domingo, 11 de novembro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 6



6. Provações

- Primeiro: o que você acha que deve fazer? – Ele me perguntou, encarando-me com firmeza.
Olhei em volta, para todas as pessoas no restaurante self-service, que não poderiam imaginar que havia um anjo almoçando com o filho-quase-demônio na mesa perto da janela.
- Eu não sei. – Respondi, emburrado, olhando para o meu prato de batatas fritas. – Só sei que um anjo eu não quero ser, isso eu te garanto.
- Esqueça um pouco essa coisa de anjos e demônios. O que você, Félix, um rapaz de quase dezesseis anos, realmente quer?
- Uma garrafa de Smirnoff Ice. – Peço, abrindo um sorriso de canto.
Ele me encara, reprovador.
- Nem pensar. Vou te pedir uma Coca-Cola.
Dou de ombros.
- Eu não sei o que eu quero. – Digo, finalmente. – E não adianta me pedir para me esquecer do lance de anjo/demônio porque eu não tenho chances de ser um cara normal, mesmo se quisesse. Cedo ou tarde, vou ter que escolher meu caminho.
Ele assentiu, devagar.
- E você acha que está sozinho nessa? – Perguntou.
O olho com desprezo.
- Claro que estou! Minha mãe surtou e eu odeio você.
- Mas porque você me odeia? – Indagou ele, me encarando. – Porque sou um anjo, ou pelos meus erros no passado?
- ! – Exclamo. – É obvio que não te odeio por ter um par de asas, apesar de achar boiolice.
- Então – continuou ele, ignorando minha provocação, como sempre. – Não seja como eu, filho. Não abandone as pessoas que são importantes para você, encontre um lugar para elas no seu futuro.
O olhei por alguns segundos, sem entender. E então a ficha caiu.
Me lembrei de Aurélia e alguma coisa dentro do meu peito pareceu doer.
- Se você estiver se referindo à Aurélia – digo, sem conseguir evitar um tom abatido. – Pode esquecer. Ela não quer me ver nem pintado. Nem mesmo quer que eu a ajude com o nosso filho. Ela é rica e não precisa de um cara como eu na vida dela.
- Como pode saber disso? – Perguntou ele, e apesar de sério parecia sorrir com os olhos. E isso era muito gay.
- Porque ela me disse, pô. – Respondo.
- Sim, ela disse... Mas será que ela realmente sente isso?
Revirei os olhos e fiz menção de me levantar e cair fora. Aquele papo já estava me enojando.
- Espere – disse ele. – Pense, Félix. Talvez ela tenha testado você. Talvez, na verdade, ela tivesse esperança de que você a contrariasse, dissesse que queria cuidar dela...
- E porque diabos eu faria isso? – Indago, perplexo.
A verdade é que, nem por um segundo, eu havia pensado por esse ângulo.
- Se Aurélia não estivesse esperando um filho meu – continuo. – Ela seria meu sacrifício no meu rito de iniciação em alguns dias. Na verdade, ela se safou legal.
- Você não iria ter coragem de sacrificá-la. – Disse ele, simplesmente, limpando a boca com um guardanapo.
Meus olhos faiscaram.
- Não? Você que pensa.
Ele me encarou, erguendo uma sobrancelha. Quase sacana, ressaltando nossa semelhança física.
- Félix, Félix – começou ele. – Acho que está na hora de você escutar a verdade. Pode me desprezar por ser um anjo, mas não pode negar que percebo os sentimentos das pessoas de forma transparente, assim como um demônio pode sentir o desespero delas. E eu te digo que Aurélia é apaixonada por você, e está sofrendo muito por você a ter deixado.
- Isso não é problema meu... – Começo.
- E você também gosta muito dela. – Disse ele, sem me deixar terminar.
O encaro.
- Ora, seu anjo iludido – digo, sorrindo com malícia. – Não confunda amor com sexo, por favor.
Eu estava pronto para me levantar e ir embora, porque eu estava quase certo de que ele suspiraria e começaria a me dar um sermão inútil, mas me enganei.
Foi ele quem se levantou, e bateu com força o pulso na mesa.
Quase me assustei.
Ao nosso redor, tudo parou. As pessoas estavam paralisadas, como se fossem um filme que alguém pausou com um controle remoto.
Uau... Como ele fazia isso?
Mas não pude perguntar.
Porque os olhos dele brilhavam com uma fúria azul, e as asas brancas haviam se desdobrado de suas costas. Naquele momento, as plumas pareciam garras que queriam me retalhar.
- Escute bem uma coisa – retomou ele, com uma voz forte e autoritária, que eu nunca o havia visto usar. – Deixe de ser criança. Pelo amor de Deus! Você tem quase dezesseis anos! Pare de se fazer de vítima do destino, pare de se esconder embaixo da saia da mamãe e assuma a responsabilidade dos seus atos! Sei que não sou a pessoa mais certa do mundo para dizer isso, mas você já deveria ter aprendido com os meus erros, se fosse um pouco sábio. Se você é maduro o suficiente para criticar, Félix, vai ter que ser maduro o suficiente para ser sincero consigo mesmo e agir como um homem!
Eu o encarava, boquiaberto.
Ninguém nunca havia falado comigo assim antes.
- Seja um demônio, um vagabundo, um encrenqueiro ou o que quiser. – Continuou ele. – Mas tenha ao menos um pouco de valentia e lute de verdade por aquilo que você sabe que é importante.
Estremeci.
Não por estar com medo dele, apesar de ter ficado um pouco assustado. Mas porque ele estava certo. Totalmente certo, dessa vez.
- Pegue. – Disse ele, observando minha expressão e me atirando a chave do carro. – Sabe o que fazer. Mas não corra muito.
Me levantei, com minha respiração um pouco acelerada. Um anjo (justamente meu pai) estava me dando a chave de um conversível - e eu ainda nem tinha dezesseis anos completos.
Nem precisa dizer que, de um inútil completo eu passara a me sentir o cara.
Não disse nada a ele, apenas lhe dei um meio sorriso antes de correr para o estacionamento.
Eu tinha que encontrar Aurélia.

