sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O EMO E A BRUXA


FLORENCE
30 de outubro – 22:15h

O vento fazia com que as folhas rodopiassem, picaretas, como se tivessem vida própria.
Típico do Halloween.
Parecia que o ar respirava magia.
Ah, e claro, meu cabelo também estava “típico do Halloween”, com todo aquele vento.
Subi a colina, um pouco ofegante, levando o caldeirão, a abóbora e algumas outras coisinhas.
Me arrependi de ter saído de casa de salto alto, e calos nos pés seriam o preço justo a pagar.
Olhei para a vista que eu tinha da colina, logo acima do antigo cemitério.
A cidade lá embaixo estava desperta, e, como sempre, envolvida pela névoa.
Mas em algumas horas seria diferente.
Porque todo mundo sabe que o Halloween é a única noite do ano em que a fronteira que separa o mundo humano do mundo mágico desaparece.
Eu sei. Isso é muito louco e perigoso.
Imagine só, nós e todas aquelas criaturas, em um só plano.
Seria muito mais seguro ficar com Celeste e minhas primas, dentro de casa, contando histórias ao redor da lareira, do que me arriscar naquele ritual.
Mas eu precisava vê-lo.
E, principalmente, ser vista por ele.
O garoto que não saia da minha cabeça, e que nem fazia ideia da minha existência.
Ele estava do outro lado da fronteira, e apesar dos perigos, eu estava disposta a ir até ele, talvez pudéssemos até conversar... O importante era tentar.
Mesmo que aqueles que viviam do outro lado me caçassem como nas histórias de terror que Celeste contava, valeria a pena.
Porque eu não poderia esperar mais um ano por aquele momento.

EDUARDO
30 de outubro - 22:47h

- Eduardo, você perdeu o juízo. – Foram as últimas palavras de Miguel antes de bater a porta do meu quarto e ir embora.
Eu perdi o juízo?
Só porque prefiro fazer uma experiência na noite de Halloween em vez de ir comprar uma fantasia para o baile idiota do colégio?
se danar, penso, deixando meu gibi do Capitão América de lado e me preparando para entrar no chuveiro.
Tudo bem, não comemoramos o Halloween com a mesma empolgação dos EUA, mas eu me recusava a passar a noite perdendo meu tempo vendo o povo da escola beber escondido e fumar nos banheiros, dançar músicas horríveis e se gabarem da própria futilidade, como em qualquer outra festa, só que fantasiados de monstros e pingando sangue falso.
Poupe-me.
Ao meu ver, Halloween merecia mais consideração do que isso.
Miguel era meu melhor amigo desde que eu me entendo por gente, mas se ele gostava mesmo desse tipo de babaquice, teria que ir sem mim. Entretanto, não posso culpá-lo. Ele é moderno, popular e adora se esbaldar em qualquer festa.
Enquanto eu...
Se qualquer um sair perguntando sobre Eduardo Lemos pela cidade, 80% das pessoas não saberão dizer quem é, e os outros 20% se referirão a mim como gótico, emo, esquisito e até mesmo anticristo.
Só digo que, hoje em dia, apesar de toda a propaganda que fazem sobre liberdade de expressão e as vantagens de ser diferente,um cara não pode usar franja, delineador nos olhos, curtir um pouco de rock e ler Edgar Allan Poe e Lord Byron no silêncio do cemitério sem ganhar um monte de rótulos bobos.
Bom, hoje é 30 de outubro, o que significa que, a partir da meia-noite, o véu que separa o nosso mundo e o mundo das criaturas mágicas se romperá durante 24 horas.
Pelo menos é o que as lendas dizem.
Então, quando bater meia-noite, é melhor que eu esteja no cemitério municipal esperando para ver. Não sei exatamente o que, mas se houver algo de sobrenatural, místico ou horripilante rolando, não vou perder.
Olhei mais uma vez para o relógio do celular, enquanto calçava o coturno.
Estava na hora de ir.

***
FLORENCE
30 de outubro – 23:25h

Os minutos pareciam se arrastar.
Eu já havia cortado a abóbora no estilo americano (uma cara feia), só para “dar um grau”.
As folhas secas estavam dentro do caldeirão, que eu o havia colocado bem no topo da colina. A colina seria meu ponto de partida: era um lugar com muita energia.
Me coloquei de joelhos, observando alguns túmulos no cemitério lá embaixo. Estava tudo bastante quieto, e o cenário era perfeito: ninguém apareceria por ali antes do amanhecer, quando o cemitério abria.
Respirei fundo, e me voltando para o caldeirão, sussurrei as palavras que me fariam valente.
Agora, era só esperar pela meia-noite, com bastante impaciência.

EDUARDO
30 de outubro – 23:40h

Eu já conhecia o cemitério municipal bem o suficiente para saber como entrar lá depois do anoitecer sem que o zelador me pegasse.
Todo mundo na cidade já sabia do meu gosto “sinistro” de passar as tardes lá com meus livros, meu iPod e, às vezes, meu violão.
A verdade é que ali era tudo na paz, e ninguém me incomodava. Eu não sou muito bem aceito pelas pessoas, mas os mortos nunca reclamaram de mim.
Até escutavam minhas composições melancólicas sem criticar com aquele mesmo papo de sempre: você é a penas mais um garoto “emo” que sabe tocar violão, existem milhares como você por aí.
Como se eu quisesse fama ou dinheiro, e não apenas ficar no meu canto com a minha música.
Foi fácil pular o muro pela lateral do terreno e me dirigir para o túmulo da Família Lemos, onde, talvez, um dia eu também estaria encarcerado para sempre.
Eu achava o túmulo da nossa família um dos mais bem localizados: logo abaixo da colina, na parte mais antiga do cemitério.
Usei a luz da lanterninha do meu celular para chegar lá.
Me deitei confortavelmente sobre a sepultura fria, olhando para o céu. Se não me aparecesse nada, pelo menos seria uma noite agradável para fumar um cigarro, olhar as estrelas e pensar em uma nova música.
Mas eu ainda tinha esperança de que acontecesse alguma coisa.

