domingo, 18 de novembro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 7



7. Coisas Proibidas

- Félix, pelo amor de Deus... Fale comigo! – Aurélia me pediu.
Mas eu não conseguia nem olhar para ela.
Não para aqueles olhos azuis irritantemente serenos.
Eu me sentia traído, enganado.
Tudo o que consegui fazer foi me afastar dela e me sentar na areia, com as mãos na cabeça e os cotovelos apoiados nos joelhos, tentando não chorar de desespero e ódio.
Acho que nunca havia me sentido tão estranho, tão furioso e decepcionado em toda a minha vida.
- Félix... – A voz de Aurélia estava um pouco embargada. – Grite comigo. Me bata se quiser. Mas não finja que eu não existo. Diga alguma coisa...
A olhei, sentindo meus olhos ficando vermelhos, quase uma ironia.
- O que quer que eu diga? Que você fica bem de olhos azuis? Ou que você é uma traidora miserável, heim?
Aurélia limpou uma lágrima que ameaçava escorrer pelo rosto dela.
- Quem eu trai, Félix? Quem?
- A mim – digo, antes que pudesse me conter. – Passou para o lado dos anjos, se tornou um deles... E nunca me disse absolutamente nada! Eu tenho nojo de você...
- Não foi assim – começa ela, perplexa, aproximando-se de mim. – Félix... Eu também não sabia de nada. Foi hoje, no meu aniversário, que eu descobri tudo...
A olhei, mas não aguentei ficar encarando-a. A dor me destruía por dentro, como um monstro. Virei a cabeça para o mar, as águas escurecendo conforme anoitecia.
- Minha mãe era um anjo – continuou Aurélia, quase sussurrando. – Hoje ela veio me visitar e conversamos pela primeira vez. Meu pai... Ele era um demônio, Félix. Era um demônio antes de conhecê-la. E ela o redimiu. E ele... Ele me telefonou e pediu que eu jamais me tornasse o que ele foi um dia. Pediu para que eu escutasse minha mãe, seguisse o mesmo caminho que ela... E foi o que eu fiz.
- Porque não virou um demônio, cacete?! – grite, sem conseguir me segurar. – Só fez o que o papai e a mamãe queriam que fosse feito, não é?
Ela fez uma expressão indignada.
- E o que se ganha virando um demônio? Infelicidade eterna? Não, obrigada. Já tive muito disso. Eu quero paz. Quero... Quero viver bem. Livre.
Assenti, furioso.
- Ok, Aurélia... Você não precisa me explicar nada. – A olhei, sentindo lágrimas de raiva escorrendo. Foda-se o mundo. Eu estava chorando mesmo, e dái? – Você simplesmente achou o máximo ganhar um par de asas e se tornar uma santinha, não é? Nem ao menos... Nem ao menos pensou em mim um só minuto.
- Como não, Félix? – Ela se ajoelhou, ficando diante de mim. – Eu só pensei em você. Minha mãe... Ela me contou o que você pretendia fazer comigo para se tornar um demônio. E imagine então como eu me senti... Acho que no fundo eu já sabia. Sempre fui um brinquedo para você, não é?
Olhei para ela, sem saber o que dizer. A raiva diminuiu um pouco.
- Sim, eu sempre te usei. – Disse, de uma vez. – Pretendia vender sua alma para o inferno no meu aniversário em troca da minha iniciação. E não ficava com a consciência nem um pouco pesada. Queria que você fosse minha, e depois fosse para o inferno. E então... Primeiro eu percebi que não conseguia ficar com outras garotas. Depois notei que ficava louco quando você me ignorava. E depois aquele lance da gravidez... Eu me perdi total. Fiquei sem saber o que queria, o que era certo fazer, o que era assunto meu e o que era assunto dos meus pais... Só queria te ver outra vez e esquecer um pouco tudo isso...
Suspirei, fechando os olhos.
Porque meu mundo tinha virado de ponta cabeça desse jeito, heim, droga?
Aurélia começou a chorar.
- Eu sei de tudo isso. – Disse ela, entre soluços. – Mas não consigo te odiar. Nem deixar de pensar em você, por um segundo que seja. Tudo o que eu quero é ser livre... E cumprir... Cumprir minha missão.
Abri os olhos e a olhei.
Pela primeira vez eu via as asas dela, desdobradas, graciosas e curvadas, como se pudessem mostrar o quanto ela estava chateada.