***

Comecei a dirigir na direção da casa dos Santoro, mas no meio do caminho me lembrei que era tarde demais. Aurélia havia partido naquela manhã para as Ilhas Gêmeas.
Parei o carro e tentei ligar pra ela, mas provavelmente o celular dela estava fora de área.
Mas eu não podia desistir.
Naquele momento, eu me sentia livre e determinado, e não encurralado e pressionado como nos últimos dias.
Era como se, depois de uma crise existencial e muita bebedeira, eu houvesse voltado a ser eu. E era ótimo.
Félix era Félix de novo. E Félix só é verdadeiramente o Félix quando está aprontando as suas e correndo atrás da sua garota de cabelos roxos. Você sabe disso.
Porque ela é minha.
E nada nem ninguém pode me tirar o que é meu.
Virei o carro, cantando pneu. Eu não era um dos melhores motoristas, mas ia ter que dar.
Dirigi sem parar por quase uma hora, ouvindo Guns n’ Roses no rádio do carro e rindo por dentro da inveja dos pedestres, até chegar ao porto de Fatalville.
Saltei do carro e fui direto falar com Mário, um antigo amigo da minha mãe. Ela o havia livrado de uma pena bastante longa por contrabando, nos tempos de advogada (como pareciam distantes...), e o cara sabia ser grato.
- Preciso de uma lancha. – Eu disse, assim que entrei no escritório.
Ele me olhou de cima a baixo por um momento.
- Que tipo de lancha, rapaz?
- A mais rápida que você tiver. – Repondo, encarando-o. - Preciso chegar até as Ilhas Gêmeas, e depressa.
- Ilhas Gêmeas, heim... – Diz ele, antes de se virar para os homens que jogavam xadrez sentados no píer. – Hei, Pacheco... Pegue a Cigarette 46 e leve o filhote da Eveline até as Ilhas Gêmeas. Por conta da casa.
Ele me deu uma piscadela, jogando um molhe de chaves para um dos caras.