FLORENCE
31 de outubro – 00:00h

Uma fumaça violeta se ergueu do caldeirão, envolvendo a abóbora e as folhas. Significava que os velhos espíritos haviam aceitado minha oferenda, e eu iria conhecer o outro mundo pra valer.
Ai, meu Deus... Estava acontecendo!
Senti o calor e o frio percorrerem cada um dos meus membros, sacudindo o meu corpo em uma agonia louca que pareceu durar uma eternidade, uma sensação que causava medo e prazer ao mesmo tempo.
E eu já não tinha tanta certeza de que queria mesmo aquilo.
Segurei meu chapéu sobre a cabeça para ter algo em que me agarrar, porque tudo ao meu redor estava girando.
Eu não devia ter feito aquilo.
Agora eu tinha certeza de que não queria mais.
Estava sufocando, desesperada, sem nem conseguir gritar.
A colina desapareceu, e eu estava caindo.

EDUARDO
31 de outubro – 00:05h

Me sentei, impaciente.
O cemitério continuava silencioso.
Não havia acontecido nada.
Me senti decepcionado. Talvez eu tivesse que ser médium para compreender os mistérios do Halloween. E isso era muito injusto.
- Deuses – eu disse, antes que pudesse me conter. – Se puderem me ouvir, eu quero que me mandem um sinal. Qualquer coisa. Qualquer coisa que comprove a existência de um mundo além do nosso.
Sabe aquele velho ditado, cuidado com os seus desejos, pois eles podem se realizar?
Foi tiro e queda.
O vento começou a soprar mais forte, e eu até comecei a sentir medo. Talvez não devesse ter ido até ali esta noite. Talvez eu pudesse me arrepender da minha curiosidade.
Foi quando, não sei de onde nem como, uma garota caiu nos meus braços.
Isso mesmo.
Caiu do céu.
No primeiro momento, fiquei paralisado de choque.
De pavor.
Até um minuto atrás eu estava sozinho no cemitério, e agora havia uma menina dormindo no meu colo.
Olhei em volta, mas tudo havia voltado a sua calma habitual. Quando meu coração e minha respiração voltaram ao normal, decidi não entrar em pânico e descobrir o que estava pegando.
Me voltei para o curioso ser que estava segurando.
Ora... Era uma bruxinha.
Tinha até chapéu. E meias listradas. E sapatinhos pontudos. E uma saia desfiada.
Devo estar alucinando.
E cabelo castanho e longo, e um rostinho adorável, principalmente pelo nariz arrebitado.
Devo estar louco de pedra. Me internem, por favor.
Afastei o chapéu de bruxa para ver melhor aquele rosto. A cidade era pequena, se ela morasse por ali, eu provavelmente a reconheceria.
Mas não.
Era impossível que eu já tivesse visto aquele rosto e houvesse me esquecido.
Totalmente impossível.
Devagar, toquei uma de suas bochechas.
Ela estava um pouco fria, e respirava devagar.
Um pouco trêmulo, com o coração um pouco acelerado, tirei minha jaqueta e envolvi os ombros dela.
Meus deuses, ela era perfeita.
Não como uma modelo, mas como uma verdadeira musa. Acho que até Lord Byron ficaria sem palavras para descrever aquela bruxinha.
Me perguntei se estava sonhando.
Depois me perguntei o que deveria fazer.
Olhei em volta.
A cidade já dormia.
Com muito cuidado e com um pouco de emoção, me levantei, segurando-a nos braços.
Ela era leve.
Mesmo assim, não poderia pular o muro com ela no colo.
Me dirigi para os portões, com a esperança de que o velho zelador houvesse esquecido de trancar o cadeado, como acontecia uma ou duas vezes no mês.
Logo descobri que era minha noite de sorte.

