domingo, 2 de dezembro de 2012

INFERNAL (2ª Temp.) - 10


10. A Escolha Certa

- Agora fodeu. – Sussurrei, quando minha mãe saiu do carro, seguida pelo meu pai.
- Félix, fique ai. – Pediu ele, antes de bater a porta.
Não respondi.
Apenas fixei meus olhos na cena que se desenrolava lá fora.
Haviam dois homens parados, ambos com roupas pretas de couro dignas de motoqueiros, e um cão grande e preto sentado ao lado deles.
Demônios.
Minha mãe conversava com eles com bastante familiaridade, mas meu pai estava tenso. Eu não conseguia escutar o que eles diziam.
Em algum lugar dentro de mim, apareceu a raiva. Eles achavam que podiam simplesmente decidir a minha vida sem ao menos contar com a minha presença?
Eles começaram a discutir.
Percebi o tempo lá fora mudando ao redor da estrada deserta. Nuvens negras tamparam o sol do nada, e um vento sinistro começou a soprar.
Vi quando os demônios avançaram e as asas do meu pai se abriram, como um alerta.
- Rapaz... – Sussurra Derek. – Eu devo estar muito chapado! Cara... Doidão mesmo! Félix, estou vendo o seu pai com um par de asas de águia! Sinistro!
Não respondi, mas Aurélia reagiu no mesmo momento. Antes que eu pudesse detê-la, ela saltou pra fora do carro e correu para o lado do meu pai, também abrindo as asas, em apoio.
- Sem comentários... – Gemeu Derek, ao meu lado.
Começou a chover pingos grossos.
A discussão lá fora só piorava, junto com a chuva, e eu ainda não encontrava forças para sair do carro.
Era esse o momento.
Eu ia ter que fazer a escolha certa, porque não havia como voltar atrás depois.
- Derek, camarada... Fique aqui. – Eu disse, um pouco hesitante. – Ahn... Foi bom te conhecer, meu chapa. Você foi o único amigo de confiança que eu já tive.
Ele assentiu, ainda olhando boquiaberto para as asas dos anjos.
Desci do carro, sentindo a chuva vir contra mim.
Parecia até que havia algum tipo de energia sinistra no ar. Uma vibração. E não dava para saber se era boa ou ruim.
Um relâmpago cortou o céu, deixando tudo muito claro por alguns segundos.
E então eu pude vê-los.
Anjos e demônios. Dezenas deles. Os anjos do lado direito da estrada, e os demônios do lado esquerdo, em meio às árvores, como dois exércitos prontos para entrar em guerra.
Me senti o cara por um momento.
Parecia que todo mundo estava levando minha iniciação bastante a sério, não é?
- Félix! – Gritou minha mãe, com o cabelo ensopado grudado no rosto, quando me viu me aproximando. – Chame a sua vítima! Vamos começar sua iniciação agora!
Meu pai apenas me olhou, com as plumas das asas encharcadas, como se estivesse implorando.
- Félix, não importa... – Sussurrou Aurélia, indo para o meu lado. – Não importa a escolha que você faça, eu não vou te abandonar.
Escolha escolha escolha.
- Bom, rapaz – disse um dos demônios, com a voz grave e rouca. – Pronuncie-se. Creio que é este o momento. A quem você irá se unir, aos anjos ou aos demônios?
Parei, e todo mundo ao meu redor pareceu segurar a respiração.
Me imaginei dando um amasso em Lila e depois gritando:
- Anjos, porra!
Mas também imaginei minha mãe se consumido em chamas eternas, o que não era legal.
Então me imaginei dando um tapa no traseiro de Aurélia e depois gritando:
- Demônios, porra!
Mas então meu pai sacaria a espada e acabaria comigo, o que também não era legal.
Então, no fim, não disse nenhuma das duas coisas.
- Eu não escolho nenhum dos dois. – Digo, por fim. – Nenhum dos dois, porra!
Meu pai me olhou, surpreso.
- Félix... Você tem que escolher.
- Félix Brian Maya, não se atreva... – Murmurou minha mãe, em tom de ameaça e temor.
- Me recuso a escolher. – Digo, começando a ter confiança nas minhas próprias palavras. – Eu me recuso. E aí?
- Escolherei por você, tenho a sua guarda. – Diz minha mãe.
Mas o outro demônio fez um sinal negativo com a cabeça.
- Ninguém pode escolher por ele. Isso... Acho que isso nunca aconteceu antes. Se recusa a escolher! Qual o seu problema afinal, garoto?
Não respondi.
Porque naquele momento uma névoa esquisita me envolveu, e eu cai no chão, gritando de dor.
- Félix! – Aurélia tentou me segurar, mas eu rolava na lama, me retorcendo.
Era como se alguma coisa queimasse meu corpo, cada músculo meu, e em seguida outra coisa me atingisse, congelando, quase como facadas.
Fiquei de joelhos, com a testa encostada no chão, encolhido.
A dor começou a diminuir um pouco.
Ofeguei, e comecei a sentir.
Elas brotaram das minhas costas em segundos, rasgando minha camiseta. Estremeci, e quando ousei olhar, fiquei chocado.
Asas.
Não asas brancas como a de um anjo.
Asas negras, como de um corvo gigante.
Todos ao meu redor estavam chocados.
Levantei os olhos para Aurélia, que me encarava, surpresa e preocupada.
- Félix... – Cochichou. – Os seus olhos...
Me levantei e corri até o carro, onde Derek cantava alguma coisa lá dentro, e olhei meu reflexo no retrovisor.
Inacreditável, meu...
Meu olho direito estava azul, e meu olho esquerdo estava vermelho. Aquilo... Aquilo significava que eu era metade anjo e metade demônio? Como era possível?!
- Eveline – começou uma voz feminina. – O seu filho não escolheu ser um demônio, que era o acordo do nosso pacto. Nada pessoal, mas terei que cobra-lo.
Me virei e vi Electra.
Affs.
- Está certo. – Disse minha mãe.
Ela parecia dura como uma pedra, rígida e sem nenhum medo. Mas eu sabia que, por dentro, ela estava apavorada.
- Mãe... – Digo, me aproximando dela.
- Não fale nada, Félix. – Diz ela, inflexível. – Nunca irei entender porque você não escolheu ser um demônio. Mas, paciência... Fez o que julgou ser melhor pra você. E reconheço que te pressionei demais fazendo esse pacto. Talvez eu mereça...
Electra deu um suspiro impaciente, e no mesmo momento sentimos o chão tremer.
Uma cratera se abria no meio da estrada, como um vulcão em erupção. Emanava calor e uma luz avermelhada.
Minha mãe ia para o inferno...?
- Não – digo, me colocando entre ela e Electra. – Deixe-a. Eu vou no lugar dela.
Todo mundo me olhou com espanto.
Qual é, pessoal? É só o inferno. Queimando. Pra sempre.
Eu iria pegar um belo bronze.
- Não, Félix... – Diz minha mãe. – Não faça isso...
- Aceito. – Diz Electra, com olhos faiscantes.
Ela estava se achando por finalmente conseguir me separar de Aurélia.
Lila, por sua vez, me encarava com os olhos azuis marejados.
- Félix – sussurrou. – Eu vou dar um jeito de tirar você de lá.
Dei um meio sorriso tenso.
- Fique tranquila, meu anjo. E sem despedidas clichês.
- Filho – diz meu pai, colocando a mão no meu ombro. – Estou orgulhoso de você. De verdade. Muito orgulhoso...
- Blá blá blá – digo, revirando os olhos.
Chega de drama, pessoal.
Eu posso me foder, mas em dúvida eu não estou mais. E isso basta. Félix está no controle de novo. E minha consciência não vai mais me aporrinhar.
Sem olhar para trás, coloquei as mãos no bolso do jeans e me encaminhei para as labaredas que me chamavam lá para baixo.
E lembrei dos últimos versos de O Menestrel (outra vez Shakespeare, devo estar ficando doidão) enquanto caminhava rumo ao inferno.