***

As Ilhas Gêmeas eram um conjunto de ilhas localizadas a 250 quilômetros do litoral de Fatalville. Eram duas ilhas grandes e bastante parecidas, quase gêmeas, e algumas outras ilhotinhas ao redor delas.
Por mais que eu tentasse, não conseguia ligar para Aurélia, e eu não sabia em qual das ilhas ela estava. Tivemos que parar em vários píeres para perguntar se a Srta. Santoro encontrava-se hospedada em algum hotel por ali, e na maioria das vezes não sabiam nos dizer.
Eu já estava ficando puto da vida. Parecia impossível encontrar aquela garota!
Já estava anoitecendo, e o cara que pilotava a lancha começou a reclamar, dizendo que teríamos que voltar.
Até que avistamos um iate de tamanho razoável atracado em um dos deques. Estava escrito Santoro na traseira do barco.
Não podia ser coincidência.
Berrei para que o cara encostasse a lancha e saltei, desesperado, para o cais. Olhei em volta. Haviam alguns homens recolhendo equipamentos de pesca.
- Vocês! – Gritei, quase sem fôlego. – Viram se uma moça de cabelo roxo chegou aqui hoje de manhã, naquele barco?
- Nóis viu, sim senhô – respondeu um deles, que tinha um dente faltando. Eu riria se não estivesse tão tenso. – Ela deve tá nu hoter Delphiniums logo ali. É ondi os turista fica, uai!
Me voltei para onde ele apontava, e vi o tal hotel. Era bem grande, paredes brancas, três andares e pelo menos 20 sacadas.
Corri para lá como um louco, entre as palmeiras e outras plantas estúpidas que separavam o hotel do píer.
Entrei ofegante no elegante saguão, e perguntei na recepção pela Srta. Aurélia Santoro.
A recepcionista torceu o nariz para a minha aparência desalinhada.
- A Srta. Santoro não se encontra no momento. O senhor quer deixar recado ou um bilhete?
Ergui uma sobrancelha, frustrado.
Sério? Um bilhete? Só se for para você enfiar no rabo!
- Não. Vou esperar por ela. – Respondo.
Me encaminhei para a parte da frente do hotel, chutando a areia.
Droga.
Olhei ao redor. O Hotel Delphiniums dava de frente para a uma praia de areia clara, e o céu estava laranja por causa do pôr do sol.
Busquei com os olhos algum sinal de vida no horizonte, até localizar uma silhueta caminhando na beira do mar. Ela estava bastante longe, mas a cor roxa do cabelo era como um ponto de referência.
Eu não sei descrever direito o que aconteceu comigo nesse momento. Foi como se tudo dentro de mim se agitasse, e meu coração bateu mais rápido.
Eu sei que é ridículo, mas é verdade.
Comecei a correr, me livrando do tênis e das meias pelo caminho, sentindo a areia morna sob os meus pés.
Era uma sensação eufórica, maluca mesmo. Como quando eu persuadia alguém a fazer uma idiotice. Ou como quando eu batia meu próprio recorde no guitar hero.
Naquele momento, eu queria abraçar Aurélia, olhar nos olhos dela e dizer de uma vez por todas que ela era a minha, e que eu não a deixaria ir, nem a dividiria com mais ninguém...
Quando eu já estava perto o suficiente para poder vê-la direito, parei e fiquei observando-a. Ela caminhava devagar, molhando os pés na água do mar. O vento soprava contra os cabelos e o vestido branco dela.
Usava óculos escuros, e tinha uma expressão muito serena.
Sorri. A serenidade dela estava prestes a acabar...
Foi então que ela me viu.
Aurélia ficou totalmente paralisada. Deixou as sandálias que segurava caírem no chão. A boca se abriu um pouco, surpresa. E imaginei os olhos castanhos arregalados atrás dos óculos escuros.
- Oi, Lila. – Eu disse, me aproximando.
Parei diante dela.
- Félix! Eu não... O que você está fazendo aqui?
Respirei fundo. Parecia cena de alguma comédia romântica clichê que passava na TV a cabo.
O pior era que eu era o mocinho. Nunca pensei que isso iria acontecer comigo...