FLORENCE
31 de outubro – 09:13h

Abri os olhos, devagar.
Acho que não cheguei a dormir – uma parte de mim esteve ciente o tempo todo do que acontecia, só que minha consciência estava agitada demais para me deixar reagir.
Me sentei na cama onde me colocaram e olhei em volta, ansiosa para descobrir onde estava.
Era um quarto esquisito e totalmente bagunçado.
Havia fotos de bandas em cada canto das paredes, uma estante cheia de livros e gibis na maior desorganização e uma mesa com um computador.
Por último, havia uma poltrona, e um garoto humano dormindo nela.
Provavelmente havia sido ele quem me levara até lá, me colocara na cama, tirara meus sapatos e depois começara a tentar tocar uma estranha canção, se interrompendo toda hora com o violão. Ele ainda segurava o instrumento.
O observei por alguns segundos.
Usava roupas escuras e o cabelo preto caindo na cara. Tinha também um piercing no nariz. Era estranho, de fato, mas algo na aparência dele era bastante agradável.
Então me lembrei em que mundo eu estava, e quem eu deveria estar procurando.
Na mesma hora me levantei, afobada, e comecei a procurar pelos meus sapatos, que estavam ao lado da cama. Sem perceber, fiz mais barulho do que pretendia, porque o garoto acordou.
Ele se colou de pé em um salto.
- Você! – Exclamou, arregalando os olhos e colocando o violão de lado. – Então você é real, minha bruxinha? Não foi um sonho?
Ergui uma sobrancelha.
- Você fumou um baseado, foi? – Perguntei, terminando de colocar os sapatos. – Deixa pra lá. Pode voltar a dormir e... Hmm... Obrigada por ter me cedido a sua cama, não irei mais incomodar. Tchauzinho!
Me dirigi para a porta, mas ele bloqueou minha passagem.
- Espere! Para onde você vai, deusa?
É mole?
- Vou sair. – Digo, decidida, pegando meu chapéu, que estava pendurado em uma cadeira. – É minha primeira vez no mundo humano. Tenho muito o que ver.
- Não pode ir! – Exclama ele, com o que parecia ser maquiagem preta um pouco borrada nos olhos. – Você não entende, bruxinha? Você é minha musa inspiradora. Os deuses a enviaram até aqui... Para mim!
O olhei em silêncio por alguns segundos, me perguntando como alguém podia ser tão retardado.
- Acho que não. – Respondo, séria, tentando fazê-lo voltar a razão. – Agora, por favor, deixe-me passar, porque já perdi muito do meu valioso tempo.
Ele suspirou, saindo do meu caminho.
- Está bem. Afinal... O que eu estava pensando? Deve achar que sou louco. É apenas uma menina com fantasia de bruxa.
- Não – revido, sem pensar. – Sou uma bruxa de verdade.
- Prove! – Desafia ele.
Aquilo não era certo.
Eu não deveria me revelar para nenhum humano, mas aquele já era bastante perturbado, e eu merecia me divertir um pouco.
- Olhe para trás. – Digo, cruzando os braços.
Ele se virou, e deu dois pulos para trás quando viu o violão flutuando pelo quarto.
- Como você faz isso?! – Indagou.
- Magia. – Respondo, fazendo o violão tocar algumas notas no ar. – Posso fazer isso todos os dias, mas hoje é o único dia do ano que os humanos podem me ver.
Suspiro, fazendo o violão pousar na cama.
O garoto me olhava, boquiaberto.
- Normalmente, venho até a cidade e apronto algumas, mas sempre invisível para os humanos, querendo ou não. – Declaro.
- Meu Deus... – Murmura ele. – Você vem mesmo do outro mundo. Eu chamei por você ontem, à meia-noite, e você atendeu ao meu chamado...
- Calminha aí, querido. – Digo. – Não vim até aqui para ver você.
Ele me olhou, incrédulo.
- Veio para ver quem, então?
Nesse mesmo minuto, a porta do quarto se abriu, revelando o rosto mais lindo do mundo.
O rosto que não me deixava dormir havia semanas.
O rosto que eu vira tantas vezes, mas que até então nunca me vira.
O rosto que me levara até ali naquele Halloween.
- Eduardo, não me diga que esqueceu do nosso combinado?! – Disse ele, olhando para o garoto estranho. Depois me encarou, o que fez meu coração ficar preso na garganta. – E quem é a bruxa?
Eu mal podia acreditar que Miguel finalmente podia me ver.

EDUARDO
31 de outubro – 10:06h

Olhei para Miguel, parado na porta, cobrando uma explicação.
É, eu havia prometido que o acompanharia até a loja de fantasias para que ele escolhesse a dele. Mas esqueci geral do nosso compromisso, porque TINHA UMA BRUXA NO MEU QUARTO.
- Miguel – começo, com uma advertência no olhar. – Acho que não vou poder ir. Tenho uma visita. Essa é a...
A bruxinha olhava para o meu amigo, petrificada.
- Florence. – Disse ela, ainda paralisada.
- Oi – disse Miguel, com um aceno impaciente, antes de se voltar para mim. – Eduardo, não acredito que você vai furar comigo... Ah, deixa pra lá. Divirtam-se!
Ele nos deu as costas e eu quase sorri, aliviado, mas o grito de Florence destruiu minhas esperanças de ficar a sós com ela novamente.
- Espere! – Miguel colocou a cabeça para dentro do quarto. – Eu... Não quero atrapalhar. Aonde... Aonde vocês iam?
- Eduardo ia me ajudar a escolher uma fantasia, já que ele não quer ir à festa do colégio...
- Uma festa? Festa de Halloween? – Os olhos dela brilharam.
Miguel me olhou de forma diabólica, de quem iria aprontar.
- Sim, gostaria de vir conosco, Florence? – Perguntou ele, em tom inocente. – Infelizmente, eu já tenho par. Mas o Eduardo poderia fazer um esforço e te levar.
Florence murchou um pouco com a parte de ir comigo, mas logo abriu um sorriso.
- Certo. Então irei com vocês comprar uma fantasia, e depois iremos ao baile. – Ela olhou para mim. – Eduardo, onde fica o banheiro?
- Segunda porta do corredor à esquerda. – Eu disse, automaticamente.
Ela passou por Miguel com um sorriso satisfeito.
- Qual é o seu problema? – Pergunto, indignado, assim que escuto a porta do banheiro bater.
Miguel ri.
- Parece que você vai ao baile do colégio hoje, meu caro. – Disse ele. – Não tem mais saída. Vai ter que se divertir numa festa como qualquer outro cara norma..
Sacudi a cabeça, irritado.
- Você está estragando tudo! – Ralho, aos sussurros. – Eu queria ficar sozinho com a Florence.
Miguel ri novamente.
- Percebe-se. Parece que a bruxa mexeu com a sua cabeça. Mas não esquenta, terão tempo de ficarem sozinhos na festa. E vai ser ainda melhor, com bebida, estacionamento e longe da vigília do seu pai. – Ele fez uma pausa, olhando em volta. – E é impressão minha ou ela dormiu aqui?
 Antes que eu pudesse ficar embaraçado com aquela pergunta, Florence estava de volta, com as roupas alinhadas, cabelo escovado e cheirando ao meu perfume Dolce & Gabbana.
Ela bancou a dama-bruxa, e ofereceu o braço a Miguel, que aceitou de bom grado, me lançando um sorriso vitorioso.
Revirei os olhos.
Não tive outra saída a não ser pedir cinco minutos para trocar de roupa e escovar os dentes.

