quarta-feira, 28 de novembro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 9


9. Dezesseis Anos

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Meu aniversário.
Eu pensava nisso quase com secura, enquanto Aurélia e eu entravamos no iate de pequeno porte que nos levaria até Fatalville. De volta a cidade dos demônios. Para me tornar um deles.
Ou não.
Olhei para o horizonte, onde as Ilhas Gêmeas logo ficariam para trás. Engoli em seco, praguejando por dentro.
Haviam sido dias tão bons, e agora tudo desabava.
Aurélia se aproximou, apertando minha mão e tentando me passar confiança. Eu não queria dizer, mas tê-la do meu lado era a única coisa que me impedia de enlouquecer geral naquele momento.

E você aprende que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.

Trechos do poema O Menestrel, de Shakespeare (que eu tive que decorar na oitava série para um seminário de literatura ou ficaria de recuperação) ficavam vindo à minha cabeça toda hora.
Eu nunca havia dado muita bola para Shakespeare e suas historinhas, mas naquele momento as palavras pareciam fazer mais sentido.
Isso aí. Um menino encapetado como eu filosofando com palavras de Shakespeare.
Talvez eu não sirva como demônio, mesmo.
Ai, porra... Eu havia planejado tudo com tanto cuidado. Estava tão bem resolvido desde que eu nasci até... Nem sei quanto tempo atrás! Só sei que estava tudo planejado.
Eu sabia o que queria... Ou achava que sabia?

Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Minha cabeça dava voltas.
Eu precisava me acalmar.
Abri o freezer do barco para pegar uma cerva, mas Aurélia o fechou na minha cara.
- Não, Félix. Você prometeu que não ia beber hoje.
Reviro os olhos.
- Ok, ok... Cara... Você já está virando minha patroa!
- Só quero que você esteja sóbrio ao ter que tomar uma decisão tão importante. – Diz ela, cruzando os braços.
Ela tinha razão.
Dessa vez, beber não seria o caminho mais fácil.
Encher a cara poderia me fazer esquecer, mas não me salvaria. Me contentei em ascender meu último cigarro, abraçando Lila no convés, enquanto o vento do oceano soprava na nossa direção.
Aquele sentimentozinho podre de sempre me atingiu enquanto eu percebi o quão angelical ela parecia, tendo o oceano de fundo.
Eu, apaixonado por um anjo.
Aquele tipo de coisa que costumamos achar que nunca vai acontecer com a gente.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Olhei para Aurélia, hesitante.
- O que você espera que eu faça? – Me atrevi a perguntar.
Ela me olhou.
- Como assim?
Soltei a fumaça do cigarro antes de continuar.
- A escolha. – Digo. – Você está esperando que eu me torne um anjo, não é?
Ela demorou um pouco para responder.
- Félix... Eu não espero nada. Só quero que você faça o que for melhor pra você. Seja como for, vou estar contigo.
Suspirei. Aquilo não ajudava em nada.
- Não sei o que é melhor pra mim. Me diga o que devo fazer. Seja meu anjo da guarda.
- Não posso decidir por você. – Responde ela, passando uma mão no meu rosto. – Ninguém pode.

Descobre que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la…
E que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Cale a boca, Shakespeare, e saia da minha cabeça, inferno...
- Queria não ter que escolher. Não agora. – Suspiro, antes que pudesse me deter.
Eu estava sendo fraco e covarde.
E sabia disso.
Justo eu, que fui criado para aguentar o que der e vier. Sempre me virei. Tentei ser como a minha mãe, forte, invulnerável... Mas estava falhando justo agora.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.

Eu via o continente cada vez mais próximo e ia ficando cada vez mais nervoso. Que droga de vida era a minha? Como eu podia me sentir o cara, achar que podia controlar todo mundo, quando não tinha controle nem sobre a porra do meu destino?

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa aonde já chegou, mas para onde está indo… mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.

