domingo, 7 de outubro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - Prólogo



- Félix, eu estou com medo.
Aurélia arregalava os olhos castanhos, seus dedos apertando os meus, implorando.
Ainda não estava chovendo, embora os clarões e relâmpagos deixassem uma energia sinistra no ar. Mas eu não deixaria que nada me atrapalhasse naquele momento.
Sempre havia esperado por isso, e agora era hora.
Finalmente, 16 anos.
- Por favor, vamos embora!
Aurélia implorava.
Ah, querida Lila... Eu não queria te ver magoada assim.
Mas não tem outro jeito.
Sentirei falta dela, não nego.
As noites que passamos juntos, o cheiro daqueles cabelos loucamente arroxeados, as risadas...
Mas esse era o nosso destino. Eu seria um demônio, e Aurélia minha oferenda a Ele.
Ela tremia, colocando-se junto a mim, com lágrimas.
Acho que Aurélia não conseguia ver os demônios ao nosso redor, vultos correndo entre as árvores, ocultos pelas sombras. Mas ela deveria estar sentindo o cheiro de enxofre, e a presença da maldade.
A alma dela era como um banquete para aqueles como eu: desesperada, irada, tentando se agarrar a qualquer minúscula faísca de felicidade que pudesse existir em seu mundo fútil...
Ele estava chegando perto, e o cheiro de enxofre ficou mais forte.
Aurélia congelou, cheia de pavor.
Os olhos dele se encontraram com os meus por um instante, aqueles olhos de brasa, o anjo que traiu Deus.
Abaixei minha cabeça, em sinal de respeito. E empurrei Aurélia na direção dele.
Adeus, garota.
Ela gritou quando Ele a puxou com as suas garras, direto para as profundezas do inferno.
Não tive tempo de pensar sobre isso naquele momento.
Eu estava em chamas.
Queimando por dentro, sentindo a maldade me atravessando, me dilacerando, para garantir que eu fosse um ser desprezível e cruel enquanto existisse.
Doía pra cacete.
Ninguém tinha me contado essa parte. Virar um demônio dói, mas eu nem ligava. Estava em êxtase.
Junto com a maldade, vinha o poder.
Comecei a gargalhar no meio daquela dor desgraçada, e senti meu corpo arder. As chamas pareciam me engolir.
Começou um incêndio na floresta, as árvores sendo devoradas pelo fogo.
Os demônios saltavam, riam, festejavam.
Vi minha mãe, o cabelo ardente, sorrindo pra mim.
Olhe para você, querido. Eu disse que seria maravilhoso.
 Gargalhei novamente, e comecei a correr pela floresta, ignorando os trovões, cuspindo labaredas de fogo, explodindo em poder e maldade.
Aquilo era o que eu sempre desejei.
Ser um demônio completo, ter poder ilimitado.
Saltei um tronco caído, aterrissando quase dez metros adiante. Caramba. Eu tinha muitas habilidades para testar.
Decidi que começaria com uma visita ao prédio da escola...
Então um golpe me acertou em cheio, ferrando com tudo.
Cai na lama, quase sem ar.
Foi um golpe duro, diferente da dor das chamas. Era uma espécie de choque elétrico violento.
Olhei para cima, notando uma luminosidade branca, diferente da luz vermelha e doente do fogo.
Era o meu pai.
As asas estavam abertas, brancas e impiedosas.
E ele estava segurando a espada que me atingira.
Olhei nos olhos dele, e o azul parecia me ferir, mais do que o fogo ou a espada. Eu nunca o tinha visto com aquela expressão antes. Dura, gélida.
- Eu avisei, Félix.
Foram as únicas palavras dele, antes de atravessar meu corpo com a espada.
Urrei com a dor, a única coisa que restava depois que tudo aos poucos desaparecia.

***
Me sentei na cama, tenso.
Senti meu corpo molhado com o suor frio.
Eu havia tido aquele maldito sonho outra vez.
Aurélia se remexeu ao meu lado.
- Félix? Você tá legal? – Perguntou, com voz sonolenta.
- Estou. – Respondo, ainda sentindo meu coração bater depressa. – Foi só um pesadelo.
Respirei fundo e abri a janela do quarto.
O sol ainda nem havia nascido.
Ascendi um cigarro, me acalmando aos poucos.
Droga. Mil vezes droga.
Meu aniversário é daqui a um mês e eu não paro de ter esse sonho kabuloso.
Meu pai me matando com aquela espada.
Eu, finalmente um demônio.
E Aurélia...
Olhei para ela, vendo sua silhueta respirar suavemente debaixo dos lençóis.
Aurélia nem imaginava que dentro de um mês queimaria no inferno como uma oferenda.
E que eu seria o responsável por isso.

CONTINUA

2 comentários:

  1. OMG!!!!! ESTA MUITO PERFEITA!!! CONTINUA?!

    ResponderExcluir
  2. Haha... Lá vai, Carla! :D
    Estava com saudade do Félix, né?
    Aushaushaushaushaush

    ResponderExcluir