FLORENCE
31 de outubro – 10:47h

Parecia até um sonho.
Eu caminhava pela rua, com o braço dado ao meu querido Miguel, sorrindo para as pessoas que me olhavam, surpresas, acreditando que eu já estava fantasiada para o Halloween.
Elas não poderiam imaginar que eu sempre me vestia daquele jeito, que eu era uma bruxa de verdade e que, todos os dias, eu descia até a cidade e dançava ao redor delas, invisível aos seus olhos humanos.
Olhei para Miguel, sorrindo.
Ele, então, não imaginava a paixão platônica e secreta que eu alimentava por ele.
Não imaginava que, enquanto ele estava no colégio e em casa, entretido em seu mundo adolescente, eu estava sempre ao seu lado. Ficava triste quando ele parecia melancólico, e apaixonada quando ele estava alegre.
E eu não fazia ideia de como explicaria isso a ele antes da meia-noite, quando o Halloween acabaria e eu desapareceria do mundo dele durante um ano inteirinho.
- Então, Florence – começou ele, dando uma rápida olhada para trás. – Você não é daqui, não é?
- Não exatamente. – Digo, insegura. Eu não sabia o que Eduardo havia dito sobre mim enquanto eu estava no banheiro tentando melhorar minha aparência. – O que ele disse?
- Eduardo? Nada. Ele sempre age assim quando está interessado em uma garota. Nunca consigo arrancar nada dele.
Olhei para trás, onde Eduardo nos acompanhava, com as mãos no bolso e um pirulito de maça verde na boca, distraído.
- Acho que ele é meio estranho. – Confidenciei.
- É, sim. – Concordou Miguel. – Mas ele é um cara legal. Só precisa se divertir mais. Chegamos!
Paramos em frente a uma loja de departamentos enorme, cheia de quinquilharias nas vitrines, como abóboras de plástico e chapéus parecidos com o meu.
Quando atravessamos a porta giratória, meus olhos cresceram. Diante de nós, lojas e mais lojas, divididas em quatro grandes andares, que pareciam não acabar mais.
- Bem-vinda ao shopping dos pobres. – Diz Eduardo, em meu ouvido, fazendo com que seu hálito de maçã verde chegasse até mim. – Lojas e mais lojas, de todos os tipos, tudo em liquidação.
- Você tem dinheiro, não tem? – Pergunto, aflita. Havia me esquecido que os humanos usam dinheiro. – Preciso comprar uma fantasia!
Ele me olhou de forma demorada.
- Pra sua sorte, tenho dinheiro, sim. Era para comprar meu ingresso para o show do Paramore, mas eu não consigo negar nada a você, apesar de achar que você já é pura fantasia.
Os olhos dele eram violetas.
Percebi isso porque ele estava muito perto, e de alguma forma me envolvia. Como se a magia estivesse nele, e não em mim. Ele não tinha uma beleza de galã de novela como Miguel, mas...
Olhei em volta, para a multidão de pessoas entrando e saindo das lojas.
- Onde está Miguel? – Pergunto, agoniada.
- Ele subiu para o segundo andar, minha flor de lótus. – Disse Eduardo, com um ar um pouco arrogante. – Onde ficam as fantasias.
Na mesma hora, meus olhos captaram Miguel, chegando ao topo de uma escada rolante, falando pelo celular.
Corri na direção da escada, trombando com pessoas e sacolas.
Olhei para os estranhos degraus que brotavam do chão e criavam forma, repetidas vezes. Como alguém conseguia subir aquilo, meus deuses?
Devagar, tentei pular para um dos degraus, segurando no corrimão, mas o corrimão também se mexia.
- Caramba! – Exclamei, quase caindo de cara.
Mas Eduardo havia segurado o meu braço.
- Se não sabe usar a escada rolante, deveria tomar cuidado. – Diz ele, segurando o riso.
Empinei o nariz, com meu orgulho ferido.
- Eu não preciso de escadas rolantes. Posso flutuar até onde eu quiser. Só não quis chocar muito as pessoas.
Sem dizer nada, Eduardo me abraçou, segurando meus braços diante de mim, enquanto subíamos. Como se quisesse me proteger. Ele estava um degrau abaixo, o que me deixava uns poucos centímetros mais alta do que ele.
Fiquei com medo de olhar para trás, para aqueles olhos violetas. Não sabia qual poderia ser a reação do meu coração fraco, que se encantava com pouco.
E eu não queria perder Miguel de foco.

