terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 1

1. Sem Descer do Salto

Eu já tinha 21 anos e sabia muito bem sobre as várias portas que um belo par de pernas poderia abrir.
Assim, usava minha saia social preta Armani e não muito curta, mas que valorizava minha silhueta quando eu cruzava as pernas, então permaneci assim enquanto esperava tranquilamente o entrevistador.
Minha camisa branca social e básica era Cavalli.
Meu cabelo, alisado com cuidado e recém tingido em tom caramelo, estava preso em um rabo de cavalo discreto. Minhas unhas estavam bem feitas e pintadas com base, minha maquiagem de verão era suave e ao mesmo tempo iluminava o meu rosto, e, claro, meus companheiros que me deixavam com cara de esperta: óculos da Marc Jacobs (que, a propósito, também me ajudam a enxergar).
Mas o meu mundo de grifes e autoconfiança desmoronou junto com o meu sorriso quando a porta se abriu e eu descobri que seria entrevistada por uma mulher.
Oh, Deus...
Foi horrível.
Ela era tão grande, e séria...
Se vestia de um jeito tão sem graça (terninho preto de corte reto) e ainda por cima a raiz do cabelo arruivado estava sem retoque. E ela me fez perguntas que eu não soube responder. E não pareceu nada impressionada quando tirei o meu currículo da minha pasta executiva Victor Hugo.
- Então, Vera Lúcia Sales... Você não fala inglês? – Me perguntou, erguendo uma sobrancelha.
- Não – respondo, me encolhendo na cadeira. – Pero hablo español. A ti te gusta zapatos de tacón?
(Mas falo espanhol. Você gosta de sapatos de salto?)
Ok, foi ridículo, mas foi a única coisa que me veio a cabeça.
A mulher nem respondeu.
Me agradeceu e pediu educadamente que eu me retirasse.
Dei de ombros e saí.
Hmm... Pelo menos eu gosto de sapatos de salto, penso, olhando para o meu querido par de Louboutin preto e vermelho enquanto esperava pelo elevador.
Oh, céus... O que há de errado comigo? Porque não consigo um emprego? Fiz umas cem entrevistas essa semana e nenhuma foi muito boa. E acho que todas as empresas das redondezas já têm o meu currículo e mais da metade nem me ligou.
Você deve estar se perguntando porque uma deusinha que usa grifes caras dos pés a cabeça está tão desesperada por um emprego qualquer de secretária, recepcionista ou o que for.
Acontece que eu sou uma ex-rica, digamos.
A história é complicada.
Na minha família valoriza-se o esforço e o trabalho árduo. Meu pai enriqueceu assim. Meus irmãos mais velhos entraram para faculdades públicas de alto nível e fizeram a vida sem depender dos nossos pais.
Mas eu... Sou tipo a ovelha negra.
Nunca fui uma aluna muito brilhante, sabe...
Quando completei 18 anos, não consegui entrar em uma faculdade pública que prestasse. Nem quando fiz 19. Nem aos 20.
E quando, aos 21 anos, eu praticamente zerei no vestibular, comecei a escutar.
Será que ninguém naquela casa entende que eu sei tudo sobre moda, organizo as melhores festas e sei uma ou duas coisinhas sobre a arte de seduzir, mas não presto para me afundar em livros e cursinhos?
Bitch, please...
Mas não pense que sou algum tipo de patricinha mimada que deseja levar a vida nas costas dos pais, ainda mais porque meus pais reclamam muito.
Então eu fiz minhas malas e fui morar com Rebeca, minha única amiga totalmente independente e a menos rica, devo dizer.
Não que ela não ganhe muito bem na editora onde trabalha, mas enquanto eu gastava fortunas com bolsas, Rebeca gasta com bebidas.
O apartamento dela (que antes ela dividia com a irmã e que agora é minha casa) parece um bar. Ela sabe fazer todo tipo de drink, e nada é tão divertido quando nos embebedamos juntas.
Mas, voltando à realidade, quero independência. Mostrar para os meus pais e pra todos que me criticam que eu posso me virar. Então preciso de um emprego, é claro
Saio do elevador de cabeça erguida, olhando com desprezo para a recepção da empresa financeira. Faça-me o favor. O lugar é tão caído... Quem é que gostaria de trabalhar ali?
Eu não.
O porteiro abre a porta para mim, encarando-me de maneira comprometedora.
Sorrio simpaticamente antes de sair para a rua.
Bem que aquele cara podia ser o entrevistador.

