sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A ESCRITORA


Eram sete horas de uma noite de julho.
O frio parecia atravessar minha alma enquanto eu esperava no ponto de ônibus.
Por sorte, o moletom do uniforme escolar protegia minha pele do vento gelado, que apenas atingia meu cabelo em uma desordem graciosa.
As risadas dos outros estudantes pareciam distantes do meu presente, onde só o peso da mochila em minhas costas parecia me prender.
O ônibus logo chegou, felizmente. Embarquei.
Ignorei os rostos pálidos e vazios dos outros passageiros ao meu redor e conectei os fones de ouvido no celular. As sinfonias, hora doces, hora radicais, me invadiram enquanto o mundo lá fora se tornava um borrão de cores através da vidraça fria.
Fechei os olhos. Eu estava indo para casa.
Já sabia que não haveria ninguém lá.
Minha mãe havia viajado com os meus irmãos para a casa dos meus avós, e só retornariam no sábado.
Eu não quis ir.
A solidão me chamava.
O silêncio era absoluto quando entrei em casa e tirei os fones, mas de maneira alguma me senti sozinha: sentia as sombras passando pelos cômodos.
Jantei algum prato de preparo simples.
Não havia nada na TV.
Fui para o meu quarto, minha bagunça organizada e familiar. O que eu via diante de mim não era um computador: era a minha máquina de escrever histórias.
Liguei a máquina, que era lenta, porém querida. Passei os dedos pelos livros na escrivaninha.
As capas impecáveis, as folhas com cheiro de literatura... Eu vivia para os livros.
Os barulhos lá fora começaram: passos, vozes... Na cozinha, estalos e mais sombras. Mas eu não tinha medo. Não nessa noite.
Eu era uma garota sozinha na casa inquieta, mas também era a escritora, criadora de outros mundos.
E enquanto martelava o teclado freneticamente por horas a fio, vez ou outra um calafrio me percorria enquanto os gatos brigavam no telhado. Mesmo assim, eu estava em paz com meus vampiros, fantasmas, bruxas e outras criaturas.
Engraçado.
Me lembrei agora que toda vez que termino de ler um livro, o seguro com força e olho para sua capa. Principalmente para o nome do autor. E aquela conhecida ideia me vem a cabeça: quando você escreve bem, pode controlar as pessoas.
Palavras podem fazer as pessoas rirem, chorarem, refletirem... Podem lhes trazer dor, prazer, desprezo, euforia.
Escritores de verdade têm esse poder. Assim como, mesmo depois da morte, eles permanecem vivos através das páginas de suas criações.
Escritores de verdade... São deuses no mundo das palavras escritas.
Olhei para o texto diante de mim, e como eu sofri então. Não estava ruim. Os poucos leitores do meu blog iriam gostar.
Mesmo assim suspirei, fechando os olhos.
Ainda não era o que queria. Porém, eu ainda tinha uma vida pela frente. O que são 15 anos? Ainda havia tempo de aperfeiçoar, livros novos para ler e cheirar.
Mais tarde, quando desliguei a máquina e fui me deitar, eu ainda escutava vozes, e chamavam pelo meu nome.
Saiam de dentro de mim, do meu coração, e se tornavam quase reais.
E naquela noite eu não dormi.
Naquela noite, eu treinei para morrer.

Giovanna Rubbo, Julho de 2011

8 comentários:

  1. gostei. :)
    alías, gosto de grande parte das coisas que vc posta aqui.

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  2. perfeito esse texto Gi!!! ta de mais! amo muito seus textos!

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  3. Uou, esse texto ficou impactante Giovanna......

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  4. Nossa Giovanna, amei esse texto! Afinal como ja ti falei no facebook: Amo tudo que você posta aqui! Parabens garota, a cada nova postagem nós, os seus leitores e seguidores, vemos como você esta ficando maravilhosa e com uma criatividade que muitos tem invejinha! Parabens Gi! Você é demais, continue assim pra sempre blz?! bjss ;)

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  5. Giovanna o seu texto me motivou a continuar a escrever...Estive pensando em deletar meu blog e ao ler seu relato desisti de tal ideia maluca...

    Obrigado de um provável amigo escritor.

    raffaelpetter.blogspot.com

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  6. Agradeço a todos pelo incentivo...
    Jamais desistam de seus sonhos, queridos leitores. São os sonhos o maior alimento de uma alma feliz. :D

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