EDUARDO
31 de outubro – 11:02h

Tomei o braço de Florence e me dirigi com ela na direção da loja de fantasias mais popular.
Estava lotada, mas Miguel estava nos esperando em frente à vitrine. Vi nossos reflexos, Florence e eu, de braços dados, e me senti orgulhoso.
Mas não por muito tempo, porque ela me soltou assim que viu Miguel.
- Que descortês! – Exclamou ela, toda sorrisos. – Nos abandonou, Miguel.
- De forma alguma. – Respondeu ele. – Tive que deixá-la para atender uma ligação, mas sabia que Eduardo cuidaria bem de você.
Florence apenas voltou a dar o braço para ele, e também observou as fantasias na vitrine.
- Qual delas você prefere? – Perguntou Miguel. – Pensei em me vestir de pirata esse ano, mas acho que é muito clichê.
- Acho pirata legal. – Declara Florence, pensativa. – Mas você ficaria muito bem como vampiro.
- Vampiro! Eduardo, sua querida bruxa é também uma gênia! Vamos entrar.
Miguel entrou na loja, indo direto para a seção dos sanguessugas.
Florence olhava para todos os lados, curiosa.
- Ali – digo, apontando para a direita dela. – Fica a seção feminina. Você pode escolher o que quiser, mas duvido que encontre algo melhor do que as meias listradas e o chapéu que está usando.
- Tudo bem. – Diz ela, me encarando com ar de desafio. – Mas se eu encontrar, você terá que me comprar um presente, além de pagar pela fantasia.
- Certo. – Respondo. – Mas se não encontrar, terá que me dar um beijo.
Ela dá uma risadinha, se afastando. Tive vontade de segui-la, e talvez dizer o quanto estava louco por ela. Mas Miguel me impediu de fazer aquela besteira, me gritando do outro lado da loja.
- Eduardooooooo! O senhor poderia me ajudar, por favor?
Reviro os olhos, indo até ele.
Miguel estava tentando colocar uma ridícula dentadura de vampiro.
- Sério, Drácula? – Indago. – Pensei que você fosse de Edward Cullen para a festa.
- Muito engraçado. – Responde ele. – E foi ideia da sua bruxa. Me ajude a escolher uma capa.
- Que saco! – Reclamo. – Porque o Anderson não veio te ajudar no meu lugar? Ele deve entender mais sobre escolher fantasias de Halloween do que eu.
- Já disse que ele está viajando e vai chegar em cima da hora da festa. – Responde Miguel, olhando pensativo para as capas nos cabides. – E agora, meu chapa? Veludo ou cetim?

FLORENCE
31 de outubro – 11:18h

Percorri cada canto da loja de fantasias, encantada. Uma parte de mim sabia que eram apenas roupas feitas de lantejoulas e tecido barato, mas ao mesmo tempo eu tinha a impressão de estar vivendo um sonho.
Eu não queria nada tosco como anjo ou fada, mas também não queria apelar para enfermeira sexy ou diabinha. Queria algo que fosse único, e que chamasse a atenção de Miguel, claro.
Ah, e que também me livrasse de ter que beijar Eduardo.
Estava fuçando entre cabides quando observei uma garota vestindo uma fantasia apertada de Branca de Neve.
- Hei – digo, subitamente. A garota me olhou. – Na seção de acessórios tem uma maçã legal, talvez você queira incrementar sua fantasia.
Ela me olhou de cima a baixo.
- Você trabalha aqui? – Perguntou.
- Ah, não – digo sorrindo, embora ela continuasse séria. – Só estou procurando uma fantasia e...
- Então não se intrometa, porque eu não pedi sua opinião, queridinha. – Diz ela, com um sorriso de desdém, antes de se virar e seguir desfilando pela loja.
A olho se afastar, perplexa.
Eu não costumava falar com humanos, então não sabia o quanto eles podiam ser mal educados.
Mas eu podia ser uma bruxa mal educada também.
Antes de perceber o que eu estava fazendo, um estranho vento ergueu o vestido não muito longo da Branca de Neve, tampando o rosto dela e deixando uma calcinha tamanho GG à vista.
Ela gritou, alarmada, chamando a atenção de boa parte da loja, porque, curiosamente, o vestido não queria abaixar. Até que ela trombou em uma arara de roupas, caindo em cima de uma coleção de fantasias de duendes.
As pessoas olhavam. Algumas tentando ajudar, outras apenas rindo. Eu fui até ela, quando a pobrezinha finalmente conseguiu abaixar o vestido, um tanto descabelada.
- Tome – eu disse, colocando a maçã na mão dela e dando uma piscadela. – Mas cuidado. Pode estar envenenada.
A Branca de Neve me olhou, perplexa.
- Você! Foi você quem fez isso!
Eu apenas sorri e me afastei.

EDUARDO
31 de outubro – 11:29h

Enquanto Miguel se dirigia ao caixa para pagar pela capa de vampiro, procurei Florence por todo o departamento feminino, sem encontrar nenhum sinal dela.
Uma das patricinhas do colégio estava lá, envolvida em uma pequena confusão, gritando com um dos vendedores e jurando que uma bruxa a havia empurrado.
Comecei a ficar preocupado.
Parei em frente aos provadores.
- Florence? – Chamei.
- Só um segundo. – Ela respondeu atrás do último provador.
Esperei, impaciente.
Tive vontade de entrar no provador e beijá-la, porque tinha certeza de que nenhuma daquelas roupas brilhantes ficaria mais perfeita na minha bruxinha do que sua vestimenta original.
Mas quando Florence afastou a cortina, descobri que estava enganado.
Porque lá estava ela, com um vestido preto e longo, espartilho vermelho e uma capa também vermelha.
A combinação ideal de musa da magia com Chapeuzinho.
- E então? – Provocou ela, vendo minha reação. – Bem melhor do que as meias listradas, não acha?
Eu não tinha palavras.
Todas fugiam de mim.
Em um impulso, entrei no provador e fechei a cortina atrás de mim.
Florence me olhou (olhos cinzentos), surpresa, encostando-se ao espelho, tímida de repente.
- Você é mesmo uma bruxinha – murmurei. – Olhe para mim. Estou completamente enfeitiçado.
Ela corou um pouco, baixando os olhos, mas eu segurei o rosto dela entre minhas mãos, para encará-la.
- Não me beije – pediu ela, em tom de alerta. – Eu ganhei a aposta, Eduardo. Você terá que me comprar um presente.
Assenti, e foi com um esforço sobre humano que me afastei do provador.