- Você vai fazer o que é certo – sussurrou Aurélia, enquanto avançávamos pelo oceano, mais rápido do que eu gostaria.
- Não tenha tanta certeza – respondi, jogando a bituca do cigarro na água. – Sou péssimo em fazer o que é certo.

Aprende que, ou você controla seus atos, ou eles o controlarão… e que ser flexível não significa ser fraco, ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem, pelo menos, dois lados.

- Não se renda. – Me pede ela.
- Não me pressione. – Sussurro de volta, irritado.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

- Desculpe. – Digo, depois de uma pausa. – Você está me dando a maior moral, e eu estou sendo um cretino. Não digo que irei mudar, mas entendo o quanto é difícil me aguentar.
Aurélia sorri.
- É difícil pra caramba. Mas compensa...

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém…
Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Desembarcamos no porto de Fatalville, e eu estava apavorado, embora tentasse não demonstrar.
Era como se houvesse centenas de vozes dentro de mim, todas gritando furiosas, todas se contradizendo...
- Félix!
Me virei e vi Derek correndo na nossa direção.
- Cara... Aonde você estava? – Disse, me dando um tapinha nas costas. – Quis matar o seu chapa aqui de preocupação?
Sorri, apesar da minha tensão.
Era bom que alguém estivesse de boa, alheio a tudo o que estava acontecendo. Que fosse o Derek.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

- E aí, Aurélia – disse ele, dando um beijo no rosto dela. – Pelo visto você e o canastrão se acertaram.
- Fazer o que! – Diz ela, sorrindo.
- O que você está fazendo por aqui, seu monstro? – Pergunto.
Derek ajeita a bandana de caveira antes de falar.
- Cara... Sua mãe me ligou umas mil vezes, preocupada contigo. E hoje ela bateu lá em casa me pedindo para vir com ela buscar você.
Gelei. Minha mãe havia chamado Derek? Ah, claro. Era aquela ideia louca dela de que eu poderia condenar meu melhor amigo em troca de me tornar um demônio! Só podia...
- Quem disse pra ela onde eu estava? – Pergunto, com raiva.
Olhando em volta, logo tive a resposta.
Minha mãe e meu pai estavam discutindo alguma coisa perto de um dos barcos.
Revirei os olhos e me aproximei deles, com Aurélia e Derek logo atrás de mim.
- E aí, família – digo, sem emoção.
Minha mãe arregala os olhos e me abraça, antes de começar a me sacudir.
- Félix! Perdeu o juízo, garoto? Você desaparece assim no dia mais importante da sua vida, me deixou louca de preocupação...
Não consegui abraça-la de volta.
Havia agora um abismo entre nós. Ela era minha mãe, mas também era um demônio que precisava de mim para não perder um pacto.
E só me procurava quando precisava.
- Eu disse que ele estava bem e que iria voltar logo. – Disse meu pai, logo atrás dela. – Como se sente, Félix?
Eu não estava com ânimo nem para pirraçar com ele.
- De boa. – Respondo, desejando me afastar deles. Dos dois.
- Deixe meu filho, você não sabe nada sobre ele, Augusto. – Alfinetou minha mãe.
- Eu sabia onde ele estava, Eveline. – Meu pai se virou para mim. – Sua mãe me infernizou nos últimos dias para que eu dissesse onde você estava, mas eu só contei a ela que você estava fora da cidade e que voltaria a tempo.
Minha mãe o ignorou, porque havia percebido algo mais interessante.
- Félix... Não me diga que esteve esse tempo todo com ela! – Exclamou, aproximando-se de Aurélia e olhando fundo nos olhos azuis. – Augusto, você sabia, não? Estão envenenando a cabeça do meu filho!
- Juro que não sabia de nada. – Respondeu meu pai, sem se alterar. – Estou tão surpreso quanto você.
Briga de anjo e demônio divorciados? Não, obrigado. Hoje não estou no clima.
Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

- Podemos ir para casa? – Peço, sem saber direito com quem estava falando. Sem saber direito onde era minha casa.
- Félix Brian Maya – começa minha mãe, com os olhos faiscando. – Quero saber onde e com quem esteve, e o que anda planejando... E ai de você se disser que está cogitando a ideia de passar para o lado deles...
- Menos, Eveline – interfere meu pai. – Pare de pressiona-lo. Félix já completou dezesseis anos, e vamos ter que respeitar o que ele escolher.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.