- Isso não é obvio? – Indaguei, segurando-a devagar pelos ombros. – Vim atrás de você, garota.
Ela suspirou.
- Félix...
- Me deixa terminar. – Pedi. – Eu sei que você disse que não precisa de mim para te ajudar. Mas eu quero fazer parte disso. Tá legal, eu provavelmente não sou do tipo responsável, que daria o melhor pai do mundo... Mas isso não significa que eu vou tirar o time de campo. Você é a minha mina, e se vamos ter um bebê, eu...
- Félix! – Diz ela, abrindo um sorriso. – Eu não estou grávida!
A olhei, surpreso.
- O que?!
- Estive com a minha ginecologista hoje cedinho... E eu não estou grávida. Ela disse que o teste de farmácia deve ter falhado por causa de uma remédio que eu estava tomando. Alteração hormonal e essas coisas...
Não me contive. Segurei Aurélia nos meus braços e a girei, ela riu.
- Fantástico, garota! Fantástico! – Gritei. – Digo... É melhor que o júnior espere um pouco mais, não é? Ah, Lila...
A coloquei no chão e a olhei.
- Está tudo perfeito. – Eu disse, com franqueza. – Olhe para esse lugar lindo... E eu não esqueci do seu aniversário. E aposto que você também não se esqueceu do presente que eu ia te dar...
Me inclinei para beijá-la, já imaginando a noite fantástica que teríamos, mas Aurélia se afastou.
- Espere um pouquinho. – Ela parecia um pouco nervosa. - Félix... Eu tenho que te dizer uma coisa.
- Ah, qual é... – Começo, fazendo minha melhor cara de Gato de Botas do Sherek. – Não vai continuar se fazendo de difícil comigo, vai? Eu vim até aqui por você... Eu gosto pra caramba de você. E acho que você nunca mais deveria ficar zangada comigo.
- Não é isso. – Diz ela, dando um meio sorriso tenso. – Na verdade... Nossa, nem sei por onde começar. Talvez você fique um pouco zangado dessa vez...
Olhei para Aurélia, os últimos raios de sol refletindo nas lentes escuras dos óculos Gucci.
Eu não entendia o desconforto dela.
Depois de tudo aquilo, queria estar nos braços dela a noite toda, sem pensar no dia de amanhã e que se dane o resto do mundo.
Passei a mão pelo cabelo roxo e ondulado, e fiz menção de tirar os óculos dela. Aurélia me deteve por um momento, mas depois suspirou.
- É, tire-os. – Disse ela. – É melhor que você mesmo veja.
Eu ainda não tinha entendido, então dei de ombros, pronto para tirar os óculos, o vestido e o que mais ela deixasse enquanto estivéssemos na praia.
Mas quando tirei com cuidado os óculos do rosto dela e Aurélia me encarou, fiquei gelado até a alma.
- Puta que pariu... – Murmurei, sentindo como se alguém tivesse me dado um murro na boca do estômago.
Os olhos dela estavam azuis.

CONTINUA

5 comentários:

  1. Ela é um anjo???? Como? É isso mesmo?! Não acredito! A história esta de mais Giovanna! Perfeita! Eu amo de mais o seu blog! Beijos!

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  2. oh My God...... E agora? será que o Félix vai se tornar mesmo um demônio? Ou não? Tá muito legal essa história Giovanna!

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  3. Pessoa, atendendo a seu pedido vou começar a ler essa série, se eu for julgar apenas pelos comentarios que vi aqui eu devo dizer que voce é uma ótima escritora, depois que eu terminar de ler realmente eu te falo a nota que te dou.
    Ass: um espirito

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  4. Giovanna estou amando a série...Posso te pedir um favor?Será que você poderia indicar meu blog e em troca indicaria o seu?
    Se for possivel responde lá no blog, tá?

    Bjos do gordo

    raffaelpetter.blogspot.com

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  5. Oi, pessoal!
    Obrigada por lerem a série, obrigada por comentarem! XD
    E será um prazer, Raffael Petter! ;D

    Um grande abraço para todos!

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