FLORENCE
31 de outubro – 11:54h

De volta aos meus trajes, Eduardo pagou por nossas fantasias (ele havia escolhido a fantasia de Edgar Allan Poe) e começamos a andar pelo departamento.
- Miguel deve estar nos esperando na praça de alimentação. – Avisou ele.
Fomos andando, e eu estava um tanto impaciente.
Porque ele não parava de me olhar, e eu já não sabia dizer se gostava daquilo ou não.
Foi quando uma das lojas chamou minha atenção, me fazendo parar diante da vitrine.
- O que é tudo isso? – Perguntei, paralisada.
- É um estúdio de piercings e tatuagens. – Respondeu Eduardo. – Foi onde coloquei essa argolinha no nariz, e meu alargador.
A ideia me veio de súbito, e me deixou eufórica.
- Quero um piercing! Um piercing na sobrancelha!
 - Mas...
- Eduardo! Por favor. Você me deve um presente...
Os olhos dele pareceram faiscar.
- O que você quiser, minha bruxinha.

EDUARDO
31 de outubro – 12:23h

Levei a bruxinha que agora tinha um piercing na sobrancelha esquerda para a Praça de Alimentação. Ela praticamente saltitava enquanto andava ao meu lado, vasculhando com os olhos todas as vitrines pelo caminho.
Ela havia sido corajosa quanto ao piercing, mas havia segurado minha mão com força.
Miguel já estava lá, terminando um hamburguer, e Florence correu para ele, exibindo o pedaço de metal na sobrancelha.
- Eduardo já está te influenciando. – Disse ele. – Eu não tenho coragem de me furar como vocês fazem.
- Você não gostou. – Acusou ela, fechando a cara.
- Nada disso, ficou bonito. Uma bruxa moderna.
Isso a fez voltar a sorrir e começar a tagarelar ao lado dele.
Depois que Florence e eu também havíamos terminado de comer, recomeçamos nossas caminhada pelo “shopping”, e novamente ela e Miguel iam na minha frente, de braços dados.
Eu já estava ficando cansado daquela cena, na moral.
Enquanto Florence falava, animada, acabou esbarrando em uma menina fantasiada de Cinderela que saia de uma loja de sapatos, toda pomposa.
- Desculpe! – Pediu Florence, recolhendo gentilmente a sacola com uma caixa de sapato que a menina havia deixado cair.
A Cinderela arrancou a sacola das mãos dela com violência.
- Olha por onde anda, sua tapada!
A menina se foi, e eu quase fui atrás dela, para cobrar um pedido de desculpas. Ninguém deveria falar assim com uma bruxa.
Mas Florence me deteve, enquanto Miguel praguejava contra a Cinderela.
- Deixe-a – sussurrou a bruxinha em meu ouvido. – Ela já ficará bastante estressada procurando por isso.
Dizendo essas palavras, ela colocou um sapato transparente em minha mão, provavelmente um dos pés que a Cinderela levava na sacola.
Como Florence o havia conseguido, só a magia poderia explicar.

FLORENCE
31 de outubro – 13:44h

Lamentei ter que me despedir de Miguel, mas eu teria que me vestir e preparar para o baile na casa de Eduardo. Afinal, não havia outra saída.
- Fique linda para o baile, querida Florence. – Havia dito Miguel, me dando um beijo de despedida no rosto.
E eu tive vontade de abraçá-lo, não deixá-lo ir, convencê-lo a me erguer nos braços e me levar até a sua casa, onde nos deitaríamos sobre as folhas secas do jardim e destilaríamos nossos sonhos...
Mas nem tudo pode ser sempre como a gente quer.
Por enquanto, eu não poderia dizer a ele que o amava em segredo, que já sabia o quanto ele era inteligente, elegante e divertido.
E o quanto o fato de, nos últimos tempos, quando eu o acompanhava, invisível, nunca o ter visto com uma garota, me deixava contente.
Miguel deveria ser... Sei lá, minha alma gêmea.
Mas enquanto a hora de me arrumar para a festa não chegava, me contentei em ficar folheando alguns livros no quarto do Eduardo, sentada no chão, diante da estante.
E ele se contentou em ficar sentado na cama, me observando, vez ou outra dedilhando as cordas do violão.
- Sabe... Você é a minha musa. – Declarou ele, de repente.
Me virei para olhá-lo e sorri.
- Você é louco. – Digo. – Como diz Miguel, um emo drogado.
- Tenho o direito de estar louco. – Diz ele, sério. – Ontem à noite uma bruxa caiu do céu, diretamente nos meus braços.
Dei de ombros, voltando minha atenção para os livros, e novamente ficamos em silêncio por alguns minutos.
- Eu compus uma música para você, Florence. – Disse ele, em voz baixa.
- É mesmo? – Perguntei, sem encará-lo.
- Sim. Eu nunca compus uma música tão profunda tão rápido.
- Onde estão seus pais? – Pergunto, de repente, ávida para mudar de assunto.
- Minha mãe está morta. E meu pai deve estar no trabalho.
Novamente, silêncio.
- Que horas vamos ao baile? – Pergunto.
- Seis horas.
- Você acha que o Miguel vai chegar antes de nós?
- E porque tanto interesse no Miguel?
Não respondi.
Eduardo estava começando a me irritar.
Devagar me levantei e o encarei.
- Isso não é da sua conta. – Digo, encarando-o. – Vou te contar uma coisa sobre as bruxas: não somos fadas. Não somos musas, ninfas, nem nada do tipo. E não estou aqui para inspirar você.
Ele colocou o violão de lado, ainda deitado na cama.
- Você ficaria surpresa se soubesse das coisas que o destino pode fazer. – Disse, apenas.
- Pare! – Peço, perplexa. – Vim até aqui hoje para ver Miguel, era com ele que eu deveria estar.
- Tem certeza?
- Não! Porque você me partiu ao meio, e eu não sei mais o que eu quero. Não entendo que direito você tem de me quebrar em duas com esse seu jeito estranho, seu hálito de maçã verde e seus olhos violetas!
Ele suspirou.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Você não entende? – Continuei. – Eu nunca amei ninguém, e só tenho hoje, 31 de outubro, para tentar amar. Acha que eu tenho tempo de ficar dividida?
- Florence... – A voz de Eduardo era mansa. – Vem cá. Deite aqui.
Ele indicou o espaço na cama ao lado dele, e eu me lancei para ele, abraçando-o e deixando as lágrimas rolarem.
- Você está perdida, bruxinha – sussurrou ele, no meu ouvido. – Mas não se preocupe, vou ajudá-la a encontrar o caminho.
- Não me ame, Eduardo – pedi, erguendo os olhos para ele. – Ou melhor, me ame só um pouco.Um pouquinho. Só até a hora do baile.
- Até a hora do baile, então... Até lá você será minha?
- Sua. – Prometi, em um sussurro.
Ele então não aguentou mais e me beijou.
Parecia que estava louco para fazer isso desde a primeira vez que havia me visto.
Devagar, com um pouco de medo, tirei minha blusa, e ele beijou meu pescoço, minha barriga e meus seios sob o sutiã, passando os dedos pelas florzinhas que eu tinha tatuadas na nuca e ao redor do umbigo.
Foi o momento mais erótico da minha vida até agora, mas não deixamos que passasse disso.
Eduardo me abraçou, e pediu que eu também o abraçasse.
- Posso sentir seu coração bater, Florence. – Confidenciou ele. – E você pode ter certeza de que ninguém nunca esteve tão enfeitiçado por uma bruxinha do jeito que eu estou por você nesse momento.
Eu apenas chorava, triste, emocionada.
E, de certa forma, apaixonada.