E você aprende que realmente pode suportar…
Que realmente é forte,
E que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida.

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem
Que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.

CONTINUA

7 comentários:

  1. Nossa, mas vc é mesmo imprevisível! Nunca imaginei ele se transformar em um meio anjo e demônio. Louco pra ver o desfecho.

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  2. OMG! Esta de mais Giovanna! Acho que vou enlouquecer de tanta curiosidade!

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  3. Giovanna agora é oficial, eu me apaixonei pelo seu blog. Desde que eu achei ele por acaso,caçando histórias de vampiros e comecei a ler DIÁRIOS DE UMA BAD GIRL, e viciei e nunca mais parei ver suas atualizações. vc sem dúvidas é uma ótima escritora.parabéns

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  4. Hot,hot,hot very hot! Retornei G! Bom Infernal é uma das minhas prediletas.
    E obrigado po ter me elogiado!KK Assim fico timido.
    Depois dá um passada lá no blog, tô com uma série nova O Anjo Caído.Se quiser ir lá ler: raffaelpetter.blogspot.com

    Muito obrigado

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  5. Oh My God! Giovanna, o que foi isso?
    Tensão, loucura, tudo ao mesmo tempo!
    Meu, amei amei amei este capítulo!

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  6. Obrigada, pessoal. De verdade.
    O apoio de vocês, o incentivo... É MUITO importante pra mim... *.*
    Abraços e beijos para todos!

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