- Respeitar? Quando ele for um demônio, você irá tentar mata-lo! – Exclamou minha mãe. – Augusto, você não vai tirá-lo de mim.
Os olhos dela faiscaram, e eu percebi que o cabelo da minha mãe estava ficando mais vermelho. A coisa estava esquentando, o que obrigaria meu pai a sacar a espada...
Derek deu um pigarro.
- Ahn... Pessoal, eu tô boiando aqui...
- Vamos embora. – Eu digo, levantando a voz. – Aqui não é o lugar para falarmos sobre isso.
Minha mãe respirou fundo antes de se voltar pra mim.
- Sim, vamos, filho. Realmente, temos que conversar. E você precisa se afastar deles.
- Não vou me separar de Félix – diz Aurélia, dando um passo a frente.
Minha mãe a olhou de cima a baixo.
- Como é, garota?
- Vou ficar com o Félix, sogrinha. – Responde Aurélia, em tom de desafio. – É o que vai ser.
- O que ela quer? Que eu deixe o seu filho em paz... – Cantarola Derek, rindo da situação.
- Derek, você tem que ir pra casa. – Digo, sério.
- Não, ele vem com a gente. – Diz minha mãe, me olhando, espantada. – O que há com você, Félix?
- Mãe... Ele não.
- É necessário, ou... Ou os anjos fizeram sua cabeça de vez? – Ela me encara, trincando os dentes. – É isso, não é? Vai passar para o lado deles e me deixar na mão, depois de tudo o que fiz pra você... Depois de tudo do que o seu querido pai fez pra mim, não é?

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não para para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar.

- Você não está vendo que não existe mais lado dele, ou o seu lado, mãe? – Pergunto, perdendo a paciência. – Que saco!
- Vamos no meu carro. – Diz meu pai, pegando as chaves do conversível.
O segui, puxando Aurélia e Derek comigo.
Minha mãe veio atrás de nós, incrédula.
Não foi fácil convencê-la a entrar no carro.
Na verdade, aquilo era muito bizarro. Meu pai dirigindo, minha mãe no banco de passageiro, reclamando da baixa velocidade, e eu, espremido entre meu amigo alheio e minha namorada anjo no banco de trás.
Eu desejei naquele momento ser apenas um cara normal. Desejei que estivéssemos indo para um restaurante comprar um bolo e cantar Parabéns pra Você, enquanto o carro avançava pela estrada, a caminho de um destino inevitável.
Nem fomos muito longe. No meio do caminho, alguma coisa atravessou a pista, obrigando meu pai a frear bruscamente.
Ele estava tenso, e minha mãe sorria.
Não é difícil imaginar o que me aguardava lá fora.

CONTINUA

5 comentários:

  1. Muito obrigada mesmo Giovana, pelo seu carinho e apoio, eu vou tentar voltar a ter inspirações para escrever mas por enquanto, o blog terá que ficar parado mesmo, não pelo motivo de cima (a falta de inspiração e criatividade) mas sim pela escola, infelizmente...
    Mesmo assim, eu não tenho palavras para descrever o quanto você está me ajudando, muito obrigada mesmo,já estava perdendo a noção da vida :\
    Enfim, agora vou comentar sobre o texto... adoro textos inteligentes que capturam vários ou só um poema que tem o mesmo propósito. Divino, sensacional... adorei.
    Beijos, Lívia S.

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  2. Obrigada, Lívia!
    E boa sorte com o seu blog, tudo de bom! :)

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  3. Esta cada vez melhor, estou ansiosa pelo próximo!

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  4. Oh My God!
    Estou torcendo para o Félix virar um anjo...

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  5. Ahhh, garotas... Andei tendo umas super ideias para essa série! Aguardem... XD

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