EDUARDO
31 de outubro – 16: 57h

O tempo pareceu correr, e quando Florence se levantou, se afastando dos meus braços, dizendo que tinha que se vestir para o baile, quem esteve prestes a chorar era eu.
Não entendia o que estava acontecendo, só sabia que, se ela achava que amava Miguel, estaria enganada. Logo descobriria isso.
Ela não deveria gostar dele, pelo simples fato de que ele não poderia gostar dela.
Quis contar isso a ela.
Cheguei a abrir a porta do banheiro, sem bater, sabendo que estava sem tranca.
E então a vi de costas, envolta pela toalha, prendendo o cabelo castanho e longo em um coque, deixando a vista as flores silvestres em sua nuca.
Fechei a porta, aflito.
Não me lembrava de ter, nessa vida, me sentido tão atraído por uma garota como por aquela bruxinha.
Eu a levaria ao baile para que ela sofresse por Miguel, então. E eu sofreria por ela.
Isso era muito Lord Byron.
Coloquei meu terno preto e simples, com um corvo no ombro direito, e reparti meu cabelo ao meio, com a ajuda do gel.
Eu era um perfeito Edgar Allan Poe, mesmo que a maioria das pessoas na escola não fosse entender minha fantasia.
E fiquei esperando na sala.
Ela logo veio, linda como nunca, com a roupa de Chapeuzinho da Noite.
Sem dizer nada, fomos andando até a escola.

FLORENCE
31 de outubro – 18:21h

Eduardo parou e me encarou assim que chegamos na entrada da escola.
- Florence, você precisa saber de uma coisa sobre o Miguel...
- Não – eu digo, antes que ele prosseguisse. – Não me diga nada. Já conheço bastante dele, e logo conhecerei mais. Está na hora do baile. Pare, Eduardo.
Ele não disse nada, apenas desembrulhou um pirulito de uva enquanto entrávamos no salão, de braços dados.
Monstros de todos os tipos dançavam, se agarravam e mais, sob as luzes coloridas e a música gritante.
Eu estava em uma festa humana, sem saber explicar porque estava tão infeliz.
Eduardo, claro.
Não queria partir o coração dele, mas tinha que salvar o meu. Eu havia saído do meu mundo com o objetivo de estar ao lado de Miguel naquela noite.
Tinha que ser assim.
Era a coisa certa a fazer.
Espichei o pescoço, olhando em volta.
- Ali. – Apontou Eduardo.
Logo vi a cabeça loira de Miguel entre os monstros dançarinos.
- Obrigada. – Respondo, dando um beijo na testa do meu par antes de me afastar. – Adeus, Eduardo. Cuide-se.
- Você também, Florence. Ah, e me visite qualquer dia. Não vou vê-la, mas tenho certeza de que poderei senti-la. – Ele segurou minha mão e a beijou, um gesto antiquado e carinhoso.
Sequei uma lágrima que ameaçava cair, enquanto seguia Miguel pelo salão.
Gostaria de ter visto Eduardo antes.
De tê-lo seguido por aí, invisível.
Talvez assim alimentaria uma paixão platônica por ele, e não por Miguel. Assim ninguém sofreria, nem Eduardo, nem eu.
Mas agora era tarde demais.
Perdi Miguel por um instante, no meio da multidão, e quando o avistei novamente, não pude acreditar no que meus olhos viam.
Eu havia imaginado que Miguel levaria alguma amiga para a festa, mas ele estava lá, todo vampiro, beijando a pessoa que deveria ser seu par.
E o par de Miguel... Era um garoto.
Ele me viu na mesma hora em que eu desejei fugir.
- Ah, olá, Florence! Esse é o meu namorado, Anderson. Ele acabou de voltar da Argentina. Querido, essa é a bruxa do Eduardo, de quem eu estava falando.
- Oi. Bonita fantasia. – Disse o outro garoto, me dando uma piscadela. – Onde está o Eduardo?
Eu só consegui sorrir mecanicamente e me afastar, caçando aquele emo sacana pelo salão, disposta a destroçá-lo.