***
- Vera Lúcia? – Escuto a voz de Rebeca ao girar a chave do apartamento.
- Hello – digo, empurrando a porta atrás de mim com a ponta do salto. – Eu trouxe cookies e trufas pra gente.
Jogo a bolsa no sofá e me dirijo até a cozinha, colocando o pacote da padaria na mesa.
Rebeca já estava bebendo um negócio verde e estranho. Me servi uma dose. Argh... Muito amargo.
- Como foi a entrevista? – Pergunta ela, soltando a fumaça do cigarro.
- Tenha dó! – Recuou, tossindo. – Vai impregnar meu cabelo com esse cheiro horrível...
Minha amiga Rebeca Petri é engraçada.
Ela tem 23 anos, e é aparentemente inocente e fofa, loira e pequena como uma boneca. Isso quando não está cambaleando de bêbada pelo apartamento, vestindo apenas pijama ou coisa pior, é claro.
- Foi um desastre. – Digo, soltando o cabelo e passando o dedo entre os fios. Isso sempre me fazia sentir melhor. – Mas eu não tenho culpa. A mulher era muito exigente.
Rebeca riu.
- Ah, Lúcia... Como sempre, né? Era uma mulher, então você não pôde dormir com ela pelo emprego. – Diz ela. – Me dá um chocolate.
- Hei – começo, empurrando o saquinho de papel sobre a mesa. – Eu jamais faria isso, ok? É que eu tenho o jeito para enrolar os caras.
- Deveria me ensinar – diz Rebeca. – Pra ver se eu consigo que o Omar largue a esposa dele, ou largue do meu pé.
Olho penalizada para Rebeca.
Ela morria de amores pelo tal Omar, chefe bonitão dela, mas o cara era casado. O pior é que eles estão tendo um caso há alguns meses, ele vive dizendo que vai se divorciar, mas tá na cara que só está enrolando.
Vou até Rebeca, limpando uma mancha de chocolate no canto da boca dela com o dedão.
- Esse cara tá brincando contigo. E você não deveria deixar.
Rebeca revira os olhos.
- Eu sei, eu sei. Mas o que eu posso fazer? Aquele homem é um deus grego... Ele me enlouquece! Toda vez que eu decido parar e me afastar... Ele me puxa de volta! É quase pior do que álcool, meu Jesus!
- Sua bêbada – digo, carinhosamente.
- Sou mesmo! – Exclama ela, enchendo outro copo.

***

No dia seguinte tive que pegar um ônibus lotado até o outro lado da cidade para fazer uma nova entrevista.
Minha grana estava tão curta que eu já nem podia pegar um táxi. Imagine alguém usando um vestido social cor creme da Gucci entrando em um ônibus.
Desci (na verdade, quase cai pra fora) do ônibus no terminal rodoviário, e peguei meu bloco de anotações onde eu havia escrito o endereço da empresa de telemarketing que eu “visitaria” hoje.
Foi quando alguém me chamou.
- Vera Lúcia? Vera Lúcia Sales?
Alguém me conhecia por ali?
Talvez fosse algum dos meus seguidores do instagran. Eu era famosa nas redes sociais, porque lá eu ainda podia fingir que era rica e sem grandes problemas.
Mas não era nenhum fã. Nem hater.
- Samuel? Samuel Petri, primo da Rebeca? – Eu estava em choque.
Ele abriu um sorriso brilhante.
- Isso! – Disse, estendendo a mão. – Achei que você não fosse se lembrar.
Eu me lembrava dele, com toda a certeza.
Ele era apenas uns cinco anos mais velho que eu, mas eu simplesmente o idealizava quando estava no colegial.
Lembro que, na primeira vez que o vi, na casa dos pais de Rebeca, ele estava saindo da piscina, jogando aquele cabelo loiro para trás, aquele corpo sarado refletindo o sol e uma tatuagem de dragão na coxa... Quase tive um AVC.
Eu tinha quinze anos na época.
O que significa que escrevi sobre ele no meu diário por uns dois meses.
- Como poderia me esquecer de você? – Digo, sorridente.
- Você está linda – diz ele. – Sempre foi linda, mas passou de uma garota para uma bela mulher.
Dou minha infalível risada de flerte.
- Ora... E você continua o mesmo galã de sempre, não é?
Samuel sorriu modestamente. Ele se vestia com simplicidade, percebi, notando os jeans e a camisa verde água. Gostei. Casual e básico.
- Soube que você não está mais morando com os seus pais. – Comenta ele. – Que decidiu ser independente. Meus parabéns.
Sorrio, orgulhosa de mim.
- Obrigada! Não é fácil, mas estou me esforçando... Inclusive, estou morando com a Rebeca agora.
- Sério? Que bacana... Estou indo tomar um café, me acompanha?
Eu iria a qualquer lugar para onde aqueles olhos azuis me chamassem. Mas eu tinha uma responsabilidade. E não era interessante parecer uma desocupada.
- Eu adoraria, mas tenho uma entrevista de emprego agora... – Digo, tentando não parecer muito afetada.
Ele pareceu decepcionado, mas assentiu.
- Então não vou atrapalhar! Nos vemos mais tarde. Vou ter que passar no apartamento da Rebeca para buscar algumas coisas, então nos falamos! E boa sorte!
Nos despedimos com novos apertos de mão.
Saí caminhando pela rua, quase saltitando, balançando minha bolsa vermelha Prada e sorrindo de orelha a orelha.
A entrevista daquele dia foi a pior de todas, mas eu nem me importei.

CONTINUA

5 comentários:

  1. Adorei! Esta de mais Giovanna!!

    ResponderExcluir
  2. La fame !Madmoiselle Giovanna!!Muito bem girl.

    Está Cherry Bomb!

    ResponderExcluir
  3. Engraçado... Tenho uma leve impressão que a vera parece com a Becky Bloom, só não sei por que, rs.
    Mas mudando de assunto, eu AMEI a série!

    ResponderExcluir
  4. Obrigada a todos pelo apoio, vamos começar 2013 com o pé direito! :D
    Sim, Raffael, a ideia para o título veio mesmo da música "Cherry Bomb", das The Runaways (que eu ADORO).
    E Nyque, sou fã da Becky Bloom e a Vera com certeza tem bastante dela na personalidade e, principalmente, na paixão pela moda!

    Um grande abraço a todos!

    ResponderExcluir