quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SETEMBRO


A culpa era toda da Lena.
Disso Violeta tinha certeza, certeza absoluta, enquanto tropeçava pela calçada irregular, os saltos dos sapatos toda hora enroscando nos buracos.
Lena-estúpida-melhor-amiga que a convenceu em se meter naquilo. Violeta foi estúpida também, por acreditar nela.
Não deveria ter ido àquela festa do pessoal arrogante e cool da escola, aquele ninho de cobras, galinhas, cafajestes, idiotas.
Violeta jamais pisaria naquele lugar se não fossem pelos seus dois caras. Era assim que Lena se referia a eles, os dois caras de Violeta, que não eram dela porcaria nenhuma.
Um era o cara popular, frio e perfeito, que não tirava os olhos de Violeta e ficava paralisado só de escutar o nome dela, mas que não tinha coragem de falar com ela numa boa.
E o outro, que conversava pouco com ela depois que os dois tiveram um lance, mas que ainda ficava radiante só de olhar para Violeta e tentava chamar sua atenção a todo custo.
Dois caras que não sabiam o que queriam, mas que mesmo assim tiravam seu sono... Um verdadeiro drama.
Violeta já não sabia se nenhum a queria, se um dos dois a queria... Enquanto Lena tinha certeza de que os dois eram loucos pela amiga.
- Você vai nessa festa, e vai arrasar. – Disse Lena. – Os dois vão ficar caídos por você, amiga.
E Violeta não queria ir, era muita arrogância pensar que havia dois garotos na dela, justo ela, forever alone, sempre só... Não queria iludir a si mesma, mas as atitudes que os dois tinham a deixavam confusa.
Parou no ponto de ônibus, suspirando.
Estava bem escuro, ninguém a vista. Passava das onze.
E de novo na sua cabeça a cena da festa, se repetindo mil vezes.
***
Violeta havia chego por volta das nove e meia. No fim, decidira seguir o conselho de Lena e ver no que ia dar.
O pessoal já estava dançando, curtindo, bebendo. E ela com uma ponta de medo, orgulho e ansiedade em cima dos saltos altíssimos da mãe.
Então ela viu o cara.
Lindo, o alvo de 50% das garotas da festa. Parecia um manequim, alheio a tudo. Perfeito. Frio. Quando viu Violeta, ficou paralisado. Rapidamente desviou o olhar. Panaca. Parecia até ter medo dela.
Respirou fundo, um copo de refrigerante nas mãos. Continuou circulando, desviando de casais que se pegavam. Tentando ignorar a música de mau gosto que tocava.
Quase deu de cara com o outro. Ele não era o mais cobiçado, e estava longe de ser perfeito. Mas tinha um jeito de ser, uma doçura por trás do estilo radical...
Assim que a viu, abraçou outra garota, colocando a mão dela na própria cintura, numa vã tentativa de enciumar Violeta.
A garota teve vontade de rir. Passou por eles, zombando mentalmente daquele circo, tem gente que não levava jeito para atuação...
Um gole da bebida que levava. Putz... Não era refrigerante coisa nenhuma, lhe disse o gosto amargo do álcool. Mas melhor virar tudo de uma vez e acabar com o drama.
Era isso então, Lena? O perfeitinho e o outro, era assim que eles a queriam? Lena chata. Deveria estar ali com ela naquela hora. Mas não. Lena-futura-modelo tinha ido pra academia.
E agora Violeta, a bolsa da mãe e o par de saltos altos que aguentassem a barra ou fossem embora dali sozinhos.
É. Ir embora é melhor, sempre melhor.
Foi então que aconteceu a tragédia da noite.

***
Sozinha, sentada no ponto de ônibus, Violeta bloqueou os pensamentos. Era melhor nem lembrar. Bastava o vexame que enfrentaria na escola no dia seguinte.
Pegou o celular. Mandou outra mensagem para Lena. Nada.
Ligou. Caixa postal.
Conectou os fones e colocou uma música aleatória, volume máximo, baby. Chega de estresse... Queria a música enchendo sua cabeça, estourando os tímpanos, a bateria martelando o cérebro, as notas da guitarra a rasgando por dentro... Aquilo sim era música!
Maldito-ônibus-que-não-chega.
Porque a música tinha parado? Celular sem bateria. Ótimo. Era só o que estava faltando.
Passos na rua. Um vulto se aproximando. Homem.
Ônibus, por favor...
Como se a escutasse, um ônibus virou a esquina. Aliviada, deu sinal freneticamente. Ia pra casa, acabar com o que a deixava maluca. Tiraria os sapatos dos pés e os dois caras da cabeça. Mas o ônibus passou direto, como se ela fosse invisível.
Droga. Mil vezes droga.
Agora ela não estava mais sozinha no ponto.
Olhou de relance para o recém-chegado.
Devia ser pouca coisa mais velho que ela. Um pouco alto, um pouco silencioso, um pouco sinistro.
Primeiro, achou que ele tinha um cigarro na boca. Depois, percebeu que era o cabo de um pirulito. Percebeu, também, que ele tinha fixado os olhos nela.
Se virou, quase com raiva, dando as costas para o estranho.
Agora todos os caras do mundo iriam paquerá-la, sem nunca falar com ela? Chega disso. Chega de paqueras mal sucedidas naquela noite.
Oh, Deus...