EDUARDO
31 de outubro – 19:11h

Eu já estava chupando meu terceiro pirulito, encostado ao carro de um dos professores, quando Florence apareceu, irada.
- Você! Como pode fazer isso comigo? Te procurei durante quase uma hora!
Me esforcei para não sorrir.
- Eu? O que eu fiz?
- Não me contou que o Miguel é gay!
Dessa vez não aguentei, e abri um meio sorriso.
- Eu tentei te contar, mas acho que não deveria. É uma coisa pessoal dele. Assim como não contei que você é uma bruxa.
Ela tinha lágrimas nos olhos.
- Eu fui tão estúpida... Como não vi isso antes?
- Calma – eu digo, tentando me aproximar, mas ela se afastou bruscamente.
- Não me toque, Eduardo! Você me deixou sofrer tanto por nada...
- Como assim?
- Oras... Poderia ter me poupado de todo aquele drama de ficar dividida entre dois homens. Eu achava que Miguel era o cara certo pra mim, tá legal?
- E porque eu não posso ser o cara certo?
- Porque você é esquisito e usa mais maquiagem do que eu.
Florence deve ter percebido meu ar magoado, porque de pois de alguns segundos deu um passo hesitante na minha direção.
- Ah, Eduardo... Você simplesmente não é o tipo de cara por quem eu achava que iria me encantar um dia. E tudo aconteceu tão depressa...
- Então... Como ficamos?
Afastei o cabelo do rosto dela, passando a mão por sua bochecha.
Ela me encarou, e eu me admito que me derreti com aqueles olhos cinzentos.
- Eu fico amando você. Vou te beijar e cuidar até a meia-noite.
- Depois da meia-noite você deixa de me amar?
- Não. Continuo amando. Só que a partir daí serei invisível e intocável para você durante um ano inteiro. E então você vai me esquecer...
- Nunca – sussurro, enlaçando-a com meus braços, sem conseguir me conter. – Nunca vou esquecer você, minha bruxinha. Você é tudo o que eu sempre pedi. Devo ter sonhado com isso muitas vezes, e agora sei que você é real e está aqui.
Caminhamos juntos pela floresta, em alguns momentos nos sentávamos e olhávamos para a Lua, em outros ela corria entre as árvores e eu corria atrás dela, buscando o brilho do cabelo castanho e dos olhos cinzentos.
Até que chegamos ao cemitério, silencioso com seus mistérios mortos.
E, quando nos demos conta de que já passava das onze da noite, eu a abracei com força.
Eu queria morrer naquele momento. Que meu coração simplesmente parasse de bater em um último suspiro.
Porque eu morreria completamente feliz.

FLORENCE
31 de outubro – 11:59h

- Eu te amo. – Sussurrou Eduardo.
- Eu sei. – Respondi, com lágrimas quentes e um bolo na garganta.
Havia chegado a hora do nosso adeus, e o medo era maior do que eu.
Eu olhava para aqueles olhos violetas, e eles me encaravam de volta, pela última vez durante o próximo ano.
 Mas eu queria acreditar que aquele amor louco, que começou do nada, não iria se apagar tão fácil. Que era súbito e verdadeiro.
Tudo havia acontecido muito diferente do que eu havia planejado. Mas o sentimento de paixão havia sido mais intenso do que eu poderia imaginar em todos os meus sonhos românticos e ingênuos.
Fechei fortemente os olhos quando comecei a sentir que o estava perdendo.
Adeus, querido Eduardo.
Até o próximo Halloween.
Enquanto isso, eu estarei com você, mesmo que você não possa ver.

***

E essa é a lenda da bruxinha invisível e do garoto emo que por um capricho do destino acabaram apaixonados. Alguns dizem que Eduardo alcançou um grande sucesso como compositor com a música que Florence lhe inspirou e que, até hoje, uma vez por ano, eles se reencontram.
Nem todos acreditam nessa lenda, porque a maioria prefere acreditar em lendas de terror no Halloween.
Mas lembre-se: os seres invisíveis também podem ser cruéis, na mesma medida que podem ser apaixonados. E acredito que nada pode ser mais assustador do que uma paixão repentina... Então cuidem dos seus corações, crianças.


Até o próximo Halloween!

5 comentários:

  1. Que lindo! Estou emocionada *.*

    ResponderExcluir
  2. Nossa amei demais essa história! Gi, mais uma vez você me emocionou! A.D.O.R.E.I.!

    ResponderExcluir
  3. Lindo! Eu so emo e adorei o conto! Já li várias obras sobre/com personagens emos e a maioria são de teor pejorativo e repletos de estereótipos idiotas. É bom ver que nem todos os escritores tem uma visão ruim sobre emo e muito reconfortante ver um personagem de nossa tribo em uma história tão bonita!
    Vc acaba de ganhar um fã!

    ResponderExcluir
  4. Muito obrigada, Nandoskenned!
    Que bom que gostou da história...
    E quanto aos Emos, acredito que sejam uma tribo muito interessante.

    Em um mundo dividido em nerds, patricinhas, góticos e outras "classes" é legal brincar com os estereótipos de forma leve, com humor, para que os adolescentes possam se identificar e se divertirem... =)

    ResponderExcluir