecha e passando a mão no meu cabelo. – Então, garotão... O grande dia está chegando.
Ela pisca um olho, me convidando para entrar.
Eu tinha até me esquecido do quanto ela parecia jovem agora. Era medonho.
Olho em volta.
- Electra... Não está, não é?
Ela sorri.
- Não... Porque? Algum interesse?
Reviro os olhos.
- Faça-me o favor...
- Porque não, Félix? Ela é bonita, experiente, poderosa...
- E rodada. – Acrescento.
Minha mãe balança a cabeça e se dirige para a cozinha.
- Aceita uma batida, rapaz?
- Manda a ver. – Peço, me sentando a mesa. – Mãe... Preciso falar com você. Sobre o ritual de iniciação.
- Qual o problema? – Pergunta ela, passando a bebida de maracujá e vinho do liquidificador para o copo. – A garota está desconfiada?
- Não tem mais garota. – Solto, encarando a mesa de mármore. – Ela caiu fora. A notícia ruim é que talvez você logo seja avó. A boa... É que nunca vai conhecer o seu neto.
Arrisquei levantar os olhos para ela.
Minha mãe estava em chamas, literalmente.
Os olhos faiscavam de raiva, ódio puro. Os cabelos avermelhados pareciam labaredas. E ela segurava com tanta força o copo de vidro que o pobre coitado acabou se espatifando em centenas de cacos.
Ferrou.
- Félix Brian Maya! – Gritou ela. – Como pode ser tão estúpido? Deixou uma garota grávida escapar? Sabe o quanto Ele iria gostar de receber duas almas?
Me levanto, indignado.
- Hey! Você queria que eu oferecesse meu próprio filho como oferenda?
Ela dá um sorriso amargo.
- Surpresa, querido. Somos demônios. É o que fazemos!
- Então você me ofereceria como sacrifício? – Pergunto, sentindo meus olhos também ficarem vermelhos e quentes. – é isso, Eveline?
O sorriso dela sumiu.
- Não seja ridículo, Félix. E pare com esse drama. Porque não está providenciando uma nova vítima?
- Foi por isso que vim até aqui. – Digo, jogando-me novamente na cadeira. – Você tem alguma coisa para me indicar?
Ela suspirou.
- Vejamos... O sacrifício é bem melhor quando se trata de alguém que você conhece profundamente. A sensação de entregá-la é mais profunda... Hei, seu amiguinho do trailer confia bastante em você, não é?
Paro e a encaro.
Ela estava falando mesmo sério?
- Isso é inacreditável! – Berro. – Agora você quer que eu sacrifique o cara que me deu abrigo depois que você surtou?
Minha mãe cruza os braços.
- Félix, o que está havendo? São os hormônios ou o seu santo papaizinho andou colocando coisas na sua cabeça?
- Pare! – Exijo. – Eu não sou como ele. Mas também não sou como você. Mas que droga...
Saio da cozinha, irritado.
Tive vontade de ir para o meu quarto, mas lembrei da decoração nojenta de Electra e me tranquei no porão.
Sentei no meio de toda a tralha empoeirada, e apoiei a cabeça nos joelhos.
Estava tudo uma droga.
Eu estava com raiva da minha mãe, que já não me dava a mínima. De Aurélia, por não precisar de mim. De Derek, que não sabia nem entendia bosta nenhuma.
E, principalmente, do meu pai.
Porque ele havia abandonado minha mãe grávida, e só, agora, quando eu já tinha quinze anos e opinião formada, tinha aparecido?
Pior: eu também não criaria o meu filho.
Droga. Droga. Droga.
Abandonar uma mulher grávida não era coisa de macho. Não era o que eu sempre dizia?
Que tipo de fracote eu me tornei?
Agora, que eu conhecia minha mãe como um demônio, me perguntei se ela teria cuidado de mim por todos esses anos se não tivesse perdido os poderes.
Pela primeira vez, tentei ver o lado do meu pai. Ele sempre dizia que tinha feito tudo pelo bem dela...
Não, porra.
Peguei uma caixa de papelão cheia de bagunças e atirei na parede, com raiva.
Minha cabeça estava explodindo.
Parecia que nada mais fazia sentido.
Eu jamais me tornaria um anjo.
E não sabia se realmente queria ser um demônio.
Para que? Me tornar um hipócrita, falso, e não poder confiar em ninguém? Não, obrigado.
Prefiro continuar jogando sinuca em bares toda quinta.
Chutei outra caixa.
O que você faz quando descobre que não quer mais aquilo pelo qual você sempre lutou?
- O que eu quero agora? – Disse, em voz alta.
Mas a resposta não estava ali.

***
Sai de casa sem rumo, chutando uma pedra pela rua deserta.
Eu não tinha pique nem para me embebedar.
Em compensação, estava faminto.
Um carro de luxo parou ao meu lado, o motor rugindo interrompeu meus pensamentos.
Meu pai me encarou por trás dos óculos escuros de armação azul.
- Topa um almoço? – Perguntou ele, com um meio sorriso.
Olhei boquiaberto para o conversível prateado.
Só podia ser brincadeira.
- Não sabia que anjos podiam ostentar luxos terrenos. – Disse, sem conseguir conter o veneno e morrendo de inveja.
- É um prêmio por bom comportamento. – Responde ele, abrindo a porta. – E então? Almoço?
Eu queria mandá-lo se foder. Mas meu estômago estava roncando, exigente, e hoje eu me encontrava em um dia desses em que não se está nem aí pra nada.
- Será por sua conta. – Aviso, entrando no carro.
Ele assentiu, dando partida em uma velocidade baixa demais para o meu gosto.
- Você está em um conversível e vai conduzir a 60 por hora? – Pergunto, incrédulo.
- É o limite de velocidade permitido nessa estrada, Félix. – Diz ele, serio.
Dou uma gargalhada de escárnio.
- Essa é a maior idiotice que eu já ouvi!
Ele resolve me ignorar.
- Pelo jeito, você esteve com a sua mãe. Como Eveline está? – Pergunta ele.
- Ora – digo, estreitando os olhos. – Não é da sua conta. Se quiser saber dela, bata na porta de casa. Ela terá o maior prazer em rasgá-lo ao meio.
Novamente, ele ignorou minha afronta, estacionando o carro em frente ao restaurante.
Depois tirou os óculos escuros e me encarou.
- Desde que eu fiquei sabendo que Eveline se tornou um demônio novamente, estive pensando em uma maneira de ajudá-la.
O encarei de volta, amargo.
- Não se preocupe, pai. Quando eu for um demônio, darei um jeito.
- Pare de fingir, Félix. – Disse ele, franzindo o cenho. – Eu sei que você não quer mais ser um demônio.
Virei o rosto, irritado.
- Você não sabe de nada.
- Ao contrário – disse ele, num tom autoritário. – Eu sei de muita coisa. Sei o quanto você está confuso. Sei o quanto Eveline pode ser volúvel e incompreensiva quando consegue algum poder. E sei também que você está prestes a cometer o mesmo erro que eu cometi dezesseis anos atrás.
Devagar, voltei a olhar pra ele.
Droga.
Nem com toda a minha teimosia eu poderia contraria-lo.
Suspirei.
- O que eu faço, pai?

CONTINUA

4 comentários:

  1. Postarei o próximo capítulo em breve, pode deixar!
    Provavelmente ainda hoje... XD

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  2. Giovanna vc me concederia uma entrevista?


    raffaelpetter.blogspot.com

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  3. Uau!
    Uma entrevista? Comigo??? Rsrsrs
    Bem...
    Seria uma grande honra! :D

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