***
Decidida a ir embora, Violeta se dirigiu para o portão de saída da casa onde a festa infernal bombava. Sozinha, tentando não ser traída pelos saltos no jardim mal iluminado, ia descendo a escada.
- Violeta!
Duas vozes.
Se voltou para a esquerda. O cara. Depois olhou para a direita. O outro. Sério, mesmo? Os dois, de repente, no mesmo exato minuto?
Eles se encararam. Provavelmente nem se conheciam. Definitivamente não eram amigos, eram muito diferentes. Mas ambos queriam dizer alguma coisa para Violeta.
Era um drama.
E então, o trágico: ela perdeu o equilíbrio de um dos saltos. E já era tudo. Rolou a escada. Bolsa, cabelo castanho e longo, vestido de renda: tudo espalhado pelos degraus de pedra já lisos.
E todos olhando o desastre. Alguns riram, os dois caras se precipitaram na direção dela... E depois houve um silêncio bizarro. Todos olhando. Até a maldita música parou.
Deus, que vergonha. Ninguém ao menos a ajudou a se levantar. Nem sequer perguntaram se ela estava bem.
Sem olhar em volta, pegou a bolsa e saiu dali, quase correndo, quase chorando. Que droga de noite. Tudo arruinado. Tudo culpa dos malditos sapatos!

***
- Violeta, é setembro.
Ela se virou, sobressaltando-se com aquela voz aveludada, lembranças da noite interrompidas por um comentário repentino de um cara no ponto de ônibus.
O estranho se aproximou, e ela pode ver de perto os olhos dele, se surpreendendo com a cor exótica.
Eram olhos violeta.
Assim como as paredes do quarto dela, assim como o salto agulha dos sapatos idiotas e causadores de estrago.
Ele tirou o pirulito da boca, e o cheiro de maçã verde encheu o ar.
- Está perdida? – Perguntou ele.
Perdida! Ela estava a dois quarteirões de casa. Só não ia a pé por causa dos diabólicos sapatos de salto. Como poderia estar perdida? Ali era o bairro onde cresceu, onde sempre estudou. Conhecia tudo como a palma da própria mão.
Mas quando abriu a boca para responder, foi inevitável:
- Estou.
E uma vontade louca de chorar até não ter mais forças.
Porque ela entendeu o que ele queria dizer, e ele entendeu a resposta dela.
Perdida, completamente perdida.
Só o vazio ao seu redor, mesmo cercada de gente: na escola, na festa, em casa. Casa? Não, ela já não sentia que tinha uma casa. Que lugar era aquele, quem eram aquelas pessoas tão diferentes dela?
E ele lia tudo isso em sua expressão.
- Me diz o que há.
- É como se eu não tivesse mais um lugar aqui – Disse ela, num fio de voz. – Como se estivessem arrancando tudo o que eu tenho...
O estranho a abraçou. Violeta se agarrou a ele, soluçando.
Febril por fora, gelada por dentro.
A jaqueta de couro dele tinha cheiro de setembro.
Da época do começo de primavera, aquele ventinho frio e ridiculamente fantástico. Sim, era setembro.
E Violeta tentando se apoiar em um estranho na meia-noite.
Foi aí que ela entendeu.
O ponto de ônibus sumiu, todas as luzes se apagaram.
E ela viu a si mesma, Violeta, no chão. O cabelo esparramado sobre a pedra, tampando um pouco do rosto.
O pescoço quebrado, em um ângulo estranho. Parecia uma boneca que alguém deixara cair, retorcida daquele jeito.
Um pouco de sangue escorrendo no degrau frio e liso, detalhe sutil de um filme de terror.
Em volta, rostos cinzentos, adolescentes assustados, quase crianças.
E dois caras desesperados, a garota Violeta, a morte, o amor em setembro. Seja o que fossem falar com ela, já não poderia ser dito.
Violeta fechou os olhos.
Chega. Morte, amor, salto alto... Chega.
Lena iria sentir falta dela, mas ficaria bem.
Todos ficariam bem.
Os braços do estranho se transformaram em noite.
Criou coragem e olhou uma última vez para o corpo de boneca. Dessa vez não reparou no ângulo do pescoço nem no filete de sangue. Dessa vez notou as flores do jardim, crescendo ao redor da escada. Eram violetas, com lágrimas nas pétalas, chorando por ela.
E então ela não teve mais medo, e o frio passou.
Era um drama chegando ao fim.
Eram as flores, era a garota indo para casa, em setembro.

Conto que inspirou a série A Sétima Encruzilhada

4 comentários:

  1. ah, não! violeta não pode morrer! eu chorei, de verdade... rs

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  2. Ela morreu? Isso vai acontecer na série também? Que nervoso, tenho que saber o restante rsrsrsrses

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  3. Tomara que Violeta não morra na série, eu não quero que isso aconteça :(
    Giovanna, é impressão minha ou o cara "sombrio" é bem parecido com o "Eduardo" de "O Emo e a Bruxa"?

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  4. Calma, gente! prometo que a série terá um desfecho diferente, ou não teria nem graça, né? XD

    Esse conto foi só uma base... Escrevi para um concurso de literatura aqui de Barueri, mas ele não foi premiado. Mesmo assim, a inspiração ficou.

    E sim, respondendo a pergunta da Nyque, o "emo" dessa história também foi base para o personagem Eduardo de "O Emo e a Bruxa" (Parabéns, você é bastante observadora!).
    Que curioso o jeito que funciona a cabeça de um escritor, não? Rs.

    Mais uma vez, obrigada por visitarem o blog deixarem seus comentários! =D

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