Eu sabia do “preço” que uma pessoa tinha que pagar para se tornar um anjo. Ao contrário de um demônio, um anjo tem que “salvar” uma alma.
Aurélia se aproximou de mim, e senti o perfume suave dela.
- Me deixe curar suas feridas – sussurrou em meu ouvido. – Por favor, Félix... Você pode não ter percebido, mas curou tantas feridas minhas...
Nós dois chorávamos na praia deserta e escura.
Nunca achei que me coração pudesse doer tanto, como se eu tivesse levado um tiro no peito. Aurélia me pedia para me entregar, diferente de mim, que pretendia obrigá-la a fazer isso.
Eu poderia agora escolher entre ser um anjo e ficar com ela ou ser um demônio e desafiá-la a me redimir.
Mas eu não queria pensar agora.
Queria apenas ser o Félix e mostrar para aquela garota a fúria que eu sentia.
- Você é uma desgraçada – eu disse, trincando os dentes. – Acabou com tudo... Fez tudo errado.
Ela permaneceu calada, e eu avancei, segurando as asas dela entre minhas mãos e rasgando as plumas com violência. Aurélia não tentou me impedir, apenas recomeçou a chorar. Eu só parei, ainda chorando, quando senti o sangue dela escorrer entre as penas brancas.
Ficamos imóveis e em silêncio por alguns minutos.
Eu ofegava, sentindo um furacão dentro de mim.
Já não conseguia enxergar quase nada na noite, mas percebi quando Aurélia se virou, secando as lágrimas.
Ela roçou os lábios nos meus com leveza.
- Você me machucou mais do que qualquer pessoa na face da terra – sussurrou ela. – Mas eu posso aguentar até o fim. Eu sei que posso. Por nós dois, Félix. Vou continuar...
Não aguentei e a beijei com desespero, apertando-a contra mim, tateando aquele corpo que eu conhecia tão bem, mas que agora era proibido, puro, mais macio e alvo, exalando aquele perfume suave e exótico...
Era excitante.
Caí sobre ela na areia, e Aurélia me agarrava também, como se tivéssemos uma necessidade absurda de ficarmos juntos naquele mesmo momento, e não pudéssemos esperar nem um segundo mais...
- Eu vou corromper sua pureza, meu anjo – sussurrei, arfante. – Você vai cair. Vai ser desonrada pelas trevas. E depois vai lamentar...
- Não – disse ela, também sem fôlego, mordiscando minha orelha, do jeito que sempre fazia. – Eu sou mais forte do que você. Sua alma será salva...
Senti cada centímetro do meu corpo esquentar. Eu me sentia mais demônio do que nunca, me perdendo entre os beijos e as carícias angelicais dela.
Naquela noite não nos deitamos como um casal de adolescentes ansioso por prazer e sacanagem. Foi muito mais do que isso. Mesmo eu não sendo um demônio completo, foi uma mistura louca e erótica do céu e do inferno.
Era nossa guerra particular e íntima entre o bem e o mal.
Uma coisa tão forte, tão proibida, que com certeza teria consequências graves no futuro.
E eu não sabia se estaria preparado para elas.

CONTINUA

4 comentários:

  1. d++++ , do outro mundo e muito caliente Giovanna! Jane Austen anda lhe fazendo muito bem... Vc já leu : As Meninas de Lygia Fagundes Telles?Leia-o. É muito bom pra nós que escrevemos em primeira pessoa.

    Abraços,

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  2. Obrigada, Raffael!
    Ah... Eu simplesmente AMO Jane Austen... Ela é um modelo pra mim. XD
    Lerei "As Meninas" assim que possível, pode deixar! Gosto muito do estilo da Lygia... ;D

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  3. Meu, que massa! È como um confronto entre duas pessoas que insistem em se amar e ao mesmo tempo a lutar. Giovanna, essa série está DEMAIS!

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  4. Obrigada, Nyquest! XD
    É verdade o que você disse: chega a ser algo um pouco masoquista, essa relação que mistura ódio e amor de uma forma física...
    Fico feliz por você ter gostado! :D

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